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27 de janeiro de 2016

A mesa do gabinete – Daniel Vianna

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Uma vez apegado ao poder, sempre haverá um “jeitinho” de continuar vagando pelos bastidores…

Estava em seu gabinete, aguardando a chegada do assessor.

O homem estava bem atrasado, mas tinha crédito: ele o acompanhara durante todos aqueles anos, desde a campanha. Nunca deixou que lhe faltasse nada, incluindo votos, aliados e agrados. Mas daquele momento desagradável não conseguiria escapar, nem mesmo com a ajuda de seu fiel escudeiro. Chegara, finalmente, o dia do adeus: em breve, haveria outro nome na plaquinha acima da mesa, a poucos centímetros da sua (ainda, mas por pouco tempo) acolchoada e confortável poltrona.

Ah, a mesa! Imponente, “classuda”. Chamava a atenção dos visitantes: ninguém saía do gabinete sem perguntar sobre a dita cuja.  “Pertenceu ao D. Pedro” – estufava o peito para falar aos visitantes. Não tinha tanta certeza se era verdade. Apenas reproduzia o que o Chefe do Museu da Cidade havia lhe dito, sem especificar se o Pedro em questão era o primeiro ou o segundo. Agora, pouco importava. Sentiria falta dela. Dos despachos assinados sobre as suas costas maciças e gentis, das esbarradas de joelho em seus carregados detalhes laterais. E foi acariciando o móvel, como um animal de estimação, deslizando a mão suavemente sobre ela, que o inimaginável aconteceu: a mesa respondeu ao afago!

Uma ondulação de vinte centímetros a percorreu de fora a fora. A madeira, maciça, se moveu como líquido. Assustado, removeu a mão imediatamente e se recolheu em sua poltrona.

Então, a porta do gabinete se abriu. Era o assessor.

– Sr. Prefeito, boa tarde! Que cara é essa? – perguntou, com um ar de tranquilidade, andando em direção à mesa e deixando sobre ela alguns papéis. Manteve-se de pé.

O prefeito ficou em silêncio, incomodado. O assessor continuou:

– Ah, sim, vamos a isso!

– Vamos ao quê? Eu não falei nada!

O prefeito, confuso, alternava o seu olhar entre o homem e a mesa.

– A mesa. Vamos falar da “MESA”! – o assessor puxou a cadeira em frente ao prefeito e começou. – A mesa, Sr. Prefeito. Ela gosta do senhor. Eu posso escutá-la.

O prefeito coçou a cabeça. Que história era aquela? O seu assessor havia perdido as faculdades mentais? Logo ele, um homem culto, amante da razão, que conhecia tão bem os caminhos do poder? Estaria insinuando, por acaso, que a mesa era um ser vivo? Por outro lado, ele não tinha dúvidas do que havia visto: seria aquela ondulação, de fato, uma demonstração de afeto da mesa pela sua pessoa?

– Chegamos a uma encruzilhada, sr. Prefeito. Amanhã mesmo, as suas coisas serão retiradas. Mas o senhor poderá permanecer aqui, se assim desejar. Só depende do senhor. A mesa já o aceitou. Você preencheu os requisitos dela com louvor!

O papo não estava melhorando. Encruzilhada? Qual encruzilhada?

– Sr. Prefeito, vamos lá. Não se faça de inocente. Você me conhece. Sabe quem eu sou. Estou lhe oferecendo uma maneira de continuar aqui no seu gabinete. Só depende do senhor…

– Do que você está falando exatamente? – o Prefeito tentou se acalmar, recostando-se em sua poltrona. Evitava, a todo custo, encostar na misteriosa (e aparentemente “viva”) mobília.

– Vou tentar ser o mais transparente possível: Vossa Excelência se tornará um com a mesa, Sr. Prefeito! Sim, é isso! Ela tem mais de duzentos anos e não deverá sair daqui por pelo menos mais trinta. Esta mesa tem história, sr. Prefeito. Ah, se o senhor soubesse… – o assessor tentava tornar tudo aquilo muito atraente e sedutor, mas o mistério ainda continuava.

– Você está sugerindo que eu me torne parte de uma mesa?! Você está louco, homem?! Eu tenho uma vida fora daqui! – vociferou o Prefeito, se contorcendo em sua poltrona.

– Pense bem, Sr. Prefeito! Seja razoável! Vossa excelência tem vinte e oito processos nas costas lá fora. Acha que consegue se livrar de todos eles? Sua esposa e filhos nunca o respeitaram. Até mesmo os seus cachorros não o reconhecem mais. A “MESA” é uma oportunidade única! É a sua rota de fuga! Dela, você conseguirá ouvir todas as conversas deste gabinete. Influenciará na condução de tudo o que acontece neste município! O próximo prefeito estará inteiramente sob o seu comando! Uma vez lá dentro, nada lhe faltará, eu garanto! É quase como um hotel cinco estrelas! Poder ilimitado, para sempre! Bom, para sempre é um pouco de exagero. Pelo menos enquanto durar o brilho desta madeira! – e o assessor dobrou o indicador direito e com ele deu três batidinhas na mesa. De sua parte, tentava ser o mais direto possível com o Prefeito.

– Mas e aqui fora? Não notarão a minha falta? – o Prefeito tentava inserir um pouco de lógica naquela situação surreal.

– Eu cuidarei de tudo, não se preocupe! Inclusive, o próximo prefeito já me escolheu como seu assessor. Você não poderia estar em melhor situação, Sr. Prefeito!

– Tá bom! Não tenho direito a um período de adaptação, não?! E se eu me arrepender?

– Não! Impossível! Uma vez feita a escolha, é madeira adentro, Sr. Prefeito. Será um mergulho indolor. A própria mesa está me dizendo que está ansiosa pela sua chegada. Vamos, não temos muito tempo! Coloque a sua mão direita sobre ela.

O prefeito, um pouco hesitante, assentiu. Apoiou a mão direita. E então, a ondulação recomeçou. Desta vez, com maior intensidade, formando um redemoinho no seu centro. Em pânico, o prefeito ameaçou levantar a mão. Não dava mais: a mesa havia começado a tragá-lo a partir dela, soltando um clarão avermelhado que tomou conta de toda a sala.

-Meu Deus! – gritou o Prefeito, olhando pela última vez para o assessor.

Este deu um leve sorriso, satisfeito, não deixando de se despedir:

– Mande lembranças ao pessoal! – e deu meia volta em direção à porta de saída do gabinete.

Escuridão, silêncio.

O Prefeito estava agora no interior da mesa. Decidiu abrir os olhos. Acima dele, conseguia enxergar, dentro de um círculo delimitado, todo o seu gabinete: os quadros, os sofás, a poltrona. Mas tudo tremulava, como se estivesse enxergando sob a água.

De repente, sentiu um tapinha nas costas.

– Sr. Prefeito?

Um rosto conhecido o abordava. Virou-se.

– Sr. Senador? O senhor, por aqui!? Dentro da mesa do meu gabinete?

O Senador deu um leve sorriso.

– Pelo que vejo, você acabou de dar o seu “mergulho”. Fez a escolha certa, meu amigo! Descanse um pouquinho. Vou lhe dirigir aos seus aposentos. Mais tarde, gostaria de dar uma volta com o senhor, com mais calma, pelo corredor.

– Corredor? – perguntou, curioso, o Prefeito.

– Sim. Não é um corredor qualquer. Trata-se do “Corredor”. Vou lhe dar um gostinho do que lhe espera!

O Senador, então, abriu a porta. Uma luz esverdeada tomou conta do interior da mesa do Prefeito. E, então, ele pôde presenciar com os seus próprios olhos: estava no meio do que parecia ser uma espécie de plataforma colossal, cheia de outros incontáveis corredores, com milhares de andares. Esteiras, escadas rolantes, transportes. Milhares, talvez milhões de pessoas perambulando por ali.

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Trêmulo, o Prefeito não conseguia dar mais um passo. Aonde havia se enfiado? Aquilo era maior, infinitamente maior do que a sua “MESA”.

– Vocês chamam isso de “Corredor”? – perguntou, atônito, o recém-chegado.

O Senador sorriu.

– É um nome carinhoso. Daqui comandamos o “show”, meu amigo. Uma boa parte das mesas e gabinetes do país são comandadas daqui. Não é incrível?! Temos acesso a todas as conversas que se passam neles; influenciamos reuniões, conduzimos os participantes. As mesas têm poder, meu amigo!

– Isto é algum tipo de brincadeira? – o Prefeito começou a ficar enjoado.

– Eu não brincaria com você sobre algo tão sério, meu amigo. Você viu tudo com os seus próprios olhos! Afinal, você não acabou de fitar todo o seu “gabinetezinho” minutos atrás de dentro da sua “MESA”? E esse é só o gabinete da sua minúscula e insignificante cidade. Oh, perdoe a minha arrogância! Estou um pouco estressado com o Senador que me representa lá fora. Vamos andando, Vossa Excelência deve estar cansada. – compadeceu-se o Senador.

O Prefeito tomou fôlego e acompanhou o seu mais novo amigo. Pegaram uma das escadas rolantes.

O recém-chegado começou a reparar nas curiosas figuras que cruzavam o seu caminho. Entre elas, o antigo (e suposto) dono da sua mesa. Olhou duas vezes, para ter certeza, e então cutucou o Senador:

– Aquele é mesmo quem eu acho que é?

– Sim, o próprio! Por incrível que pareça, ele ainda dá muitas cartas por aqui. Você não viu nada ainda! Achou que era o único adepto do mergulho de mesa? Ha! Você ainda vai esbarrar em muitos ex-presidentes, ex-senadores, ex-deputados, ex-prefeitos…

O Prefeito sentiu um alívio imediato. Ele não era o único. Indivíduos que tanto admirava, figuras históricas – todos fizeram a mesma escolha que ele. Todos haviam optado pelo mergulho: rápido, indolor, instantâneo. Para não terem nunca mais que voltar para o mundo dos reles mortais. Afinal de contas, eles eram seres especiais. Além do quê, o fim da vida merecia mais alegria e dignidade! Mesmo que para isso tivessem que dar um “jeitinho”.

Reconfortado, uma pergunta de repente lhe veio à mente, acompanhada de um calafrio. Uma pergunta que guardaria para si mesmo durante a sua longa estadia ali, pois não se atreveria a fazê-la ao Senador que o acompanhava e muito menos às autoridades que vagavam por aqueles corredores, indiferentes à sua presença:

“Quem, de fato, era o seu assessor?“

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Comentários

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One Comment on “A mesa do gabinete – Daniel Vianna

André
27 de janeiro de 2016 em 17:28

Texto perfeito Daniel! Meus parabéns!

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