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22 de junho de 2016

A virtude da necessidade – Tatá Vianna

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“Nasci para satisfazer a grande necessidade que eu tinha de mim mesmo.”

                                                                                                     Jean Paul Sartre

Reza a lenda que no século XVIII, período da escravidão no Brasil, os senhores de engenho davam aos seus escravos as partes de carne de porco que não aproveitavam como pés, orelhas e rabo. Como a alimentação desses escravos era baseada somente em cereais – como milho e feijão – os escravos resolveram misturar os restos de carne de porco com o feijão, cozinhando tudo em um mesmo recipiente, além de adicionar água, sal e pimentas diversas a mistura, criando um guisado de feijão preto com carne de porco.

A partir da necessidade de uma alimentação mais reforçada dos escravos, surgiu um dos pratos mais famosos da culinária brasileira, um símbolo da nossa cultura gastronômica, a feijoada.

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Uma necessidade é um estado de carência que é indispensável ultrapassar ou satisfazer.

As necessidades quase sempre levam os indivíduos à ação e a busca da satisfação de suas necessidades  é geralmente um fator de motivação (“motivo para a ação”).

A virtude é a disposição de um indivíduo para praticar o bem; e não é apenas uma característica pessoal – trata-se de uma verdadeira inclinação, para qual todos os hábitos constantes levam o homem para o caminho do bem.

Na história acima, houve inclinação para o bem (ou ação correta), na medida em que, como resultado final, produziu uma alimentação mais reforçada com a matéria prima disponível. Ao mesmo tempo, trata-se de um prato simples, saboroso e criativo que não só satisfez as necessidades imediatas dos escravos, mas criou um dos mais ricos pratos da nossa cultura gastronômica!

Quem nunca passou ou conhece alguém que tenha passado por uma necessidade e a partir disso, encontrou uma maneira de fazer algo virtuoso?

Um exemplo famoso é o de Walt Disney que foi despedido de um jornal no qual trabalhava como ilustrador, por falta de “imaginação” e por “não possuir ideias originais”.

Desempregado, teve a ideia de se unir ao seu irmão Roy e ao amigo Ub Iwerks e juntos fundaram a produtora Laugh-O-Gram, onde criavam animações de conto de fadas que eram exibidos nos cinemas da cidade do Kansas antes das sessões de filmes. Seu reconhecimento veio com a criação do personagem coelho Osvaldo que se tornou muito popular na época, mas infelizmente, Walt Disney não patenteou o desenho que ele criou e com isso, a Universal se apropriou dos direitos do personagem.

Após esse incidente, Walt Disney, humildemente, enviou uma mensagem ao seu irmão pedindo para ele não se preocupar, pois ele já tinha um novo personagem em mente: Mickey Mouse. O sucesso obtido pelo camundongo tirou o ilustrador e seus sócios da adversidade.

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A necessidade de reconstruir sua vida a partir de um infortúnio levou Disney a criar o Mickey e com paciência e humildade levou-o mais à frente a desenvolver um império do entretenimento. Outro exemplo em que, através da necessidade, encontrou-se a virtude.

Mais um exemplo que gostaria de citar é o da empresária Inocência Manoel, proprietária da Inoar Professional, empresa do mercado de cosméticos, com produtos direcionados para o tratamento capilar.

Nascida com os cabelos naturalmente crespos se dedicava à procura de produtos que pudessem deixar seus cabelos “lisos e sedosos”, uma necessidade específica difícil de atender, pois os produtos então disponíveis no mercado eram importados e caros.

Mobilizada por essa necessidade não atendida, Inô começou a desenvolver tratamentos específicos para cabelos crespos como o seu e iniciou um negócio de beleza diferente com produtos revolucionários procurando algo melhor e mais acessível.

O sucesso foi grande. A sua necessidade tinha despertado um mercado praticamente inexistente e pedidos de compra de cabelereiros indicaram que sua fabricação artesanal já não era mais suficiente.

A evolução de tratamentos capilares desenvolvidos por Inocência Manoel resultou no surgimento do Tratamento Capilar Marroquino, mais conhecido como “escova Marroquina”, que era ainda melhor do que a “escova Japonesa” – uma febre na época, mas pouco acessível.

A “escova Marroquina” criada por Inô foi o primeiro produto do tipo no Brasil, algo nunca visto antes, sucesso absoluto, que permitiu a criação da marca Inoar, uma parceria da empresária com o seu filho Alexandre Nascimento.

Após o sucesso, por ser uma pessoa solidária e generosa, Inocência Manoel criou o projeto Beleza Solidária, com sede na cidade de Assis que através de parcerias, fornece cursos para que mulheres de comunidades menos favorecidas em várias cidades para que possam dar início a um negócio próprio com os tratamentos desenvolvidos por Inô.

A lição que aprendemos com os exemplos acima é que diante de uma necessidade, temos que estimular as virtudes que todos nós temos e, com diligência, não nos deixar abater pelo desânimo, pelas dificuldades ou tentar fugir pelo caminho mais fácil.

Para alcançar o que queremos, precisamos desenvolver a nossa vontade interna, força e, acima de tudo, cultivar o amor.

Então, eu te pergunto querido leitor: Você tem enxergado as suas necessidades? O que está te chamando para a ação?

Lembre-se: Sempre teremos novas necessidades a serem atendidas para tocarmos nossa vida e para nos realizar. Nessa busca, devemos mobilizar o melhor de nós e usar essas necessidades para criar a nossa “Feijoada”, o nosso “Mickey Mouse”. Sem esquecer de que, ao atendermos as nossas necessidades mais autênticas, o outro também será impactado positivamente!

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