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21 de março de 2016

A voz do coração- Tatá Vianna

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O primeiro passo para nos entendermos como pessoas diferentes deve ser dado por nós, considerando que as diferenças são relativas.  

A “Família Bélier” é uma comédia francesa que mostra o dia a dia de uma família francesa donos de uma pequena propriedade rural.

A família tem algo muito especial: pai, mãe e um dos filhos tem deficiência auditiva. A jovem Paula é a única da família sem a deficiência. Desta forma, torna-se a interprete indispensável da família, sendo responsável pela comunicação com o mundo externo, tanto para assuntos referentes à administração da fazenda quanto para a comunicação rotineira com os vizinhos.

Ao mostrar o cotidiano da família Bélier, o diretor Eric Lartigau, deixa claro que ouvir vai muito além do que ter uma boa audição. Mostra a perfeita integração de comunicação da família na execução das atividades da fazenda, a distribuição bem definida de tarefas e a vida saudável e feliz que a família leva.

No início do filme, como eles quase não interagem com estranhos, a deficiência de comunicação não existe, pois pela língua dos sinais todos se entendem mutuamente como uma família normal.

Mesmo com a dificuldade verbal e auditiva, os pais da jovem Paula são extremamente eloquentes e se fazem entender perfeitamente. Porém, quando estão no mundo exterior, fora da família, eles não se esforçam para entender os outros nem se fazerem compreensíveis, demonstrando até certa impaciência com aqueles que não são como eles, sobrecarregando a filha, que precisa traduzi-los para as outras pessoas.

Só que alguns acontecimentos irão despertar nos pais a necessidade de se comunicar com os outros, mas agora, sem aquela má vontade de antes. O primeiro é o descontentamento deles com a administração do atual prefeito da região, um populista caricato, que faz com o que pai de Paula se lance como candidato às próximas eleições com o irônico slogan “Je t´entends” – “Eu te escuto”, onde o diretor mais uma vez nos mostra que “ser surdo não é uma deficiência, mas uma identidade”. É o início de uma campanha voltada para a integração das diferenças na comunidade.

Um aspecto interessante dessa cena é que ao se candidatar a prefeito, ele ganha o apoio da sua família e de alguns amigos, pois estes também estão insatisfeitos com o atual prefeito, o que deixa claro que há surdez também entre políticos, quando estes não escutam o que a população tem a dizer.

Paralelamente, nas aulas de canto da escola, Paula tem seu talento descoberto pelo professor que a convida para uma audição teste para entrar numa famosa escola de música em Paris. E é nessa hora que o conflito da jovem aparece. Como abandonar sua família que de certa forma depende dela e ir atrás dos seus sonhos? Como lidar com o sentimento de culpa?

É importante observar que além desse conflito vivido pela Paula, o diretor nos mostra o lado da dependência da família em relação a ela, pois ao contar seus planos aos pais, eles se sentem agredidos. E de repente, eles não conseguem mais se comunicar com ela e não compreendem o fato dela querer ir embora para Paris estudar canto e correr atrás do seu sonho. Esse é o segundo acontecimento importante do filme que é à base da mensagem principal do filme.

Nessa cena, podemos observar de fato, os pais como pessoas surdas – no sentido de não compreender e “ouvir” as necessidades da filha. O interessante no filme é que Paula descobre sua vocação e paixão pelo canto, coisa que os Bélier não conseguem compreender. E é essa uma das ironias do filme, pois se eles não entendem isso, como entender a importância que a música tem para a filha? E isto é base de um grande descompasso entre pais e filha.

E esse conflito será responsável por uma das cenas mais bonitas do filme, onde eu confesso que fiquei surpresa e emocionada, pois a partir dela entendemos o real significado de “ouvir com os olhos”.

O final do filme é emocionante! O enredo é simples, mas daqueles que comovem a todos, onde a deficiência da família Bélier é tratada sem piedade e com um humor leve e cativante.

É um filme que desperta a fala do outro em nós mesmos e mostra que o amor não precisa de palavras e sim de atitudes, gestos e compreensão. Não é necessário ouvir e sim compreender!

Então eu te pergunto, querido leitor: Como você tem lidado com a “surdez” que te cerca no dia a dia?

 

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