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11 de março de 2016

Cala a boca, Kilgrave! – Daniel Vianna

JJ! (1)

“Eu sou o único que se importa (…)Eu sou o seu único amigo agora (…) Faça o meu trabalho sujo, bode expiatório/ Faça as minhas tarefas porque você, afinal, será “o” envergonhado”

– Sad But True, Metallica

Quando Kilgrave – o excelente vilão da série Jessica Jones, da Netflix – abre a boca, imediatamente perdemos o nosso livre arbítrio.

Não existe outra opção, senão obedecê-lo…

Na semana em que celebramos o Dia Internacional da Mulher, deveríamos abrir espaço para falar de uma das protagonistas femininas mais emblemáticas que surgiram nestes últimos tempos: a detetive particular Jessica Jones. Mas neste texto, deixaremos a heroína da Marvel um pouco de lado e daremos foco ao seu arquiinimigo – o interessante, maquiavélico e – acreditem – inseguro Kilgrave. Afinal, falar de Kilgrave é falar de um tipo de vilão que desde sempre habitou tanto homens quanto mulheres.

Britânico, charmoso, refinado. Kilgrave é um verdadeiro gentleman e mesmo se não gozasse de seu poder, poderia muito bem se passar por um homem de negócios muito bem sucedido. A seu favor, entretanto, ele dispõe de um artifício que muitos homens e mulheres deste planeta desejam (e muitos, de fato, conseguem): o poder da dominação mental. Quando Kilgrave abre a boca e lhe profere uma ordem, não há escolha: você imediatamente obedece!

Imagine caro leitor, a seguinte cena: você está na sua casa, sentado em seu sofá, aguardando uma visita. A campainha toca. Você se dirige à porta e, ao abrí-la, dá de cara com o “nosso amigo”. Ele pede que você, com toda a gentileza do mundo (e com seu british accent!), saia da sua casa, pois gostou muito dela e pretende usá-la como seu QG nos próximos dias. Ou, pior ainda, solicita que você fique e o sirva durante a sua estadia: arrume a sua cama, prepare o seu café, lave a louça e por aí vai. Essa seria a parte light dos pedidos feitos por este inquilino indesejado.

O seriado usa e abusa de cenas como essa (e outras muito piores e violentas), revelando o quão prazeroso é para o vilão usar as pessoas como seus fantoches até o limite da degradação.

Talvez o aspecto mais interessante (ou assustador) é que as suas vítimas se encontram, até certo ponto, conscientes de que estão sendo manipuladas mas não conseguem resistir e reassumir o controle do próprio corpo. A pessoa que é kilgravezada (o termo utilizado pela série para definir o “estado” da vítima) conserva a memória de seus atos e, depois que o efeito da manipulação acaba, ela manifesta uma extrema sensação de culpa e impotência, que dificilmente a deixará em paz. Não à toa, a série mostra que todas as suas ex-vítimas acabam por se reunir para compartilhar experiências sobre o abuso mental provocado pelo vilão. Uma espécie de terapia em grupo para superar os traumas provocados pelos desejos megalomaníacos de Kilgrave.

Para completar, o seriado deixa bem evidente o que motiva o vilão a continuar na sua vibe sanguinária e egoísta: o amor.

Sim, sempre ele!

Kilgrave quer o amor de Jessica Jones. Mas, por razões óbvias, esse amor doentio não é correspondido, o que retroalimenta a ira do vilão.

Mas, voltando à afirmação feita no início, qual a relação entre o Kilgrave fictício e o real? Será que até mesmo existe o Kilgrave real?

Vai vendo…

Manipular.

Abusar.

Fazer as coisas contra a nossa vontade.

Tomar uma atitude no “piloto automático” e depois se arrepender das consequências (“eu estava fora de mim”).

Todas estas atitudes são familiares a nós, seres humanos. E Kilgrave não precisa estar por perto para que elas ocorram. Elas são parte de nossa natureza.

Quando compramos uma briga no trânsito ou no Facebook, quando tomamos aquela dose extra de uísque, quando assaltamos a geladeira à noite, quando abusamos moralmente uma pessoa, quando “puxamos” o tapete do colega por uma promoção, quando praticamos a maledicência gratuita, quando obtemos pequenas vantagens, quando comemos aquela feijoada farta que não poderíamos…tudo é culpa do Kilgrave, o tal vilão que nunca descansa e vocifera comandos dos quais dificilmente conseguimos escapar. Pois sua fala possui um sotaque britânico impecável e sedutor. Ela precisa ser obedecida, sob pena de sentirmos um desconforto, até mesmo uma dor. Uma dor de natureza existencial. Pois, se dissermos não ao Kilgrave, de certa forma negamos a nós mesmos, a nossa segurança e o nosso bem-estar. E, se negamos o nosso bem-estar e saímos da nossa zona de conforto, fatalmente teremos que enfrentar longas sessões de terapia, assim como as vítimas do Kilgrave. Chegamos assim – sem muito esforço – à conclusão de que seria melhor não ter que enfrentá-lo.

Será mesmo?

Assim como Jessica Jones o fez, uma hora será inevitável combatê-lo. Será uma longa e tortuosa batalha. Cheia de altos e baixos. Se formos bem-sucedidos como a heroína, perceberemos que a sua voz já não consegue nos influenciar (perdoe-me pelo spoiler, caso não tenha assistido). Pelo menos não como antes. Ele pode até chorar, espernear, berrar “que ele fez tudo por você”, bater panela; mas você finalmente terá conquistado a coragem para ignorá-lo. Teremos, assim, conquistado a nossa tão sonhada liberdade. O tão sonhado livre-arbítrio que erroneamente julgamos ter. A fórmula mágica para enfrentá-lo? Reconhecer a sua existência e saber o que ele quer.

Mas, afinal, o que ele quer?

Uma palavra: amor.

O quê??!!! Como assim?

Sim! A mesmíssima coisa que o vilão da série quer. Ele quer amor. Quer ser visto. Quer ser reconhecido. Quer ter valor.

Ele vai pedir isso de você, dia e noite, sem cessar. Vai fazer de tudo para chamar a sua atenção.

E “ai” de você se o ignorar. Ignorá-lo, de fato, não é a melhor saída.

JJ2

Observá-lo, entender as suas motivações, suas vontades. Um estudo estratégico do vilão. Investigue, assim como Jessica. Todo vilão, afinal, tem um ponto fraco. Se ele quer amor, dê-lhe amor. Mas não o tipo de amor que ele quer, mas o tipo de amor que ele precisa. Por exemplo, comece por aceitá-lo e não ignorá-lo. Quem sabe, assim, ele pare de dar ordens e relaxe um pouco? Se você cair na armadilha de ignorá-lo, ele vai pedir esse amor para outra pessoa. E aí não teremos uma, mas duas vítimas kilgravezadas!

E então, caro leitor, conseguiu enxergar como atua o Kilgrave na vida real?!  

Está preparado para enfrentá-lo?!

Se não estiver, peça a ajuda da Jessica Jones ou do Cage (o outro herói da série). Pois, caso você não saiba, eles também estão por aí, vagando dentro de você.

Você só precisa fazer um esforço para encontrá-los!

 

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