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15 de junho de 2016

A terceira antena – Daniel Vianna

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“Os animais são todos iguais, mas uns são mais iguais que outros.” – George Orwell

Quando entender a aceitar as diferenças pode nos salvar…ou nos arruinar.

– Olha só! Mas o que é isto aqui!? Será o que eu estou pensando?! Não é possível! Não apareceu nada no pré-Natal! – surpreendeu-se a Formiga-obstetra.

Tentando se recuperar do choque, respirou duas vezes antes de entregar o recém-nascido à mãe, tentando pensar no que iria dizer, para atenuar o choque.

A Formiga-mãe recebeu a formiguinha recém-nascida no colo, com um largo sorriso.  Demorou para perceber  aquele “evidente” detalhe. Foi discreta:

– Doutor, o que isso significa?! É normal? Temos como retirar?! – perguntou, com calma, mas com um início de apreensão.

O Formiga-pai chegava naquele exato instante no quarto de cirurgia.

– Deixa eu ver o meu pequeno formigão! – disse em voz alta, passando a porta e dirigindo-se ao leito da Formiga-mãe. Sua empolgação não durou mais do que alguns segundos: – Meu Senhor Formigão! Não é possível! Não, não e não!! – e deu um berro, assustando a todos no corredor principal da Santa Casa das Formigas.

A Formiga-obstetra tentou acalmá-lo.

– Escute…existem casos parecidos. Não vou mentir; são raros, mas existem. No formigueiro mais próximo daqui aconteceu um caso parecido, cerca de dois Anos-inseto atrás…

Dois anos-inseto?! Você está de brincadeira comigo?! Quase cinco gerações atrás?! Meu Senhor Formigão! – Formiga-Pai se desesperava.

Não use o santo nome do Senhor Formigão em vão….recomponha-se formiga! – Formiga-mãe estava ficando nervosa. – é só um “defeito” estético, não é mesmo, Doutor-formiga?!

– Sim, sim! Não há com o que se preocupar! – a Formiga-obstetra segurava um copo de água para entrega-lo a Formiga-pai. E continuou: – Inclusive, quando ele se tornar um Formiga-teen, podemos fazer uma cirurgia corretiva! Vocês vão ver! Vai ser como ele não tivesse nascido com esta…hmm…terceira antena! – concluiu, um pouco sem graça ao ter que descrever aos pais com suas próprias palavras o que via.

Não demorou muito e Formiga-Obstetra deu alta para Formiga-mamãe e Formiga-son. Receitou um frasco de remédios que Formiga-son deveria tomar até o dia da operação da terceira antena. Estavam livres para ir para casa.

O início não foi fácil.

O intricado trio de antenas chamava a atenção das formigas amigas e parentes:

“Quando vão tirar isso?!”

“Essa antena cai sozinha?!”

“Até que não é tão feio assim; tem até um certo charme!”

Tomavam o cuidado de comentar a uma distância segura, para não magoar Formiga-pai e Formiga-mãe.

– Será só por alguns anos. Quando ele for uma Formiga-teen, consertamos. – se adiantava Formiga-pai, antes que perguntassem.

Os anos voaram.

Formiga-son já não era mais uma formiguinha.

Aprendeu no seu dia-a-dia (e a duras penas!), que era diferente das demais.

Foi quando começaram as práticas esportivas.

Formiga-son descobriu o quanto a terceira antena o atrapalharia: era pesada e bloqueava a trajetória dos “farelos de terra”, utilizado em larga escala para os esportes em equipe do formigueiro.

De uma hora para outra, os amigos, mesmo os que o acompanharam desde a infância, perceberam que não seriam “bem vistos” se andassem em sua companhia.

As jovens formigas, líderes de torcida, também lhe viravam a cara.

Formiga-son, agora um teen, fora isolado…

Revoltado, certo dia blasfemava pelos corredores da escola, culpando Senhor Formigão pela maldita antena e perguntando-se por que nascera com ela. Não notara a aproximação do Sr. Formiaghi, o único Formiga-ancião do formigueiro. Ele o observava, curioso. A velha formiga varria o chão, encurvado, com dificuldade. Ajustou o boné surrado e decidiu intervir, ao ouvir o nome do Senhor Formigão usado em vão.

– Meu jovem, qual é o problema?! – perguntou, amigável.

– Não percebe, velho?! Não está claro como o dia?! Vê esta coisa “extra” aqui?! – esbravejou Formiga-son, olhando com desprezo para o servente da escola.

– Garoto tolo e cego! Não percebe o que é nem o que está bem em frente aos seus olhos!Sr. Formiaghi então, ajeitou a coluna, largou a vassoura e, rápido como uma flecha, virou Formiga-son de ponta cabeça.

– Me ajudem! Alguém me ajude! – gritava Formiga-son. Mas os corredores da escola estavam vazios. Ninguém viria acudi-lo.

Na sequência, retirou o boné surrado da cabeça.

Formiga-son não se conteve.

– Meu Senhor Formigão! Não é possível! – a jovem formiga levou um susto ao contemplar a terceira antena do Sr. Formiaghi.

– Garoto tolo e cego! Não percebe o que está bem diante dos seus olhos!

Ao repetir estas palavras, Formiaghi deu-lhe as costas e foi embora.

– Espere, espere! – Formiga-son se contorcia no chão.

Então, ela veio: uma onda gigante, de quatro centímetros de altura, passava por cima do buraco de entrada da escola e invadia seus corredores, tomados por formigas desavisadas. Professores e colegas eram arrastados violentamente pela correnteza. Ele apenas testemunhava, sem poder fazer nada.

Uma segunda onda, agora de oito centímetros, começou a se formar. Reconheceu as formigas que estavam em sua crista. Toda a sua família era arrastada pela onda, que agora vinha em sua direção.

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Segundos antes do choque, Formiga-son acordou com um berro. Deitado no chão, no meio do corredor da escola, seus coleguinhas-formiga riam em voz alta.

– Além da “antena-extra”, é louco! – gritavam.

Cabisbaixo, Formiga-son foi para casa, com mais essa: não lhe bastasse a peça sobressalente, agora tinha fama de doido na escola.

Em casa, não foi diferente.

Ao relatar a visão na mesa do jantar, Formiga-pai e Formiga-mãe fizeram pouco caso. Disseram para ele esquecer esse assunto. Lembraram-lhe de tomar seu remédio “pré-operação”. Em três dias, prestes a completar a segunda semana de vida, voltaria à Santa Casa das Formigas para removê-la. Obedecendo aos pais, tomou o comprimido e foi para a cama.

Durante a noite, as visões de uma grande inundação continuavam.

Desta vez, estava submerso em uma grande inundação.  Quando lhe restava apenas um sopro de ar, uma pata se enroscou na sua antena e o puxou para fora. Depois de cuspir toda a água para fora, pôde agradecer o benfeitor. Seus olhos, semiabertos, puderam contemplar um rosto conhecido: Sr. Formiaghi!!

Recuperado, mas ainda com as patinhas tremendo, contemplou o ancião.

Bem à sua frente, ele lhe mostrou um frasco de remédios. Começou a virá-lo, devagar. Os comprimidos começaram a cair, um a um. Testemunhou o brilho crescente da antena do ancião, para cada bolinha azul que atingia o chão. Com uma das patas, o velho apontou para o céu e fixou o olhar em Formiga-son. Palavras começaram a sair da sua boca. O som da sua voz foi ecoada em todas as direções.

Mais uma vez, aquela frase que Formiga-son já conhecia:

– Garoto tolo e cego! Não percebe o que está bem diante dos seus olhos! – Sr. Formiaghi então pegou a sua vassoura e deu um golpe na cabeça de Formiga-son.  -Acorde ! – berrou em sua direção.

Mas Formiga-Son continuou por ali.

Mas a cena agora era outra.

Estava agora na Santa Casa das Formigas. Ouviu um barulho de motor: o cirurgião-formiga-chefe empunhava uma moto-serra e perguntava para a enfermeira-formiga: “Está tudo pronto?”. Ao receber a resposta afirmativa, a operação começou. Formiga-Son testemunhava tudo. Pôde sentir o contato das primeiras lâminas raspando e soltando faíscas na sua terceira antena. Precisava fazer algo. Gritou! Gritou o mais alto que podia!

Acordou. Viu que estava são e salvo na sua cama. Acalmou-se. Mas não por muito tempo: aquelas cenas ainda pulsavam em sua memoria. O que faria?

Estava claro o que precisava fazer.

Ou talvez não.

E se tudo aquilo fosse um devaneio e talvez estivesse ficando louco mesmo?!

Removeu o torrão que bloqueava a passagem do seu quarto.

Pôde ouvir Formiga-pai, lendo uma notícia de jornal em voz alta para Formiga-mãe:

– Imagine isto!! E se fosse aqui?! Meu Senhor Formigão!!

Formiga-son aproximou-se:

– O que aconteceu, Formiga-pai?!

Duas enormes ondas atingiram o formigueiro mais próximo. Uma de quatro e a outra de oito centímetros! Todas as pobres formigas morreram! Milhares delas! Eu conhecia algumas… – emocionou-se Formiga-pai.

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Formiga-son ficou em estado de choque.

O que significava aquilo?!

Estava muito perturbado para comer a sua folha da manhã.

Já na saída do buraco da família, a mãe o avisou:

– Não se esqueça de tomar o seu remédio, hein?! A cirurgia está marcada para amanhã!

Formiga-son hesitou.

A voz do Sr. Formiaghi invadiu a sua cabeça, agora mais forte do que nunca.

 “Garoto tolo e cego! Não percebe o que está bem diante dos seus olhos!”

Caiu em si e deu um sorriso:

Diferente, sim.

Tolo e cego, não mais…

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His eyes are the eyes that
Transmit all they know.
Sparkle warm crystalline glances to show
That he is your leader
And he is your guide
On the amazing journey together you’ll ride.

Seus olhos são os olhos que
Transmitem tudo que sabem
Olhar cintilante e cândido para mostrar
Que ele é o seu líder
E ele é o seu guia
Juntos na incrível jornada,
vocês viajarão

“Amazing Journey” (Pete Townshend) , The Who, em “Tommy”

 

 

 

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