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24 de agosto de 2017

A identidade e o vazio – Daniel Vianna Hunziker

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Ao nos confundirmos com o objeto, perdemos também o controle sobre o verbo.

O sujeito, então, se torna inexistente.

 

Quem sou eu!?

Estas três palavrinhas foram capazes de tirar o sono dos maiores filósofos da História. Talvez seja a pergunta que mais assombra a espécie humana desde o início dos tempos e parece fácil de constatar que a angústia em torno dela tenha crescido de modo exponencial ao longo de nossa evolução como espécie.

“Ser ou não ser”: o drama do Príncipe Hamlet nunca foi tão atual e vêm se tornando o maior pesadelo do homem moderno, tão conectado à tecnologia, dados e informações e ao mesmo tempo tão desconectado de si mesmo.

Enquanto o nosso ancestral da caverna direcionava todo os seu esforço para garantir  um pedaço de carne e não ser morto por uma fera qualquer, e a sua identidade estava, de alguma forma, associada apenas ao seu instinto de sobrevivência e à promoção da continuidade da espécie, o homem moderno usufrui da conveniência de ter a sua carne congelada no freezer, e sabe que nenhuma fera o atacará durante à noite ou em sua sala de TV. Dessa forma, o seu maior desafio passou a ser sobreviver, dia após dia, a uma claustrofóbica falta de sentido diante da imensidão do cosmos.

E temos sobrevivido, ano após ano, mas não sem graves consequências.

O vazio existencial ou desconhecimento sobre a razão/propósito da existência tem sido o grande responsável pelo surto de doenças psicológicas e um grande combustível para desvios comportamentais, éticos e para o derramamento de sangue, justificados pela dor que este vazio é capaz de gerar, quando incompreendido. “Se Deus não existe, então tudo é permitido”, como colocou Fiodor Dostoievski, no imortal “Os Irmãos Karamazov”. Ou seja, se não há razão aparente na minha existência, por que me preocupar? Ou ainda, por que me comportar?

Nossa sociedade nos doutrina, desde cedo, a tapar este buraco existencial a qualquer custo. Entretanto, quando fazemos isto à revelia e sem consciência, podemos atrair ainda mais transtornos, perpetuando o rombo emocional ao invés de curá-lo. Todo ser humano, no mais profundo, está em busca de amor e compreensão. Acontece que, muitas vezes, tomados pela nossa inconsciência, empreendemos buscas em terrenos estéreis, traindo a nossa própria identidade através de pactos e alianças que supostamente nos trarão um mínimo de reconhecimento e prestígio.  E é assim passamos a reconhecê-los como uma forma de amor. Entretanto, nada poderia estar mais distante da verdade pois, tudo o que possui origem externa ao ser está, também, fora do seu controle. Sendo assim, a busca incessante em atender aos requisitos ambientais para ser reconhecido/amado só gerará mais angústia e desespero. Este é o ciclo perverso no qual a humanidade está inserida há milênios, e que tem nos causado inúmeras dores e sofrimentos, pois nos recusamos a olhar para este vazio e compreendê-lo. Nossa opção por construir uma identidade recheada de objetos, ídolos e crenças, construídos a partir do limitado poder de percepção da nossa mente, dificulta ainda mais o processo, funcionando como uma poderosa força gravitacional para que continuemos presos e não consigamos enxergar uma outra saída.  Uma maior compreensão das camadas que ajudam a moldar nossa identidade é fundamental para que possamos dar um primeiro passo rumo à libertação. E não podemos falar da construção de uma identidade sem mencionar a família, os relacionamentos, o trabalho, nossa relação com os bens materiais e com o nosso próprio corpo.

A IDENTIDADE E A FAMÍLIA

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“Essa é a minha família, Kay. Não eu.” – Michael Corleone

No magnífico “O Poderoso Chefão” (1972), Al Pacino interpreta Michael Corleone, o filho caçula de uma família de mafiosos. Logo nos primeiros minutos de filme, quando presenciamos a festa de casamento da filha de Don Corleone (Marlon Brando), Michael nos é apresentado como alguém distante daquele universo familiar. Herói condecorado da 2ª Guerra, Michael aparece fardado e em companhia da namorada. Trata-se de um corpo estranho em um ambiente povoado por mafiosos avessos à autoridade. Podemos concluir, pelo menos naquele momento, que Michael tem plena consciência do que representa a sua família e parece não estar muito à vontade ali. Apesar de herdeiro de uma das famílias mais poderosas – e perigosas – da América, Michael parece ter optado por um rumo diferente, como se estivesse à procura de sua identidade fora do seio familiar. Talvez, por este mesmo motivo, tenha decidido servir ao seu país em detrimento da família – e da forma mais “legalizada” possível: através das Forças Armadas. Porém, após o covarde atentado contra o seu pai e o brutal assassinato de seu irmão Sonny, Michael não vê outra saída a não ser manter o seu pacto de lealdade à família, assumindo o posto máximo de “Don”. Veremos, então, demonstrações da sua brutalidade e astúcia, capazes até mesmo de superarem às do seu velho pai.

Talvez a família Corleone seja um parâmetro exagerado, mas o dilema de Michael Corleone é muito factível e se repete em todas as famílias, mesmo naquelas que não infringem a lei – guardadas as proporções, é claro.

O pacto de fidelidade deve ser mantido por todos os membros se estes quiserem ser “amados” e “reconhecidos” dentro do grupo e isto vale para as virtudes, como também para os vícios familiares.

No caso de Michael, considerando os valores vigentes em sua família, quanto maior a brutalidade e medo impostos aos seus adversários, maior o reconhecimento – e consequentemente, maior o “amor”. Ao optar por dar continuidade ao ciclo de morte e sangue que dominavam o histórico dos Corleones, Michael vive uma sinistra metamorfose ao longo do filme, em nome do que entende ser o “amor e fidelidade à sua família”. Ironicamente, ao final do filme, através de uma excelente e forte sequência de cenas, o diretor Francis Ford Coppola nos mostra a quem realmente o mais novo “Don” está servindo com suas escolhas….

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A IDENTIDADE E OS RELACIONAMENTOS

“Nem hoje, nem amanhã, nem nunca…nem que isso signifique destruir a família de Dan para ficar com ele..” – Alex, personagem de “Atração Fatal”, ao ser rejeitada pelo amante, Dan Gallagher

No filme “Atração Fatal” (1987), de Adrian Lyne, Michael Douglas vive um advogado bem-sucedido de Nova York, com um casamento aparentemente feliz. Sua esposa e sua filha, também, são aparentemente adoráveis. Ainda assim, mesmo envolto por esta suposta perfeição, Dan coloca tudo a perder ao se envolver com a executiva Alex, personagem vivido por Glenn Close. Fato é que sua ação não tardará a gerar graves consequências. Quando se cansa da aventura e finalmente reconhece seu erro, Dan descobre que se envolveu com uma psicopata, disposta a ir até as últimas consequências para tê-lo sob seu domínio – inclusive ser capaz de matar sua esposa e sua filha.

O que motivou a ação de Dan? Talvez a monotonia da rotina de uma família comum, talvez a necessidade de uma aventura ou ainda um falso “merecimento”, por ser o único provedor do lar, com direitos legítimos à diversão e a uma rápida escapada na calada da noite. Os desdobramentos psicológicos que motivaram sua atitude podem ser variados, quase infinitos. O caminho dos relacionamentos é repleto de armadilhas e severas provações. Somos testados em nossa capacidade de doação, no estabelecimento do diálogo sincero, na superação do egoísmo e da indiferença. O relacionamento é o portal fundamental para testar e solidificar nossa real identidade, e buscarmos integrar em nós mesmos as partes que ainda nos são obscuras e desconhecidas, com auxílio de nossa parceira(o). E evitamos  olhar isso de perto pois, como humanos, odiamos – e tememos – o que nos é desconhecido.

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Na utilização deste exemplo extremo, fica óbvio que o personagem de Michael Douglas não estava tão feliz assim com o seu casamento, e por isso mesmo buscou fora dele a parte que lhe faltava, ainda que por um impulso inconsciente. Buscou preencher da forma mais rápida possível, um vazio que, de alguma forma, o incomodava – sem se preocupar em tomar conhecimento dele.

E isto lhe custou muito caro.

A IDENTIDADE E OS OBJETOS

“(…) Mas Sméagol regressou sozinho e descobriu que ninguém da sua família o conseguia ver, quando tinha o anel posto. Ficou muito satisfeito com a descoberta, e teve o cuidado de a ocultar. Serviu-se dessa característica do anel para descobrir segredos, cujo conhecimento utilizava depois para fins perversos e maus. Tornou -se vivo de olho e de ouvido para tudo quanto era prejudicial. O anel dera-lhe poder de acordo com a sua estatura.”

– trecho de “O Hobbit”, de J.R.R. Tolkien

Para tratar da confusão mental e do impacto que a identificação exagerada com a matéria pode causar não existe melhor exemplo do que a tragédia de Sméagol. Personagem onipresente em “O Hobbit” e nos três livros do “Senhor dos Anéis”, Sméagol representa a decadência de um ser que se deixou consumir pelo poder do Um Anel, símbolo encontrado por Tolkien para ilustrar a ganância e a sede de poder que consomem a alma humana. O poder do anel é capaz de rachar a personalidade de Sméagol, trazendo à tona o seu lado mais obscuro, conhecido pelo nome de Gollum.

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Este drama é vivido, todos os dias, por seres humanos que se deixam levar pelos impulsos do consumismo e que se utilizam de objetos para a construção de sua identidade. Vivemos uma era em que impera uma idolatria com relação a algumas marcas e empresas, constatado através do frenesi em torno do lançamento de novos produtos. Testemunhamos filas e uma excitação descomunal, como se ali houvesse uma espécie de tábua da salvação.

“Uma das poucas leis férreas da história é que os luxos tendem a se tornar necessidades e a gerar novas obrigações. Uma vez que as pessoas se acostumam a um certo luxo, elas o dão como garantido. Passam a contar com ele. Acabam por chegar a um ponto em que não poder viver sem.”

– trecho de “Sapiens”, de Yuval Noah Harari (Ed. LP&M, p.97)

Vale ressaltar que o problema não são os objetos em si, mas a importância que atribuímos a eles. Se os utilizamos como um “tapa-buraco” dos nossos rombos emocionais, como uma espécie de compensação por nossas frustrações ou inseguranças, podemos, fatalmente, estar trilhando o mesmo caminho de Sméagol, e alimentando vícios que se tornarão cada vez mais difíceis de serem rompidos. Vícios que nos afastarão, cada vez mais, da nossa real identidade.

A IDENTIDADE E A PROFISSÃO

À medida que avançamos neste século XXI, nos surpreendemos a cada dia com o surgimento de novas profissões e modelos de negócio disruptivos. Ao mesmo tempo, nos assustamos com a crescente substituição do homem pelas máquinas, mais notadamente nos setores industriais, bancários e de saúde.

Vivemos a era da comoditização do conhecimento.

No século passado, tudo parecia mais fácil. A profissão era definida e a estabilidade, garantida. O indivíduo era capaz de separar categoricamente a sua vida profissional de sua vida pessoal e os conflitos entre as duas, embora existissem, não se comparavam em escala com o que testemunhamos nos dias de hoje. De certa forma, as duas “vidas” vêm sofrendo um processo de fusão e, dentro de poucos anos, não conseguiremos mais discernir uma da outra.

Com o advento da tecnologia, principalmente no que diz respeito à Inteligência Artificial, a humanidade estará diante de um grande dilema: qual será o seu papel daqui em diante!? O que diferencia os humanos das máquinas!?

Parece óbvio, mas experimente transmitir a notícia a um grupo de operários de uma linha de produção de automóveis de que eles serão dispensados no próximo mês. Avise que um conjunto de robôs ultra-modernos tomarão o lugar deles e que eles serão capazes de produzir dezenas de carros a mais por dia. Uma crise de identidade será iminente pois, em certa medida, todos nós consideramos o que fazemos no dia-a-dia uma parte fundamental de quem somos.

Por outro lado, também estamos diante de uma grande oportunidade para nos reinventarmos, e de escolhermos caminhos mais em sintonia com o quem de fato somos. Se, de fato, a vida pessoal e a vida profissional não serão mais divididas, é inevitável que escolhamos com muito mais cuidado a quem queremos servir e o que temos a oferecer que as máquinas jamais serão capazes de replicar.

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A IDENTIDADE E O CORPO FÍSICO

No filme Dr. Estranho (2015), inspirado no gibi de mesmo nome, o doutor Stephen Strange é um cirurgião renomado, famoso pela destreza de suas mãos – e pelo seu ego mais do que inflado. Ainda nas primeiras cenas do filme, o orgulhoso doutor fala ao celular enquanto acelera o seu carro último tipo em uma curva fechada, em meio a um temporal.  Como resultado do acidente, Strange não encontra a morte, mas algo bem pior: a ruína de seus bens mais preciosos, aqueles que o diferenciavam e suportavam a sua identidade. O acidente arruinou os nervos de suas duas mãos, tornando-as inválidas.

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Dali em diante, Stephen terá que encontrar alguma maneira de continuar a sua jornada sem elas. Embora haja dor e relutância no início, Stephen, aos poucos, encontra os caminhos para se desidentificar do seu corpo físico, vindo a se tornar um poderoso mago, capaz de passar por diferentes dimensões e subjugar o tempo psicológico.

Outro exemplo mais concreto de superação dos limites físicos se verifica na trajetória do crítico de cinema Roger Ebert (1942-2013), retratado no documentário “Life Itself” (2014). Roger, depois de sofrer severas cirurgias devido a um câncer de tireoide, acaba por ter grande parte de sua mandíbula removida. Mesmo assim, a energia e disposição demonstradas por ele e sua esposa ao longo do documentário, diante de extremas provações, nos servem de inspiração para acreditar que existe uma outra força motriz, capaz de superar a debilidade de nosso corpo físico. Roger fazia questão de continuar a escrever seus artigos e a cuidar do seu legado, como se fosse dotado de uma energia sobre-humana. Em suas próprias palavras, “quando escrevo, todos os problemas vão para a parte de trás da minha cabeça! ”

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Mesmo com estes exemplos encorajadores, nosso corpo ainda é uma tremenda barreira a ser ultrapassada. Ele é o veículo que nos conduz pelo mundo material: a ferramenta fundamental para vivenciarmos os sentidos, realizar a ação e é também o primeiro anteparo contra choques, dores, acidentes e doenças. Ainda assim, muitos ainda o consideram como realidade última e, desta forma, sofrem com as consequências deste equívoco. Nosso corpo é a origem de problemas de auto-estima, desde a não aceitação do nosso envelhecimento até a vergonha com relação a partes específicas presentes nele. Ele é o primeiro a sentir o impacto de nossos vícios, gulas e compulsões, resultantes do nosso anseio pelo preenchimento de um vazio ainda inconsciente. E se é verdade que sou apenas “o meu corpo”, uma simples olhadela no espelho responderia à pergunta “quem sou eu!?”. Ou talvez, para os mais exigentes, um raio-X completo.

MAS…E A RESPOSTA!?

Retratadas as dimensões da família, dos relacionamentos, da nossa relação com nossos bens e trabalho e com o nosso corpo físico e como estas atuam para testar e moldar nossa identidade, você talvez se pergunte: se, em última instância, não sou o Sr.(a) “______”, “_______” e “________” de altura, “_______” e “_____ “ quilos, filho do Sr. “______” e Sra. “_________”, “_________” anos de idade, esposo(a) de “__________”, técnico em “__________”, formado em “____________” no ano de ” ___________”, que trabalha na indústria de ________ desde _________, então, quem SOU EU!?

Lembra-se do vazio existencial que tanto falamos ao longo do texto!?

Infelizmente, a resposta última encontra-se nele. Digo infelizmente, pois encará-lo é a tarefa mais difícil que você encontrará em sua vida. E a coragem para essa iniciativa parte da compreensão de que todos os papéis que você escolheu viver até hoje lhe causaram extrema infelicidade. Todas as identidades assumidas perante a família, perante os relacionamentos e perante a sociedade sucumbiram.

O vazio tem o seu papel e é inevitável que todo ser humano se defronte com ele em algum momento da sua vida. Pode-se receber um convite ou chamado para desvendá-lo, geralmente na forma de doenças, perdas ou um stress profundo.

Quando o indivíduo opta por investiga-lo a fundo, sem optar por tapá-lo ou encobri-lo com distrações ou anestesias, poderá se defrontar, à primeira vista, com verdades inconvenientes e aspectos sombrios sobre si mesmo, antes escondidos sob os porões do seu inconsciente. Gula, compulsões, orgulho, vitimismo, vaidade são alguns dos elementos que encontrará por lá. É só um olhar honesto diante do vazio que permite o início de uma mudança de rumo, uma nova postura frente aos desafios impostos pela vida, e a capacidade de compreende-la em um nível mais profundo.

Somente ao olhar para o vazio é que se compreende, finalmente, as palavras dos sábios que diziam que: nada que é externo a nós será capaz de nos preencher. E a discernir com maior clareza o que é permanente do que é impermanente.

“Mas – e quem sou eu, afinal!?”

Você é o leitor deste texto, dotado de consciência, percepção e senso crítico para avaliar cada palavra escrita aqui e, espero eu, com um incremento a mais de informação para conduzir sua vida com mais sabedoria!

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