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12 de junho de 2017

As inevitáveis dores do crescimento – Daniel Vianna

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“Há sempre a escolha entre voltar atrás para a segurança ou seguir em frente para o crescimento. O crescimento deve ser escolhido uma, duas, três e infinitas vezes; o medo deve ser superado uma, duas, três e infinitas vezes.” 

        -Abraham Maslow

O uso da palavra “caos” virou lugar-comum para definir o Brasil de hoje.

Mas antes de iniciar qualquer exercício reflexivo sobre o estado das coisas em nosso país, temos que lutar contra a tentação das simplificações, além de localizar dentro de nós um pouco de criatividade, boa vontade e coragem, pois é fácil – aliás, muito fácil mesmo (!) –  sermos tomados pelo pessimismo crônico, verbalizado através de pérolas como “esse país não tem jeito mesmo!”, ou ainda, o pior de todos, “sempre foi assim”!

Para começar, tratemos de nos lembrar da idade de nosso país. Temos 517 (quinhentos e dezessete anos) de história “oficial” documentada, dos quais trezentos e vinte e dois (ou 62%) foram vividos sob o domínio da coroa portuguesa.  

Ou seja, se pararmos para pensar, nosso Brasil começou a escrever a sua própria biografia, de forma independente, há exatos 195 (cento e noventa e cinco anos atrás) –  um bebê de colo, em comparação com algumas nações europeias! E, se você prestou bem atenção, desde que Cabral pisou pela primeira vez em nossas terras, passamos mais tempo como colônia do que como um país independente. Só equilibraremos esta “balança da independência” no ano de 2.144!

Nossa pouca idade, entretanto, não pode servir como justificativa para toda esta baderna e situações esdrúxulas que vêm testando a nossa paciência e bom senso ultimamente. Mas, de certa forma, ela nos ajuda com um distanciamento e relativização deste mar de insensatez e, principalmente, nos ajuda a cultivar a paciência para que possamos entender de forma mais madura a mecânica da nossa evolução.

Parte da motivação para o nosso exercício é constatar que as crises surgem – e não mais desaparecem – como antigamenteEm silencioso desespero, constatamos que o espaço debaixo do tapete já está tomado! Podemos até optar pela convivência pacífica com a sujeira que flutua no ar, mas a impressão que temos é que será cada vez mais difícil mascarar nossas mazelas seculares e alegar que “não sabíamos” –  artifício tão convenientemente utilizado pelos nossos políticos!

Em outras palavras, nós, brasileiros, estamos “nus” – expostos como “nunca antes na história deste país”. Ficou realmente impossível apontar o dedo para o corrupto de Brasília e não enxergar as pequenas corrupções em si mesmo ou, no mínimo, circulando livremente em lugares que você frequenta como o seu condomínio, seu clube, sua empresa, seu sindicato etc. A corrupção veio à luz e hoje somos capazes de ver com clareza todos os seus desdobramentos. E, junto com ela, também estamos tendo que digerir a amarga verdade de que não somos o país “camarada” que outrora julgávamos ser. Falo de outro grande mal que veio à luz nos últimos anos, principalmente pelo advento das redes sociais, que é o da intolerância generalizada: uma incapacidade crônica para o convívio harmônico e o diálogo, fruto da resistência em aceitar a multiplicidade que é a marca registrada do Brasil, seja no âmbito das ideologias, raças, credos, gêneros, nacionalidades, culturas, biomas, climas, etc.

Em seus cento e noventa e cinco anos como um país livre e independente, somos obrigados a reconhecer que o nosso país ainda não foi capaz de uma integração verdadeira e saudável desta multiplicidade, o que ainda contribui para a geração de rupturas e abismos econômicos, sociais, culturais e comportamentais.

Arrisco dizer que, enquanto outros países e nações enfrentaram guerras, desastres naturais e epidemias, a grande batalha para nós brasileiros não virá desta forma, mas sim na identificação e destruição dos muros de separação que criamos internamente, em nosso próprio território.

Parte dessa batalha pode ser facilitada pela descoberta do nosso propósito como nação dentro do contexto global deste século XXI – pois este ainda encontra-se difuso. Nosso país tem inúmeras potencialidades mas, mesmo as que já foram identificadas, encontram-se subaproveitadas poisdesde o início da nossa jovem democracia, nossa liderança se preocupou mais em se autoperpetuar no poder e apagar incêndios do que pensar o país no longo prazo, através de um plano estratégico claro e sustentável.

Talvez facilite o nosso entendimento (e também nos faça enxergar a nossa parcela de responsabilidade) o fato de que não existem diferenças significativas entre o desenvolvimento de uma nação e o de um indivíduo. Para ambos, o crescimento ocorre em etapas, conforme níveis mais altos de consciência vão sendo alcançados.

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Ao trazermos a estrutura mítica desenvolvida por Joseph Campbell para a situação brasileira atual ( “A Jornada do Herói” , que também pode ser associada à evolução da alma humana e – por que não – da alma de um povo), podemos enxergar com clareza certos padrões que se iniciaram no ano de 2013, quando as manifestações populares mudaram de escala, motivadas pela onda de insatisfação generalizada contra as instituições governamentais.

Em 2013, houve o que Campbell nomeia de “o chamado” ou também podemos denominar de “convite à mudança”o inconsciente coletivo entrou em ação e, como uma força imprevisível e irracional, tomou forma através do coro raivoso de milhões de brasileiros. Naqueles dias de agito, o povo clamava por uma “mudança” que mal conseguia expressar: tratava-se de uma mudança de “tudo”, pois simplesmente nada estava bom…

Ali, sem dúvida, ocorreu um fenômeno social inédito na história da nossa democracia. Desnecessário relembrar todos os fenômenos de impacto social e político que ocorreram desde 2013  – acompanhados, é claro, de muitos medos, incertezas e até desesperança

Mas é importante constatar que não existem saltos de consciência, seja para uma nação ou para um indivíduo, sem que se passe pelo chamado  “vale das sombras” ou “deserto”. São períodos caracterizados por uma extrema provação, pois tanto o indivíduo como a nação agora possuem maior clareza sobre os seus atos e sobre os resultados que tem colhido, entretanto envolve também a dura responsabilidade da “renúncia” dos vícios, crenças e dos maus hábitos, o que está longe de ser algo simples. Para cada vício, existe o que Campbell denomina de “Guardião de limiar”, que no Brasil de hoje está se manifestando na forma indivíduos e estruturas que defendem, com todas as suas forças, a manutenção de um determinado vício e do status quo.

De forma mais sutil, podemos também verificar a atuação dos “guardiões de limiar psicológicos”, do qual nenhum brasileiro escapa, trabalhando em nossos inconscientes para proteger o velho jeitinho brasileiro que há séculos insiste em permanecer na nossa programação cultural !

Entretanto, não podemos nunca nos esquecer de que o livre-arbítrio é uma das leis fundamentais deste plano!

A negação sempre estará disponível. Entretanto, a recusa a esta batalha, meu caro, implica em nossa estagnação como indivíduos e como nação, além da impossibilidade de que todo o nosso povo, tão belo e heterogêneo, consiga, enfim, expressar um verdadeiro brado retumbante da sua independência (ou vitória) sobre suas próprias mazelas!

Quem sabe um dia, consigamos reconhecer a nossa meta maior, que é, sem dúvida, fazer com que este rico e variado coral de vozes cante em uníssono?!

(Ou será que só conseguimos essa proeza no início das exibições da seleção brasileira?!)

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