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28 de setembro de 2016

Bem-vindo à Semana do Ódio – Daniel Vianna

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Quando os ânimos se exaltam, a razão se perde e o caos é instalado…

No livro 1984, clássico lançado em 1949, George Orwell nos conta a história de um governo totalitário, estabelecido por um Partido Único, o INGSOC, no território do que hoje chamamos Inglaterra. O INGSOC não poupa esforços para a manutenção do seu poder: manipula os meios de comunicação, prende e tortura seus detratores e estabelece um sistema de controle visual sem precedentes, com câmeras que não desgrudam os olhos de seus cidadãos, atentas a qualquer desvio de conduta. O termo Big Brother, que se popularizou através do programa de televisão homônimo, foi utilizado por Orwell para batizar um líder simbólico, responsável por toda a máquina institucional criada pelo INGSOC: um homem benevolente para com os cidadãos e acima de qualquer suspeita, cujo rosto era adorado através de fotos e cartazes, espalhados por todas as cidades da Oceania, o território fictício dominado pelo Partido.

Acontece que, como bem sabia os Membros do Partido, lidar com o ser humano não é uma equação de apenas uma variável (embora muitos políticos de hoje acreditem que seja!).

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Para que pudessem se manter no poder, era necessário eliminar qualquer lampejo de consciência que ameaçasse florescer em seus cidadãos e impedir que brotasse qualquer iniciativa individual – “pois o indivíduo sozinho não era nada e o Partido era tudo!”. Por outro lado, era necessário garantir que houvesse um escoamento saudável das emoções, de forma que nada ficasse acumulado e tudo fosse direcionado ao devido lugar. Uma coisa era certa: o AMOR, OBEDIÊNCIA e REVERÊNCIA deveriam pertencer única e exclusivamente ao Partido. Já ÓDIO e RAIVA tinham hora e local estabelecidos para serem destilados, através da “Semana do Ódio”.

A Semana do Ódio era um evento festivo preparado com muita antecedência e cuidado, aguardada não sem muita ansiedade, onde os Membros do Partido deveriam colocar tudo para fora. Gritos, xingamentos, blasfêmias: tudo deveria vir à tona, em uma espécie de ritual orgástico. Se alguém tinha algum grito entalado na garganta, aquela era a hora de botar para fora! Não é difícil imaginar a energia emanante de uma sessão dessas, com a participação de milhares de indivíduos reprimidos e mentalmente encoleirados.

Durante a Semana do Ódio, como contraponto à figura “amável e bondosa” do Big Brother, quem fazia o papel de Judas era uma espécie de líder dos rebelados contra o sistema imposto pelo INGSOC, Goldstein: uma figura “repugnante” na visão do Partido e dos seus associados.

É interessante prestar atenção na subversão da lógica empregada por Orwell: Goldstein é o homem que fala as verdades inconvenientes sobre o Partido e, mesmo assim, todos se recusam a escutá-la! Em um ponto do livro, gera-se a dúvida se Goldstein é um homem de carne e osso (assim como o próprio Big Brother) ou uma mera criação do Partido para tentar antecipar simpatizantes de ideias contrárias às suas.

Voltando os olhos (e as câmeras) para a nossa realidade, não é tarefa difícil constatar que arranjamos “Goldsteins” para apedrejar toda semana, pois, na condição de seres humanos imperfeitos, precisamos de um pára-raio para absorver nossas insatisfações, já que não conseguimos digeri-las internamente. A questão que fica é: teria alguém por trás disso, ou seja, alguém que orquestrasse e apontasse quem seria o tal “Judas da vez”, a exemplo do que fazia o INGSOC?!

Talvez um bom (e triste) exemplo seja Hitler, que destacou os judeus como responsáveis pela calamidade econômica que a Alemanha enfrentou no período entre as duas grandes guerras do século passado. Os alemães compraram a história e o desdobramento dos eventos nós conhecemos bem.

Muitos políticos de hoje tornaram-se especialistas em arranjar “Goldsteins” para iludir a população, uma forma de se isentar de qualquer responsabilidade pelos seus mal feitos.

No mundo altamente conectado de hoje, criamos o hábito de eleger um bode expiatório por semana. Não se resume ao político que foi pego roubando. Pode ser uma celebridade que fez uma declaração infeliz ou não era tão incrível assim como você imaginava; inclusive pode ser uma pessoa bem próxima a você, dentro do seu círculo de relacionamentos: o parceiro, pais, irmãos chefes, o cachorro. Sim, até o Totó corre risco aqui. Há um prazer em cultivar a nossa “Semana do Ódio” particular, pois ela, no mínimo, nos ocupa com alguma coisa. Oferece-nos uma identidade, um passatempo. Pode servir como passe de entrada para entrar em algum grupo e sair quebrando tudo o que se vê pela frente. A pergunta que fica é: E o problema original?! Está sendo endereçado?!

É quase certo que na próxima semana surgirá outro Goldstein para você apedrejar com gosto!

Mas por que ele volta?! Aí é que está: Goldstein nunca irá embora!

Ele te habita, faz parte de você.

E, assim como no livro de Orwell, ele canta as verdades no seu ouvido. Mas você retribui com cuspes e pedras, pois a verdade lhe é custosa, dolorida. Você o recusa e acaba projetando um exército de “Goldsteins” infames fora de você. O fenômeno de “projeção” foi estudado por muito tempo por Freud e Jung. Resume-se a transferir tudo o que não aceitamos em nós, todo o nosso lodo não revirado (ou “Sombra”) para o colo do outro. Todos nós fazemos isso, em maior ou menor grau. Alguns são praticantes diários deste exercício. Abra um grupo de “Whats” e um timeline de “Face” e tire a prova…

“Durante mais de cinco anos este homem percorreu a Europa como um louco, em busca de qualquer coisa a que pudesse deitar fogo.  Infelizmente sempre haverá mercenários prontos a abrir as portas da sua pátria a este incendiário internacional.”

– Adolf Hitler, referindo-se a Churchill

E Goldstein?!

Bem, ele ainda está lá (ou cá!).

Podemos vociferar aos quatro ventos, colocar o dedo em riste, estufar o peito. Tudo em vão: o cara estará sempre pronto para nos dar aquela pinçada diária em nosso inconsciente.

Por isso, apressemo-nos: a Semana do Ódio está chegando e ainda não cuidamos dos seus preparativos!!

 

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Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Pois quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo também olha para você.”

– Nietzsche

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