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9 de dezembro de 2015

Depois da lama – Daniel Vianna

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Aprenderam a conviver com a lama…e ela, aos poucos, os dominou!

Não faz muito tempo que esta história chegou aos meus ouvidos.

Uma história diferente, sobre um distante e isolado vilarejo.

Um lugar aonde pessoas sobreviveram por séculos, rodeadas de lama.

Sim, lama!

Lama por todos os lados.

Lamas em seus corpos, lama em suas plantações, lama em seus alimentos.

Lama em seus riachos, lama em seus mercados, lama em seus animais.

Mas nem sempre as coisas foram assim: conta-se que, há muito tempo atrás, os campos eram verdes, os alimentos eram frescos, os animais eram livres, limpos e perfumados. E assim também eram as pessoas.

A Grande Cerca ainda não existia. Tampouco o Grande Conselho da Lama.

Foi então que veio a “chuva dos mil dias”.

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Não era uma chuva qualquer, pois não era água que caía dos céus.

Era um líquido escuro, viscoso.

O estranho líquido caía, dia e noite, sem parar.

Como consequência, enchentes e destruição total: perderam-se casas, edifícios, plantações.

Formou-se então, a lama.

E esta nunca mais os deixou.

No início, houve choque e desespero. Mas, depois de alguns anos, o vilarejo aprendeu a conviver com ela.

A lama passou a dominar as suas vidas. Tudo girava em torno da lama.

Lama virou status.

Para integrar o Grande Conselho da Lama, por exemplo, o sujeito tinha que ter em sua pele coberta por, no mínimo, dez centímetros de lama.

E, para fazer parte da sociedade, no mínimo dois.

Estar com a cara limpa era ofensa grave, com risco de expulsão do vilarejo, para além dos limites da Grande Cerca!

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Logo ao nascerem, os bebês já recebiam o seu primeiro banho de lama. E enlameados deveriam permanecer para o resto da vida.

Diz a lenda que um certo jovem, curioso (como é de se esperar da idade), conseguiu passar despercebido pela guarda da Grande Cerca, chegando a conhecer os limites do além-Lama.

Caminhou, sem descanso, por sete dias.

A paisagem que via não era muito diferente da do vilarejo: rios escuros, pântanos, um cheiro insuportável de enxofre.

Mas, depois do sétimo dia, tudo começou a mudar: céu azul, campos verdes e até algumas flores. Animais, das mais variadas espécies. Então, percebeu algo inédito em sua vida: para qualquer lado que olhasse, não notava mais a presença de lama: ela havia desaparecido por completo da paisagem – mas não de seu corpo: ainda sentia o peso da lama sobre os ombros. Ainda sentia a lama bloqueando a visão.

Foi então que, andando por uma clareira, notou um barulhinho suave e intermitente. Nunca ouvira nada parecido.

Algo brotava da pedra, um líquido transparente. O que era aquilo?

Botou o dedo. Imediatamente, levou um susto: aquele líquido havia levado embora o seu dedo direito! Mas ele continuava a senti-lo, só que um pouco mais leve. Olhou novamente: não, não era o seu dedo que tinha ido embora. Era a lama que havia deixado o seu dedo.

E pôde, então, pela primeira vez ver, perceber a cor real da sua pele.

Tomou coragem e colocou a mão inteira no filete de água.

A lama foi imediatamente removida. Primeiro a que encobria a mão direita, depois a esquerda.

A certa altura, percebeu que aquele filete de água não seria o suficiente para tirar toda a lama do seu corpo. Então, resolveu seguir o caminho da água.

Algumas centenas de metros à sua frente, depois de cortar uma pequena floresta, uma surpresa: o filete de água desembocava em um enorme rio. Um rio como jamais havia visto: de água cristalina, cheia de peixes – animais dos quais só havia ouvido falar por meio dos relatos dos anciãos do vilarejo!

Sem hesitar, saltou da margem. E a forte correnteza fez o seu trabalho. Em poucos segundos, uma sensação de leveza tomou conta de todo o seu ser. A lama o havia deixado. Assim como alguns pedregulhos que haviam se incrustrado em seu corpo e que o haviam acompanhado desde a infância. Mas não sentiria falta deles. Pois sentia que já não era mais a mesma pessoa.

Percebeu, aos poucos, que também estava enxergando melhor. A visão embaçada e distorcida também tinha sido levada pelo rio!

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E assim o jovem, feliz, resolveu montar o seu acampamento na beira do rio. E por lá foi ficando, sem sentir a menor falta do povoado e da lama. Naquele local, nada lhe faltava. E assim, passaram-se dias, meses anos. Até que a saudade bateu-lhe a porta. Um sentimento de egoísmo começou a lhe corroer a alma: precisava voltar e avisar aos outros daquelas maravilhas!

Por outro lado, sentia medo. Medo de como os outros iriam recebê-lo.

Afinal, a sua aparência havia mudado tanto. Por dias se debateu, ponderando entre as escolhas de retornar ou ficar. Pensou na sua família, nos amigos. E no seu egoísmo de estar usufruindo de tudo aquilo, sem poder compartilhar.

Então, em uma linda manhã de sol, resolveu regressar.

No caminho de volta, quando a lama voltou novamente a tomar conta da paisagem, ele ficou tentado a se enlamear novamente.

Como se nada tivesse acontecido e tudo não passasse de um sonho: voltaria e inventaria uma história qualquer. Contaria que havia se perdido.

Não! Precisava voltar com a cara limpa! Precisava provar de que uma vida sem lama era possível!

Viu-se então, ao pé da Grande Cerca. Ao gritar para abrirem a passagem, dois guardas, envoltos em lama, imediatamente apareceram. E, ao verem que estava limpo, imediatamente o prenderam como um intruso e o levaram ao Grande Conselho.

No trajeto, ele pôde, então, constatar a dura realidade na qual o seu povo vivia.

Eram tratados como animais: o peso da lama era tanto que os fazia encurvar a coluna. A lama em seus rostos impedia a manifestação de qualquer emoção: risos eram repuxados, lágrimas eram contidas.  

E então, pela primeira vez, permitiu-se sentir aquela sensação esquisita: água começou a brotar dos seus olhos. O seu coração estava partido: alguma coisa precisava ser feita pelo seu povo!

Como era de se esperar, o Grande Conselho o tratou com desdém: não o reconheceram e o acusaram de mentiroso. O jovem foi ridicularizado e torturado.

“Realidade sem LAMA?! Blasfêmia!”, dizia um.

“Como ousa dizer que viu peixes?! Água limpa?! Você está fora de suas faculdades mentais?!”, apontava outro.

E assim, o jovem foi acusado de infringir centenas de regras do povoado. Mas isso não o poupou de fazer o seu relato: contou tudo o que havia visto, nos mínimos detalhes. E, a cada palavra que soltava, mais um ano era acrescentado à sua pena. Por fim, ao ultrapassar a milésima palavra, não havia mais escapatória: alcançara o limite para ser sentenciado à morte.

O jovem fora obediente até o final. Não hesitou nem quando viraram cinquenta toneladas de lama sobre o seu corpo.

Com a consciência limpa, o jovem havia cumprido a sua missão.

Havia disseminado a verdade.

Havia disseminado a esperança.

E isto fazia com que tudo tivesse valido a pena.

Passaram-se centenas de anos desde a morte daquele corajoso e bondoso homem. Os seus relatos continuam vivos e sendo contados em rodas de amigos, em reuniões e entre aqueles que querem saber um pouco mais sobre a verdade, para desespero do Grande Conselho da Lama.

Estes, é claro, sempre souberam de tudo. Dos rios limpos até os campos verdes.

Mas daí, caro leitor, é que surge a “Grande Pergunta”:

O que sobraria para eles caso toda esta LAMA fosse removida?!

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