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25 de janeiro de 2019

A Divina Prisão

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Por Daniel Vianna Hunziker

 

“Nosso passado não é um registro fidedigno. Pelo contrário, é uma reconstrução e às vezes tende a flertar com a mitologia. Quando revemos as memórias de nossas vidas, nós deveríamos fazê-lo com a consciência de que nem todos os detalhes são precisos. Alguns vieram de histórias que nos foram contadas por outras pessoas, outras foram preenchidas com aquilo que “achamos”  que possa ter acontecido. Então, se você responde a quem você é baseando-se simplesmente nas suas memórias, isto faz da sua identidade algo como uma narrativa contínua, mutável e estranha.”

DAVID EAGLEMAN, em “The Brain – The Story of You”

A mente humana é constantemente louvada e citada como uma das ferramentas mais maravilhosas e complexas encontradas na natureza. Talvez chamá-la de “ferramenta” seja indigno de sua importância, visto que sem ela seríamos incapazes de forjar nossa identidade como seres humanos. Se a mente não existisse, nossa própria consciência ficaria desprovida de um lar.  Por tabela, jamais conseguiríamos distinguir formas e cores, processar uma única ideia, nos comunicarmos…ou seja, nossos sentidos e nosso intelecto ficariam relegados à escuridão, o que significa dizer que se, em algum momento da nossa evolução, a ferramenta “mente” não tivesse sido ligada, seríamos condenados a um vazio de significado, à total inexistência de narrativas e da nossa própria História. Ou seja, sem a mente, só nos restaria o nada, o pleno vazio.

Todavia, o papel da mente em nossas vidas e em nossa evolução ainda está longe de ser compreendido. Muitos cientistas e autores insistem em apontar seus feitos e seu papel fundamental nos nossos saltos evolutivos, mas uma minoria admite sua fragilidade, delicadeza e o seu mau uso recorrente por nós.

Façamos o seguinte exercício: imagine só como seria se uma criança de cinco anos fosse presenteada com um rádio comando de apenas dois botões, sendo que o primeiro, quando acionado, traria de imediato um carrinho carregado de doces, enquanto o segundo traria saladas, frutas e vegetais.  Tentada pela possibilidade de um prazer imediato frente a um aparente sacrifício, é bem possível que ela nunca pressionasse o segundo botão, mesmo que dias se passassem e muitos nutrientes começassem a faltar em sua alimentação.

Este comportamento ilustra perfeitamente como a maioria dos seres humanos ainda se relaciona com a sua própria mente: ainda estamos na infância quando se trata de fazer bom uso dela. Porque, da mesma forma que utilizamos seu potencial para mandar o homem à Lua, criar obras-primas, desenvolver tecnologias, criar remédios ou construir pontes, também somos capazes de deturpar seus potenciais através das guerras, da fabricação de armas, da exploração e escravidão humanas, do desenvolvimento de maus hábitos, vícios; ou seja, da mesma forma que ela nos possibilita criar, ela nos permite destruir com a mesma eficácia.

Envoltos por esta dualidade, nossa espécie sempre nadou – e, em muitos casos, naufragou(!) –  em um mar de contradições. É quase como se a mente humana tivesse, em algum ponto da nossa evolução, roubado nosso livre arbítrio e adquirido uma voz própria.  Porque, ao mesmo tempo que funciona como receptáculo de todo nosso conhecimento e motor da nossa personalidade, é também a nossa maior produtora de medos e ilusões  ( capaz, inclusive, de produzir roteiros dignos dos melhores profissionais de Hollywood!). E, se optamos por permanecer na ignorância quanto às características deste mar revolto chamado “mente”, estaremos fadados a afundar ou, na melhor das hipóteses, a permanecer aprisionados em um determinado quadrante da realidade que pode não ser muito agradável.

A Mente e o Elástico

Uma das características associadas à voracidade da nossa mente é a de classificar e “compartimentalizar”  a todo instante inúmeros pedaços de informações, fazendo com que tenhamos, de forma contínua, um retrato dissociado da realidade. Em outras palavras, o que ela costuma produzir é  um quadro incompleto e fragmentado do que se passa ao nosso redor. Como se não bastasse, cada um destes pedaços isolados pode, por si só, gerar outras sub-realidades, ainda mais distantes e ilusórias daquilo que é , de fato, testemunhado. Acontece que, durante o processo de leitura do ambiente, nossa tendência natural é permanecer no interior deste cenário limitado e incompleto, recontando as mesmas histórias para si mesmo.

E por que isto acontece?

Porque o cenário, mesmo incompleto e tediosamente repetitivo, nos é familiar. Nós conhecemos suas cores, suas características, sensações. Podemos dizer, até certo ponto, que este ele também nos define e, portanto, é natural que tenhamos uma afeição por ele. Por outro lado, permanecer ali, por mais confortável que possa parecer, também tem o seu preço: a estagnação

Infelizmente, saber disso não resolve o problema: o trânsito de uma realidade à outra exige esforço e disposição e, como se não bastasse, é repleto de provações e armadilhas. Nossa mente, uma vez condicionada, funciona como um elástico que, uma vez esticado em determinada direção, tenderá a retornar à posição de repouso.

E por acaso seria humanamente possível manter este elástico esticado por tanto tempo? Ou, melhor ainda, seria possível livrar-se por completo do elástico que nos mantém presos?

Duas das mais famosas histórias de todos os tempos, a seguir, podem nos ajudar a visualizar caminhos para responder a esta tão angustiante pergunta…

O Monstro de Creta

Uma conhecida narrativa da mitologia grega diz respeito a uma criatura repugnante, aprisionada por um rei em um labirinto na ilha de Creta. 

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Conta-se que o Rei Minos, em meio à disputa de poder com seus irmãos, pediu um sinal à Poseidon, o deus dos mares, com a intenção de selar a sua soberania e confirmar o seu direito divino ao trono. Poseidon respondeu ao chamado enviando-lhe de presente um belo touro, o qual Minos havia prometido sacrificar tão logo tivesse seus anseios atendidos, como uma oferenda e um símbolo de submissão ao deus.

Entretanto, Minos esqueceu-se de sua promessa à Poseidon e manteve o animal sob os seus domínios, oferecendo ao deus um outro touro, igualmente belo. A atitude do Rei foi suficiente para despertar a ira de Poseidon que, como resposta,  tratou de despertar em sua esposa, a rainha Pasífae, uma louca paixão pelo animal.

O resultado desta bizarra e inesperada união foi a célebre criatura que conhecemos como Minotauro, descrita pelo autor Ovídio como parte homem, parte touro. Para evitar possíveis escândalos e constrangimentos em seu reino, Minos convocou o arquiteto Dédalo e o incumbiu de construir um enorme labirinto para esconder a aberração. O Minotauro foi aprisionado e Minos pôde voltar a atenção aos seus domínios. Porém, ainda restava um problema: de tempos em tempos, a criatura precisava ser alimentada.

Aproveitando-se da soberania de Creta sobre Atenas, Minos instituiu que, a cada nove anos e como forma de pagamento de tributos, sete moças e sete rapazes atenienses deveriam ser cedidos à Creta. Seu objetivo não era escravizá-los ou torna-los serviçais em seus aposentos, mas sim atirá-los no interior do labirinto para servirem de alimento para a repugnante criatura.

Inconformado com a situação dos jovens conterrâneos, Teseu, filho do governante de Atenas, Egeu, resolveu partir para Creta, oferecendo-se para entrar no labirinto e dar cabo da criatura. A filha de Minos, Ariadne, apaixonou-se pelo jovem herói e se propôs a ajudá-lo em seu desafio. Ariadne se ofereceu para ficar parada, em frente à porta do palácio, segurando uma das pontas de um novelo de lã, enquanto Teseu o desenrolaria ao percorrer o labirinto. Desta maneira, não teria qualquer dificuldade para achar o caminho de volta, uma vez cumprido o seu objetivo maior.

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Adão, Eva e as Duas Árvores

A história de Adão e Eva talvez seja uma das narrativas mais conhecidas de todos os tempos, mas não nos custa revisitá-la.

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O primeiro personagem (e protagonista), claro, é o próprio Deus. No texto do Gênesis, é descrito como o Criador, o Verbo, o detentor da ciência perfeita. Do barro, Deus molda, à sua imagem e semelhança, o segundo personagem da história: Adão, o primeiro homem.  Para que Adão tivesse todas as suas necessidades atendidas, Deus concede a Adão um lar de imensa abundância e belezas naturais, o Paraíso. Percebendo a solidão de Adão com o passar dos dias, Deus toma uma atitude: aproveitando-se do sono de Adão, remove uma de suas costelas e cria Eva, a primeira mulher. Juntos, os dois estariam livres para usufruir de todas as benesses do Paraíso, desde que respeitassem uma única condição: jamais deveriam comer o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Porque, se o fizessem, encontrariam a Morte.

Por um tempo, a regra foi obedecida e não ousaram se aproximar da árvore proibida. Mas a serpente, o mais astuto dos animais, certo dia se aproximou de Eva e sugeriu: “Se comerem o fruto da Árvore do Bem e do Mal, seus olhos se abrirão e serão como deuses! É por este motivo que Ele os proibiu  de experimentá-lo!”. Eva não resistiu.  Colheu a maçã e a mordeu. Em seguida, aproximou-se de Adão e ofereceu-lhe uma mordida. Adão aceitou e, tão logo arrancou o primeiro pedaço, percebeu que estava nu e escondeu-se atrás da primeira moita que encontrou. Deus, então, perguntou aonde estavam e Adão se explicou: “Nos escondemos porque tivemos vergonha. Estamos nus.” Deus respondeu: “Quem lhe disse que estavam nus? Por acaso comeram do fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal?”.

O triste fim é conhecido por todos nós e simboliza a queda da humanidade: Adão e Eva foram expulsos do Paraíso e, para impedir que retornassem, Deus colocou anjos para proteger a Árvore da Vida.  Ao não conseguirem se contentar com as belezas do Paraíso e optarem pela intranquilidade e danação da autossuficiência oferecida pela Árvore do Conhecimento, Adão e Eva cometeram o Pecado Original, que é o rompimento com a essência, com a Verdade e com o Criador.  Como consequência, toda a humanidade ficou marcada pelo pecado e sujeita às vicissitudes da carne.

O Labirinto e a Árvore

É preciso reconhecer que à primeira vista, o mito grego e a narrativa bíblica parecem não reverberar de imediato na dinâmica de nossos processos mentais.

Talvez nos aproximemos do nosso objetivo se tentarmos compreender as semelhanças entre as duas narrativas.

De imediato, é possível perceber que tanto Minos como o casal do Éden atentaram contra as leis divinas (Minos contrariou  Poseidon;  o casal desobedeceu ao próprio Deus). A imprudência de suas ações, ditadas por seus impulsos, resultaram em vergonha e descrédito. Minos camuflou sua desonra erguendo um labirinto; o casal o tapou com uma folha!

Mais adiante, verificamos que ambos foram imediatistas, desconsiderando por completo as consequências de seus atos. Confiaram apenas naquilo que estava diante de seus olhos  e ignoraram as demais forças que regiam suas vidas e ações.

A última semelhança se dá pela escolha da racionalidade diante da crise. Uma racionalidade movida à soberba, com o objetivo de se igualar aos deuses e, se possível, tapeá-los.

Na história ambientada em Creta, relembremos que o Rei Minos contou com a ajuda de Dédalo para tentar resolver o seu problema. Dédalo, o Arquiteto, pode ser compreendido como a engenhosidade e inteligência humanas. O labirinto, por sua vez, pode ser compreendido como o nosso inconsciente. E este, desprezado pela racionalidade e relegado à escuridão, abriga terríveis criaturas que podem agir à revelia da nossa vontade consciente.  Na vida real, porém, não é com o Minotauro que lidamos, mas com nossos medos mais profundos, nossas vergonhas, nossas palavras não ditas, enfim, todo um exército de criaturas e fantasmas presas nas catacumbas, responsáveis por drenar nossa energia ao longo da vida. Podemos até tentar acobertá-los com a nossa racionalidade, mas existe um limite até o qual podemos afugentá-los, sem que exijam, de tempos em tempos, que os alimentemos com os  jovens de Atenas (nossa alegria, disposição, espontaneidade).

Já na história ambientada no Éden, a escolha do primeiro casal pela Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal ilustra a tendência humana à aquisição do conhecimento (*) confiando exclusivamente na sua autossuficiência. Uma autossuficiência que, conforme a nossa própria História nos evidencia, foi erigida em grande parte pela nossa capacidade de raciocínio e lógica (Dédalo mais uma vez!), pela nossa suposta superioridade diante dos demais elementos da Natureza e por uma valorização extrema do plano material. Uma vez despejados do Paraíso, incorporamos estes ingredientes em nossa receita para a sobrevivência e seguimos em frente, assumindo o fardo sobre a condução do nosso próprio destino.

(*) NOTA: É importante ressaltar que a busca por conhecimento é necessária e um dom concedido ao ser humano. Entretanto, ele deve estar à serviço da manutenção da vida e à serviço do bem maior – e não ser usado como medida de poder ou para beneficiar apenas ao indivíduo que se apropria dele. Podemos entender que a integralidade e a consciência maior da Árvore da Vida deve prevalecer sobre o a fragmentação e o egoísmo representados pela Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.

Mente racional : sinais de esgotamento

Voltemos ao exemplo do elástico para ilustrar os perigos de adotar a racionalidade como a única bússola para a nossa vida.

Ao se deparar com uma nova situação, nossa mente sempre tenderá a retornar a uma posição conhecida e confortável, usando o repertório existente para configurar uma reação. E, diante do desconhecido, o mais natural é que respondamos com medo e um senso de autopreservação.

O efeito nem sempre é perceptível. Podemos ter a falsa sensação de que estamos no controle da situação, mas toda uma realidade já foi construída em fração de segundos, sem nenhuma interferência nossa. Nossas respostas ao ambiente seguirão um script pré-determinado, falsamente conduzido por uma mente que se julga racional, mas que já foi tragada por sensações e emoções muito mais intensas e que, naturalmente, serão as verdadeiras condutoras das nossas ações.

Podemos pensar que controlamos as palavras que saem da nossa boca, a linguagem corporal que utilizamos e as ações que realizamos, mas elas já foram decididas muito antes, visando nossa proteção e a mera confirmação de um repertório que já havia sido construído ao longo de uma vida. Um repertório que muitos de nós não suportaria que fosse desacreditado. A vida, então, se torna uma eterna confirmação do que já se sabia antes, um único caminho a ser percorrido por muros que já foram construídos em nosso labirinto particular!

Um termo popular para caracterizar esta situação é chamado “viver em uma bolha”.  Entretanto, o uso da palavra “bolha” talvez minimize a  escala dos obstáculos a serem transpostos aqui. E, quando lidamos com a ferramenta “mente”, todo cuidado é pouco. 

Lidamos com um poder capaz de criar nações, cidades, edifícios, auto-pistas, sistemas de governo e computadores. Ainda assim, o ser humano do século XXI tem dificuldades para entender que é através dela que criamos nossa própria realidade. Através de nossos pensamentos, palavras e ações, mundos podem ser criados ou destruídos. Entretanto,  também é através da mente que somos tragados de nossa presença, sempre envolvidos em ideias recorrentes de passado e futuro e projetando nossas piores características nos outros.

Desta forma, é compreensível nossa dificuldade em  lidar com esta ferramenta no nível individual. Além disso, é inevitável que o indivíduo tenha que lidar com a mente coletiva, que também possui um elástico próprio. Ainda que se desejemos mudanças e outras realidades possíveis, temos que lidar com forças contrárias avassaladoras, que lutam pela manutenção do que já existia antes – mesmo que não seja o mais adequado para a realidade de hoje ou, pior, mesmo que nos leve à autodestruição.

Nos dias atuais, estamos conhecendo o limite da racionalidade humana para resolver problemas. A crescente preferência pela Inteligência Artificial em detrimento da inteligência humana apenas prova o ponto de que é muito mais eficiente recorrer a um tipo de inteligência que não sucumbe a sentimentos e emoções para dar conta do recado. Para a parte ocidental do mundo, que depositou todas as suas fichas em um modelo mecanicista-cartesiano, parece que a fatura chegará mais rápido.

Como se não bastasse, toda a onda de mudança que move o mundo contemporâneo (catástrofes ambientais, mudanças climáticas, deslocamentos populacionais, crises econômicas, desgaste do modelo democrático, violações de privacidade e guerrilhas ideológicas nas redes sociais e o próprio avanço da A.I. etc.) contribui para evidenciar que a nossa mente racional não está dando conta do recado. Os reflexos são nítidos: uma explosão de doenças psicológicas e o uso desenfreado de medicamentos por uma parcela considerável da população. Frente a um ambiente frenético, competitivo e movido ao medo como da sociedade atual, dificilmente nossa mente permaneceria íntegra sem uma “ajudinha”.

Por outro lado, as redes sociais evidenciaram o quanto a nossa espécie ainda possui de traços irracionais. Os 24 anos de uso massificado da internet, uma ferramenta desenvolvida com o nobre objetivo facilitar a comunicação e interação entre seres humanos, serviram também para desmascarar nossa imaturidade emocional e comportamental. A tecnologia, claro, resolve o problema até certo ponto. Mas, quando o assunto é usá-la para a nossa evolução, ainda escorregamos, deixando-nos tomar pelos nossos instintos mais primitivos: necessidade de autopreservação, competição etc. Em um piscar de olhos, retornamos à infância, e apertamos sem parar o primeiro botão do nosso rádio-comando!

Mas será que, depois de todos estes milênios de evolução, o ser humano estará condenado a sempre andar em círculos?

Assim como Minos, talvez tenhamos confiado demais em Dédalo para camuflar a vergonha do nosso fracasso. E, a cada nova solução que adotamos, parece que ficamos ainda mais distante da saída do Labirinto e à mercê do monstro que ronda seus escuros corredores.

Ou talvez devêssemos ter levado mais a sério o alerta do Criador. Mas avançamos fundo na Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, sem olhar para trás e com o pé no acelerador, transitando por todas as ramificações possíveis, penetrando suas raízes e acreditando que, além do conhecimento, ela nos proporcionaria independência e liberdade. Mas parece que em algum ponto seus galhos se contorceram e nos aprisionaram, sem que tenhamos percebido. Adquirimos o conhecimento, conforme nos foi prometido pela serpente. Mas, em algum ponto, ele começou a nos sufocar. E, em vez de nos libertar, nos tornou escravos.

Encarando o labirinto…e retornando para casa

Será que, algum dia, romperemos com os elásticos, acharemos a saída do Labirinto e retornaremos à paz e harmonia do Paraíso?

A resposta ao nosso drama coletivo talvez não virá da forma como idealizamos. Mas  isto não significa que certas reflexões podem nos ajudar.

Voltemos nossa atenção aos desfechos das histórias…

Na história grega, Teseu matou o monstro de Creta com a ajuda de Ariadne. Ela havia se apaixonado por Teseu e ofereceu-se para segurar a outra ponta de lã, não permitindo que o herói se perdesse no labirinto. Ariadne, segundo a Psicologia Analítica de Carl G. Jung, pode ser considerada como o aspecto inconsciente da personalidade interior feminina do homem, que faz alusão à intuição, conhecida como Anima. A confiança (ou fé) desenvolvida pelo herói – sabendo que alguém segurava a outra ponta do novelo de lã  -, não permitiu que fosse consumido pelo medo de se perder.

No relato bíblico, nossa queda simbólica pode ter se iniciado com a escolha de Adão e Eva pela Árvore do Conhecimento, mas não nos esqueçamos que ela está longe de ser definitiva. Afinal, ela figura no início do primeiro capítulo da Bíblia. E boa parte de nós conhece o ápice da narrativa: a definitiva salvação da humanidade através da vinda de Jesus Cristo, muitas vezes  representado como o novo Adão, enviado à Terra para a restauração da Árvore da Vida. Podemos ter escolhido a opção errada logo no início, mas isto não significa que ficaremos para sempre presos na areia movediça que circunda a Árvore do Conhecimento.

Podemos sorrir diante dos finais felizes, mas também temos escolhas difíceis, importantes e solitárias para fazer. Além disso, não podemos aguardar pela mudança coletiva, porque trata-se, antes de mais nada, de uma escolha individual.  Se por medo ou vergonha erguemos nossos próprios muros e labirintos e cultivamos nossos monstros de estimação, movidos por um desesperado instinto de autopreservação, ninguém poderá enfrentá-los por nós. Chamamos este direito de escolha de livre-arbítrio.

Talvez seja um bom sinal que as duas histórias apontam para uma direção convergente: só pela confiança estrita no AMOR,  e seu fortalecimento dentro de nós é que teremos a coragem de percorrer e sair ilesos do labirinto pelo qual transitamos por tantos anos. Mas antes, talvez, precisemos discernir entre o amor tantas vezes manco e distorcido por nós – e confundido com carência, apegos, ideologias e paixões – mas um AMOR que realmente é capaz de segurar a outra ponta do novelo sem nos abandonar. Aquele que nos conhece por inteiro e não nos reparte em fragmentos e rótulos. Aquele que incinera as ilusões que nos prendem à Árvore do Conhecimento. Quem sabe, assim, possamos ter uma chance de retornar à paz oferecida pelo Paraíso?

 

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“Há duas maneiras de chegar em casa, e uma delas é ficar por lá. A outra é caminhar e dar a volta ao mundo inteiro até retornarmos ao mesmo lugar.

(…)

A história dizia respeito a algum rapaz cujo sítio ou casinha situava-se num desses declives, e ele empreendeu uma viagem em busca de alguma coisa tal como uma efígie ou o túmulo de algum gigante. E quando estava a uma boa distância de casa ele olhou para trás e viu que seu próprio sítio e quintal brilhando nitidamente no flanco da montanha, como as cores e quadrantes de um brasão, eram apenas partes de alguma dessas figuras gigantescas, onde ele sempre havia morado, mas que eram demasiado grandes e estavam perto demais para serem vistas por inteiro.

Tudo está bem com o rapaz quando ele mora na propriedade de seu pai; e tudo está bem com ele quando está longe o suficiente para olhar para trás e ver a propriedade toda. Mas alguns chegaram a um estado intermediário e caíram em um valo, de onde não se podem ver nem os montes lá na frente, nem os montes lá atrás. Vivem ainda na sombra da fé, perderam a sua luz. Ora, a melhor relação com a nossa casa espiritual é ficar suficientemente perto para amá-la. Mas a segunda melhor relação é ficar suficientemente longe para não odiá-la.”

~G.K. Chesterton, em “O Homem Eterno”

 

Comentários

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2 Comments on “A Divina Prisão

Rosane Piper
29 de janeiro de 2019 em 14:49

Belíssimo texto, Daniel! Ótima reflexão pra começar bem a semana. Livre arbítrio aqui é “free will”, adoro essa tradução. Sim, somos livres pra fazer nossas escolhas mas que sejamos responsáveis por elas :
ônus ~ bônus
Grande abraço meu e do Mark

Responder
odespertador
2 de fevereiro de 2019 em 15:28

Obrigado Nane!! :) Free Will na veia!! Muito obrigado pelo comentário! Saudades de vocês, um beijão em você e no Marquito!!

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