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16 de setembro de 2015

A boa demora – Daniel Vianna

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Já atrasado, coração batendo forte, aguardo no hall social o elevador que nunca chega.

“Mas quem está segurando a porta do elevador a esta hora da manhã?” – penso, já levantando o braço e mirando o relógio, forçando o olhar, pronto para congelar o tempo.

Frustrado, invisto contra a porta do meu moroso transporte vertical – uma, duas, três vezes – nada!

Ele insiste em desdenhar de mim, com a sua irônica indiferença inercial, justo quando mais dele necessito!

Não teve jeito, o elevador de serviço era a minha única esperança. Cruzo o apartamento apreensivo, procurando não acordar aqueles que ainda dormem. Localizo, no molho, a chave da porta da cozinha, que vive emperrando (e que eu não arrumo tempo para consertar!).

Viro a chave apreensivo e torço, silenciosamente.

Para o meu alívio, ela se abre, comportada.

Pronto!

Ao apertar de um botão, em poucos segundos o meu “salvador” aparece, pronto para me submeter a um leve aumento de pressão corpórea em sua descida, e também para baixar a ansiedade e esfriar uma cabeça que há muito tempo anda “pelando”!

Ao abrir a porta do elevador, me vejo obrigado a contornar o salão que dá para o estacionamento, passando em frente à coluna do elevador social. Um leve assobiar me chama a atenção.

Eis que, antes de cruzar a porta que dá para o estacionamento, viro a cabeça e… lá estava ele!

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Sorridente, concentrado, cabeça baixa, balde cheio, rodo em punho; como se fosse uma criança entretida com o seu mais novo brinquedo e segurando, escancaradamente, a porta do elevador social!

Voilà: eis o vilão da minha manhã!!

O assobio parou abruptamente, seguido de um olhar tímido e um educado “Bom dia, senhor! Tudo bem?”.

Ao som de sua voz, eu, que estava prestes a chamar-lhe a atenção, travei.

Simplesmente o ignorei. Não respondi.

Continuei e atravessei a porta, bufando. Um misto de raiva e total propriedade da razão contrastavam com estranhos ecos de piedade e arrependimento. “Bom dia senhor, uma ova! Segurando a porta do elevador às seis horas da manhã para limpeza? Você só pode estar de brincadeira!!”, brigo comigo mesmo em direção ao carro.

Lembro-me do horário e aperto o passo. Coloco a mão no bolso direito, vazio. Coloco a mão no bolso esquerdo, a chave de casa. “Aonde…? A chave do carro! Meu Deus!”.

Meia volta, volver!

E a figura pacata estaria lá, trabalhando diligentemente, aguardando a minha nova passagem pelo hall, pronta para desdenhar do meu contratempo! Imediatamente, o meu imaginário começou a trabalhar: “Vou ter que encará-lo!” . Ao mesmo tempo, não queria que ele me visse!

“Vou pela escada!”. Soluções e alternativas eram cantadas pelo meu cérebro, inconformado. Não tinha jeito. A porta da escada ficava bem próxima da porta do elevador. “Será que ele notou a minha cara feia quando passei? Será que deu para notar?”.

E não parava: “Poderia subir pela rampa do estacionamento e pegar de outro andar? Mas, e se ele já foi embora? Estou em cima do horário… não custa tentar!”

Caminhando devagar em direção à porta do salão, resolvi dar uma espiada; na transversal mesmo, ombro na parede do lado de fora e pescoço esticado. “Ah! Lá estava ele!!”. De costas para mim.

Assobiava contente, despreocupado, em contínuos movimentos com o seu rodo.

Notei um cheiro muito forte, azedo, que antes não havia percebido. Esticando um pouco mais o pescoço vi um líquido viscoso sendo pouco a pouco diluído pela água e retirado pelo homem.

Aparentemente, algum morador havia aprontado durante a madrugada. Fiquei estupefato! Nada abalava a musicalidade do seu assobio.

O mesmo ritmo, o mesmo entusiasmo: uma esticada, uma puxada.

Braços e rodo em sintonia. Como se estivesse, a cada movimento, purificando o chão e a si mesmo. Como se, ao limpar os resíduos de um completo desconhecido (e ainda do tipo que faz pouco caso de suas ações!), fosse elevado a um plano superior.

Como se, ao manejar a sua “companheira de valsa”, ficasse mais perto de um céu repleto de notas de sabão, do que do inferno, travestido no aspecto escatológico do líquido misterioso.

Fiquei ali, por uns instantes, contemplando a cena e, de certo modo, invejando-o.

Não queria mais olhar para o relógio.

Não queria mais sentir qualquer nervosismo.

Queria mesmo era entender, nem que fosse parcialmente, aquela plenitude que pairava bem diante de mim.

– Só mais um minutinho senhor, já vai ficar pronto! – ele agora havia se voltado para mim, me pegando de surpresa, como se soubesse que estava sendo observado.

– Ok, eu espero. Sem problemas. – disse, tentando demonstrar simpatia, torcendo para que ele me confundisse com outro morador.

Continuei a observar.

Esqueci-me do elevador de serviço. Fazia agora questão de ir pelo elevador social.

Uma forma de prestar a homenagem ao rapaz que estava terminando de torná-lo “um brinco”?

Uma forma de engolir meu orgulho e talvez me redimir da estupidez que demonstrei ao deixá-lo no vácuo?

Ou ainda, uma maneira de aprender a lidar com contratempos sem se perder em um labirinto de paranoias, que acabam por machucar os inocentes desavisados que cruzam o meu caminho.

Gentil, ele terminou de secar o piso e, segurando a porta para que eu finalmente entrasse no elevador social, com a cara serena e sorridente, disse baixinho, com a cabeça levemente inclinada para baixo:

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– Obrigado pela paciência! Desculpa qualquer coisa! Tenha um bom dia! – disse, com uma voz que me soou carregada de sinceridade.

– Bom dia! – e finalmente, aos quarenta e minutos do segundo tempo, saiu! E saiu leve, desinteressado, sincero.

Ao som da minha própria voz, a redenção; ao reconhecer uma humildade que, há muito esquecida, voltava a dar as caras; não para me livrar de um atraso quase certo, mas para tornar o meu dia realmente “bom”!

Comentários

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4 Comments on “A boa demora – Daniel Vianna

Leonel Vianna
17 de setembro de 2015 em 17:50

Dany, excelente texto, simples e profundo. Abs, tio Tito

Enviada do meu iPad

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odespertador
18 de setembro de 2015 em 18:05

Valeu tio! Muito bem-vindo teu feedback! Forte abraço, Dani!

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Edina Mara
23 de setembro de 2015 em 09:58

Querido Dani, o avô paterno da Elisa dizia q a humildade trazia felicidade! Ele estava certo, nao e mesmo?E a musica nos liberta…Adorei o texto. Grde abraco.

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odespertador
23 de setembro de 2015 em 11:16

Estava certíssimo! Muito obrigado pelo comentário Edina! Beijos, Dani!

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