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7 de outubro de 2015

Alerta Vermelho – Daniel Vianna

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(Sugestão de trilha sonora para a leitura: Beethoven: Symphony No. 9 In D Minor, Op.125 – “Choral”. 1. Allegro ma non tropo, un poco maestoso – Herbert Von Karajan)

link Spotify:

https://open.spotify.com/track/5u5gjokKvUHmSwhbgEwj20

O que o corpo sente, a mente ignora

O despertador tocou no horário de sempre.

Apertou o botão de soneca. Por quatro vezes.

Vinte minutos depois, acordou. Desta vez, pra valer!

Levantou-se, colocou os chinelos.

Dirigiu-se à cozinha. Tomou o seu café – de um gole só!

Estava com pressa!

Não deu tempo de ler o jornal. Nunca dava. “Em vinte minutos, o trânsito ficaria impossível!”

Entrou no banho e lavou-se rapidamente. Os números do relatório de fechamento o acompanharam durante as ensaboadas, junto com as espumas de sabão que desciam pelo seu corpo em direção ao ralo. “Preciso fechar aquilo hoje, sem falta!”

Terminado o banho, fez a barba e passou o desodorante. Não se esqueceu do ansiolítico. Faltavam três para acabar a cartela. “O suficiente para esta semana!” –respirou, aliviado. Para terminar, duas borrifadas de perfume na nuca.

Abriu o armário, escolheu a camisa azul claro. Pegou a calça escura, o cinto e os sapatos da mesma cor. Precisava engraxá-los. “Talvez no próximo fim-de-semana.”

Hora de partir.

Beijou a esposa, que ainda dormia. Ela balbuciou alguma coisa, sonolenta. Não conseguiu entender. “Querida, tenho que ir…depois você me liga no celular.”

Antes de fechar a porta da sala, ouviu um barulho. Algo parecido com um gotejar. Mas não dava tempo para ver o que era. “Depois eu vejo! Deve ser alguma infiltração.”

Então desceu pelo elevador até a garagem. Chegando junto ao carro, colocou a mochila com o laptop no porta-malas. “É mais seguro assim”. Deu a ignição no carro, fixando os olhos no marcador de quilometragem: já havia passado dos cem mil!  Precisava urgentemente marcar uma revisão. “Talvez no próximo final de semana.”

Abriu o portão pelo controle remoto.

Saudou o porteiro e saiu depressa, para não “dar bobeira” na porta do prédio. O trânsito já se iniciava na porta do seu edifício! “Paciência… vou ter que encarar!”

Sonolento, parecia que o carro estava no piloto automático.

De repente, “acordou”: ouviu a primeira buzina do dia! Foi o suficiente para dar corda a uma “orquestra sinfônica”, que tocou sem parar até o semáforo fechar. Alívio!

E tédio.

Ligou o rádio para relaxar.

Notou um barulho crescente de sirene ao fundo.

Olhou no retrovisor. Nada!

Aumentou o volume do rádio.

O barulho lá fora também aumentava, na mesma proporção.

Simplesmente não conseguia escutar o locutor do programa.

“De onde vinha aquele ruído?”

Então, o barulho de sirene cessou, o rádio ficou mudo.

Notou algo estranho no painel do carro: “Que porcaria é essa?” — um líquido espesso e escuro pingava, lentamente, pelo ventilador do carro. “Já devia ter levado essa lata-velha para a revisão!”.

Resolveu examiná-lo com um dos dedos. Ao vê-lo mais de perto, levou-o à boca.

“Sangue?!?!”.

Assustado, olhou para os dedos novamente.

“Estranho…” — girou as duas mãos para se certificar de que não havia nenhum corte.

“Ahh!!!!” — deu um sobressalto, ao ouvir o brusco retorno da sirene.

Então, resolveu abaixar os vidros e botar a cabeça para fora do carro: não havia nada atrás dele! Olhou para os lados: nada também! Para baixo do veículo: sangue! Esparramando-se pelo asfalto, escoando a partir do seu carro. Em pouco tempo, o líquido já havia se espalhado por toda a avenida e já havia formado um fluxo que desembocava no rio que a margeava.

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“Meu Deus, atropelei alguém?! Estava a dois por hora, como é possível?”

Enquanto se debatia, olhando para todos os lados, os motoristas ao redor o ignoravam.

Pareciam não enxergar o que estava se passando.

Resolveu, então, bater no rádio, que voltou a funcionar.

Aumentou o volume – mas só conseguia escutar um chiado desagradável.

O sangue voltou a pingar pelo ventilador, desta vez com mais intensidade.

Fora do carro, o asfalto já havia desaparecido por completo.

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“Estou ficando louco?? Será algum efeito colateral do remédio?”- indagava, tentando rever os seus passos. Lutava para manter um pouco de racionalidade.

No primeiro retorno que avistou, deu meia-volta e pisou fundo no acelerador, de volta para casa.

“Meu Deus, estou alucinando!”.

Vôou com o carro pela rampa da garagem. Estacionou o carro de qualquer jeito e pegou o elevador.

Ao entrar pela sala de estar, ligou a TV: “Devem estar noticiando isto, não é possível! Ou sou eu o maluco da história?!”.

Julgando-se protegido pelas quatro paredes, seu ouvido voltou a zumbir.

“Aquele barulho de novo! Deus, aqui dentro não!” — o barulho de sirene havia retornado, desta vez de forma ensurdecedora!

Sangue começou a escorrer pela televisão, sujando todo o chão da sala.

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Olhou para o teto: uma crescente mancha vermelha o dominava. Gotas vermelhas caíam, lentamente, se juntando à poça formada perto da televisão.

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“Aquelas gotas que ouvi antes de sair…mas como?!! Alguém me ajude!!! O que está acontecendo?!”

Correu assustado em direção à suíte, para acordar a esposa. Ela não respondia.

– Amor!! Amor!! Acorda, pelo amor de Deus!!!

Desespero.

Ao fundo, o barulho da sirene continuava, com toda a intensidade.

Toca o despertador.

Soneca — Acorda — Levanta — Beija — Come

Café— Xícara — Relatório — Jornal — Sem falta — Pressa — Tempo — Prazo

Banho — Barba —Ansiolítico — Trânsito —Sangue — Impossível — Paciência

Acorda, suando frio. 

Vai direto para o banheiro.

Algo o incomoda, mas ele não sabe o quê.

Olha-se, então, no espelho: algo escorre de seu nariz.

Tenta se acalmar, ao ver que se tratava apenas de um filete de sangue.

Por fim, reclama em voz alta:

— Este ar seco está de matar!!

“Para que discutir com os homens que não se rendem às verdades mais evidentes? Não são homens, são pedras. Tenho um instinto para amar a verdade; mas é apenas um instinto.”   – Voltaire

Comentários

comments

12 Comments on “Alerta Vermelho – Daniel Vianna

Luiza
8 de outubro de 2015 em 06:00

Que texto maravilhoso. As imagens impressionam.
Somos engolidos pela rotina e não temos “tempo” de nos olhar, de nos cuidar. Vamos ignorando aos chamados do nosso corpo e concentrando todas as energias na mente. Um dia o corpo reclama e pode ser tarde.

Responder
odespertador
8 de outubro de 2015 em 19:09

Luiza, muito obrigado pelo seu comentário!! Sim, você está correta. O alerta é dado. Nós é que fechamos os olhos para a realidade. Continue nos acompanhando, comentando e dando sugestões! Elas serão sempre muito bem vindas!

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Leonel Vianna
8 de outubro de 2015 em 09:43

gostei Dany.
muito bem escrito, prende a atenção até o final e tem mensagem muito legal.
continue assim.
bjs, Tio Tito

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odespertador
8 de outubro de 2015 em 19:15

Tio Tito muito obrigado!! Muito importante poder contar com o seu feedback! São muitas reviravoltas e muito “sangue” derramado (rs) para demonstrar uma verdade muito simples: que não podemos ignorar os alertas do nosso corpo e conhecer o nosso limite! Bjs Dani!

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Carlos Freitas
8 de outubro de 2015 em 11:33

Otima, Bolinha! Adorei! Como posso compartir com outras pesoas? Abrs, Calucho

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odespertador
8 de outubro de 2015 em 19:18

Grande Caluxo, que bacana ouvir teu feedback!! Sim, você pode compartilhar pelo face (temos uma página de Facebook com o mesmo nome: odespertador.com) ou você pode clicar no próprio texto (aqui no WordPress mesmo) e , ao final do texto existem os botões de compartilhamento! (esses botões não aparecem no Home da página). Forte abraço e continue comentando! É muito importante o feedback dos amigos!!!

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Gustavo Pedrosa
9 de outubro de 2015 em 15:03

Excelente Daniel. Superando-se a cada dia.

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odespertador
13 de outubro de 2015 em 16:51

Valeu meu amigo Gustavo!!! Obrigado pelo teu feedback! Sempre bom contar com o incentivo de quem entende do assunto e ama a escrita!!

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Edina Mara
10 de outubro de 2015 em 12:23

Ah! Filho…a cada leitura um aprendizado….Tenho prestado atencao aos avisos do meu corpo…Mta dificuldade com tanta PEDRA no caminho.Vamos exercitanto para pular, rss. Grande abraco.

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odespertador
13 de outubro de 2015 em 16:50

Obrigado Edina! Sim, se não respeitamos nossos limites, entramos em “parafuso” como o protagonista do conto!!

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André
26 de abril de 2016 em 13:40

Muito bom Daniel! =)

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odespertador
26 de abril de 2016 em 17:48

Obrigado Andre! Compartilhamos uma visão muito parecida a respeito deste tema !! Abração!

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