Close

4 de agosto de 2016

A teia – Daniel Vianna

Slide3

“Jamais poderia afirmar, com total certeza, se era a teia que estava contida no mundo ou o mundo estava contido na teia…”

A janela semiaberta deixava passar um respingo de iluminação para o quarto pequeno e sujo. Logo ao chegar, bateu o olho na frágil armação tremulando sobre a pilha de livros abandonados, uma “zona morta” da qual não se aproximava há muito tempo e sobre a qual  a luz raramente incidia. Naquele final de tarde, porém, era impossível não notá-la. A teia já devia estar ali há semanas.

Incomodado, empunhou uma vassoura e pôs-se a removê-la. Aproveitou para mover alguns livros de lugar. Ao abrir um ou outro durante o processo, viu que a coisa estava pior do que pensava: a maldita aranha tinha aproveitado para produzir a sua arte entre as páginas dos livros. Estavam tomados por dezenas; centenas de metros de um fio que não era removido com facilidade.

Não teria tempo de fazer isso agora: tinha que se debruçar sobre o trabalho que não havia conseguido finalizar durante o dia. Antes de voltar à tarefa, porém, pegou do chão um livro que há muito tempo não via; sequer lembrava-se da sua existência. Como ele ainda estava por ali, não tinha a menor ideia. A “zona morta” tinha lhe reservado essa surpresa! Arriscou uma folheada. Gravuras e passagens, logo nas primeiras páginas, estavam prestes a levá-lo a uma viagem de volta no tempo: foi quando algo que julgou ser um borrão escuro, à primeira vista, começou a se mover pela lateral do livro. Ao sentir a ameaça mortal do folhear das páginas, e temendo pelo seu esmagamento, o ligeiro inseto deu um salto heroico (desses que vemos em filmes de herói que escapam de paredes que se fecham!) em direção ao chão e desapareceu na escuridão do assoalho. Conformado com a situação, fechou o livro, mas deixou-o separado dos demais: em algum momento, quando arranjasse um tempinho – mais tarde ou nos próximos dias – voltaria a ele.

Voltou-se para a mesinha: o notebook já estava reiniciado, em modo de espera, convidando-o para as próximas horas em sua companhia. Tomou coragem e assumiu o seu posto: o relatório não podia passar daquela noite! Os números eram digitados ferozmente no teclado, as inúmeras tabelas eram copiadas e coladas, uma a uma. Tudo ia bem. Até que notou algo se movendo na tela, em zigue-zague: ela havia retornado! Com movimentos rápidos do dedão, duas tentativas frustradas de “aracnicídeo” : a maldita era rápida! Prestes a executar a terceira tentativa, teve a impressão de ter escutado uma voz baixinha e esganiçada sussurrar-lhe ao ouvido: “Siga-me!”. Notou que não havia mais nada se movendo na tela do computador.“Siga-me!”. Voltou-se para trás. Nada. “Siga-me!”, continuava a voz, no mesmo tom. Aproximou o ouvido da parede, confiante de que se tratava da vizinha ao lado, praticante de monólogos diurnos em suas passagens pelo corredor do prédio e gritos noturnos durante a madrugada.

“Siga-me!”

Não, não era a doida ao lado. Parecia vir de baixo, do próprio chão. “O vizinho de baixo!”, pensou. Pegou o copo de água vazio, largado no canto de sua escrivaninha, apoiou os joelhos no chão e com o ouvido colado na base suja do copo, ansiou pela confirmação: nada!

“Siga-me!” – e então teve a visão mais aterradora de sua vida. Uma aranha, de tamanho incomum, a poucos centímetros de onde estava, acenava com a sua pata dianteira, como se estivesse chamando-o. Certo de que se tratava de uma alucinação, levantou o copo do chão e ,em um movimento rápido e sem jeito, tentou aprisiona-la. A aranha nem se deu conta: com duas rajadas de teia, deslocou-se em direção à janela do quartinho.

“Aqui! Aqui!”

A patinha pedia, insistente, para que se aproximasse da janela. Segurando o copo e desconfiado do que se passava por ali, aproximou-se e deu uma olhada para o lado de fora. Algo estava muito errado: a escuridão da noite já reclamava dos primeiros raios de sol.

“Será mesmo?!” – e sua espinha se retorceu: não se lembrava de ter concluído o trabalho! Virou-se para trás: o computador estava ligado, no modo “salva-telas”. Em seguida, olhou para o relógio: 5h30. Os primeiros raios de sol revelavam algo muito estranho do lado de fora: carros, postes, hidrantes, fiações, placas, semáforos, becos e vielassimplesmente todos os elementos e todos os espaços encobertos pelo que lhe pareceu….hmmm….

“TEIAS DE ARANHA?!!”

A armação, reforçada, não só envolvia tudo, como dava um único aspecto à toda a sua rua! De repente, notou a movimentação de um pedestre lá embaixo. Pensou em abrir a janela e dar um berro, alertá-lo de alguma forma. Percebeu, então, que o homem também tinha teias por todo o corpo.  Prestando atenção em seus movimentos, viu que o homem agia como se tudo estivesse na mais absoluta normalidade. Não apresentava nenhum sinal de desespero! Ainda assim, movia-se com muita dificuldade: como se, a cada passada, tivesse que ultrapassar um obstáculo. Segundos depois, perdeu-o de vista: o homem acabou desaparecendo no meio daquele emaranhado todo. Estava tão aterrorizado com a visão matutina que esqueceu-se por um instante da aranha. Ela, estava bem ao seu lado. Assistia, comportada, à mesma cena. Trocaram olhares. A aranha, então, deu um salto em direção ao assoalho e correu para a porta do quartinho.

“Siga-me!”

Menos resistente a dar-lhe ouvidos, largou o copo sobre a mesa (desistindo, assim, da sua tentativa de “aracnicídio”!) e, com a mesma roupa do dia anterior, saiu logo atrás do inseto falante.  Ao abrir a porta do quartinho, já no corredor do seu prédio, percebeu que não era só a rua que estava tomada:  toda a extensão do  para-peito, o corrimão e os espaços entre os degraus da escada que dava para rua – tudo estava embalado por uma estrutura complexa e assustadora!  Não havia como descer pelos degraus e alcançar a rua sem ser envolvido!

A aranha seguia na frente, destemida. “Venha! Pode vir”. Acenava com a patinha, tentando ganhar a sua confiança.

Tomou coragem e a seguiu. Curiosamente, o seu corpo passava sem problemas pelos fios de seda – como se estivesse imune a tudo aquilo. Foi em frente.

Ao atingir a rua, viu que mais pessoas circulavam por ali, com uma estranha tranquilidade. Ou pelo menos tentavam. A dificuldade era visível: enroscavam-se entre si, entre os postes, ao entrar em seus carros. Tudo era feito com enorme dificuldade, limitação e sofrimento. O engraçado é que pareciam não se dar conta do claustrofóbico ambiente: agiam como se aquele emaranhado de teias sempre tivesse feito parte do seu cotidiano. Ficou chocado quando presenciou a cena de um senhor que, desatento, se enroscou de tal forma na teia que ficou imobilizado. Não conseguia dar mais nenhum passo. Nisto, três garotos se aproximaram e, aproveitando-se da sua situação, bateram a sua carteira. Na sequência, ao atravessarem a rua durante a fuga, eles próprios beberam do próprio veneno: os três se enroscaram e formaram um enorme bolo de seda! Por pouco um ônibus não os atropelou!

A barbárie estava instalada!

Slide4

Tomou coragem e seguiu andando, aproveitando a sua aparente imunidade ao emaranhado de teias. “Será que ela está por trás disso?!” E olhou para a sua companheira de passeio, que estava a poucos metros na sua frente , indicando-lhe o caminho. “Venha!”

Percebeu que ela estava levando-o ao seu trabalho, localizado a poucos quarteirões de onde se encontravam. Nenhuma paisagem do trajeto havia sido poupada: a cena que testemunhara em sua rua se repetia, quadra após quadra! Não ouvira uma queixa sequer ou reclamação durante o caminho: tudo seguia na mais absoluta normalidade!

Haviam chegado ao edifício do seu escritório. Ao testemunhar o estado do hall de entrada, assustou-se: mal se via a face das recepcionistas, envoltas por quilos de uma capa grudenta e viscosa. Elas sequer conseguiam olhar por entre as várias camadas de seda. Ainda sim, conseguiu pegar o seu crachá com uma delas – não sem tem que repetir, por diversas vezes, as mesmas informações!

Nos elevadores, a situação não melhorou. Era impossível enxergar qualquer coisa. Por entre pequenos espaços livres, conseguiu apertar o botão de seu andar. Não conseguia, contudo, identificar quem estava ao seu lado, pois um emaranhado já havia se formado por ali. Com algum esforço, viu que alguém ao seu lado folheava um jornal. Tentou, com o canto do olho, verificar se o diário mencionava alguma coisa sobre o que estava se passando: nada! Destacava outras coisas como o resultado da última pesquisa eleitoral, o resultado do jogo de futebol do dia anterior e o aumento do preço das batatas.

“Não é possível! Isto não pode estar acontecendo!”

Na sequência, olhou para baixo: a acompanhante estava próxima ao seu pé direito e deu de ombros ao perceber a sua angústia, deixando claro que não tinha nada a ver com aquilo.

Haviam chegado ao seu andar. A porta do elevador se abriu.

Em estado de choque, presenciou todos os colegas – chefes e subordinados – completamente imóveis!

Todos estavam envoltos pela teia, encapsulados!

Alguns estavam presos às suas cadeiras, outros às suas mesas, outros no espaço do cafezinho. Ao fundo, conseguiu ver, através da divisória de vidro, mais seis indivíduos completamente presos na sala de reunião!

“Meu Deus!!” – e correu em desespero tentando fazer com que se soltassem.

Não conseguia. A estrutura era muito forte! Com um olhar de súplica, voltou-se para a companheira, que balançou a cabeça, sinalizando que seria impossível reverter a situação. O mais estranho é que os colegas falavam entre si, de seus lugares.

Parecia que estava tudo bem!

Os que estavam no espaço do cafezinho, inclusive, eram os mais animados: falavam alto, comentando os lances da partida de ontem e xingando o árbitro por uma ou outra decisão polêmica. Da sala de reunião, ouviu o seu nome ser pronunciado em alto e bom som. Lembrou-se do relatório que deixara inacabado na noite anterior. “Tenho que retornar para casa e terminar aquilo!”. Ao tomar a direção do elevador, notou que algo estava acontecendo, como se seu corpo estivesse perdendo a forma. Em desespero, olhou ao redor, buscando a “amiga”. Com um olhar amistoso e com um aceno de despedida, ela desapareceu no ar. Em seguida, foi a sua vez de desaparecer.

Slide5

Os olhos se abriram, devagar. O que era para ser um rápido cochilo se tornou uma noite inteira de sono. Inclinou a cabeça e fitou a mesa: o computador ainda se encontrava no modo “salva-telas”. Apoiou-se sobre os cotovelos e inclinou-se em direção ao livro, aberto em cima da cama. Uma aranha passou rápido por cima da página aberta. Apenas a observou desta vez. Curioso, levantou-se e caminhou em direção à janela.

O dia já havia se iniciado lá fora: motores, escapamentos, buzinas, gritos e ofensas.

Nem sinal das  teias!

Ou pelo menos era isso que a sua visão indicava. Olhou para o relógio: precisava voltar ao relatório. Aquilo ainda lhe tomaria algumas boas horas. Precisava, ainda,  pensar em uma bela desculpa para o seu atraso que, com certeza, não ia passar desapercebido – ao contrário das teias!

Tinha a estranha sensação, contudo, de que elas – as teias – ainda continuavam por ali.

Não só envolvendo a “zona morta”, mas cobrindo cada centímetro de espaço livre do seu quartinho, dificultando qualquer movimento que ousasse fazer.

100_6201

Comentários

comments

4 Comments on “A teia – Daniel Vianna

Rosane
5 de agosto de 2016 em 01:58

Que máximo esse texto, Daniel! Já me senti exatamente assim algumas vezes e a sensação é essa, de estar encapsulada. Mas o que não pode faltar é coragem pra virar o jogo da vida! Gostei muito, parabéns! Beijo

Responder
odespertador
28 de setembro de 2016 em 13:23

Nane, desculpe por responder só agora! Muito obrigado pelo seu comentário! Verdade…todo ser humano passa por isso! Por isso o nome humano, né?! 😉 Beijos DANI

Responder
Henrique Wendland
27 de setembro de 2016 em 16:44

Demorei, mas vim conferir mais um excelente texto teu, Daniel. Parabéns mais uma vez!

Grande abraço, Henrique

Responder
odespertador
28 de setembro de 2016 em 13:23

Muito obrigado meu amigo!!! Desculpe a demora na resposta!! Grande abraço!!!

Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *