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17 de julho de 2018

Cavalos Selvagens

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– Daniel Vianna Hunziker

“O que um príncipe aprende melhor é a equitação, porque o seu cavalo não o lisonjeia.” – Plutarco

Há muito tempo atrás, em um reino distante muito, muito distante, organizou-se um torneio de nobres cavaleiros. Não se tratava de uma competição qualquer: trinta nobres, os melhores e mais admirados de seus países, duelariam entre si não só para provar sua força e destreza, como também para demonstrar que seus reinos eram dignos de atenção, respeito e, claro, do seu lugar no mapa.

Um destes reinos, em meio a dias áridos e turbulentos, enviou, cheio de esperança, um jovem e talentoso cavaleiro como seu representante. Bem, talvez não fosse tão jovem ao olhar de alguns e, para outros, não passava de um garoto. Para a grande maioria, porém, tinha a idade ideal – e talento de sobra – para deixar todos os seus adversários no chão.

Nos dias que antecederam Grande Torneio, muitos se aglomeraram nas casas de apostas. O jovem cavaleiro da “nação em apuros”, despontou como favorito e ninguém parecia questionar sua habilidade no manejo das armas ou sua agilidade no combate corpo-a-corpo.

Entretanto, logo após o primeiro combate, os ânimos se esfriaram.

Ficou evidente que havia algo errado com a sua montaria: antes mesmo que a lança do adversário encostasse em sua armadura, o jovem já se encontrava no chão, derrubado pela hesitação e ansiedade do seu cavalo (esta, pelo menos, foi a explicação do jovem após a luta terminar, com uma eficiente vitória sua no corpo-a-corpo).

Após o problema se repetir no segundo e terceiro confrontos, recomendaram-lhe substituir o animal. Chegaram a alertá-lo, inclusive, de que jamais seria um cavaleiro completo enquanto não conseguisse controlar os instintos e a impulsividade do seu companheiro de batalha. Entretanto, como as vitórias continuavam a acontecer no corpo-a-corpo, o jovem cavaleiro não deu ouvidos.  Segundo ele, “o cavalo ainda estava se adaptando às condições do torneio”.

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O jovem cavaleiro continuou avançando na competição, alimentando as ilusões e esperanças de sua terra natal. 

Até que, enfim, chegou o dia da batalha decisiva.

Do outro lado, um adversário aparentemente inofensivo, de um reino dez vezes menor e com muito menos tradição nas Artes da Cavalaria.

O jovem cavaleiro sorriu e pensou: “Vou fazer de tudo para levar essa luta para o corpo-a-corpo. Com os pés no chão, sou invencível.” Confiante, adulou seu cavalo e partiu, rumo à vitória certa. Desta vez, porém, seu companheiro se comportou. E conduziu-o em linha reta, sem vacilar, em direção à…ponta de lança do seu adversário(!): um choque seco de metal no ombro direito, que o arremessou, inconsciente, para o chão da derrota. O adversário, já nomeado vencedor do duelo, lhe estendeu a mão. O jovem cavaleiro, aos prantos, aceitou a sua derrota com amargura, sob risos e vaias da mesma plateia.

Em seu território, a reação não foi diferente. Afinal, esperavam muito mais do jovem cavaleiro. Depositaram nele a saída para todas as suas frustrações e a entrada para os mais altos portais celestiais! Mas ele os decepcionou!

E como!!

Ainda que a maioria dos seus compatriotas também caíssem, todos os dias, dos seus próprios cavalos, era inadmissível pensar que o seu mais fiel representante demonstrasse o mesmo grau de irresponsabilidade. Preferível era fechar os olhos e ignorar os tombos sucessivos e seus efeitos nefastos em todo o reino: nas mortes e acidentes, no abastecimento das principais vilas, na economia e no próprio senso de comunidade do reino.  E, apesar dos enormes transtornos psíquicos e sociais que as quedas de cavalo lhes proporcionavam, parecia-lhes que compreender a impulsividade e o desequilíbrio do seu principal meio de locomoção ainda não era uma prioridade.

Talvez não enxergassem que o seu enviado nada mais era do que um espelho deles próprios, um espelho do próprio reino imerso em dias áridos e difíceis: jovemtalentoso e com recursos de sobra, mas completamente refém do temperamento do seu cavalo selvagem.

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