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12 de agosto de 2015

Dias de vidraça – Daniel Vianna

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Quebrar janelas pode parecer fácil quando o que está em jogo são tomar decisões difíceis e romper velhos hábitos…

Imagine você, leitor, estar diante de uma fábrica vazia, suja, abandonada.

Máquinas paradas, armazéns vazios, cheio de ratos e baratas. Jogada ao acaso.

O seu coração está desolado.

Várias gerações da sua família trabalharam neste local. Mas dentro de você há raiva, ressentimento, desejo de vingança.

Um ódio que você não sabe de onde vem.

Em suas mãos, uma barra de aço e uma pedra.

Você ouve gritos, vindos de um grupo de pessoas ao seu lado. São os seus colegas. Querem que você ponha abaixo a última janela de vidro intacta daquele velho armazém. Um deles carrega um latão de querosene, para encerrar a noite em grande estilo!

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Você sabe bem quem eles são.

E, por isso mesmo, hesita.

Xavier, Amaral e Souza.

Xavier, no ano passado, havia lhe pedido um empréstimo e vivia inventando desculpas para não lhe retornar a quantia. Amaral já tinha dado em cima da sua mulher descaradamente em um evento da fábrica, quando tudo ainda estava de pé. Souza vivia desviando insumos da linha de produção, e se gabava de nunca ter sido pego.

Os três, em uníssono, gritam para que você aja, se posicione.

Imagens antigas daquele local, de repente, invadem a sua mente.

Em outros tempos, aquela fábrica era o símbolo de prosperidade. Sua imagem se confundia com a da cidadezinha. Não era uma cidadezinha rica, mas tinha o que precisava. A matéria-prima era abundante, embora a produção vez ou outra engasgasse.

Mas, em algum momento, algo saiu do eixo.

Talvez o problema todo tivesse se originado nas sucessivas administrações descuidadas. Talvez. Por exemplo, quando quiseram fazer um prédio administrativo do outro lado da cidade. Sabiam que muitos iriam ficar descontentes. Então, aumentaram os saláriosOfereceram promoções. O presidente da empresa, à época, prometia mundos e fundos para abafar a onda de insatisfeitos.

Você, calado, aceitou.

Depois veio o tal de bônus por produtividade. Metas impossíveis eram estabelecidas. Estranhamente, os bônus eram pagos mesmo para quem não fazia nada!  Alguns faziam vista grossa para toda aquela “festa”.

Você, entretanto, apenas observava, sem tomar qualquer partido.

Contratos com a China, ações para os empregados, benefícios infinitos.

Tudo aquilo era uma maravilha!

Uma verdadeira festa!

Para alguns, entretanto, os benefícios generalizados não eram suficientes. Começaram a passar a perna em alguns colegas descaradamente e ainda se gabavam disso.

Outros apelavam para pequenas vantagens.

A abundância era tanta que, “ninguém notaria se algo pequeno sumisse”. Até um colega próximo seu, caro leitor, o Souza (apresentado anteriormente), começou desviando “apenas” insumos da produção. Mas você não estranharia, conhecendo-o de longa data, se ele partisse para “voos mais ousados”.

Distraídos neste ambiente de bonança e desperdícios, ninguém na fábrica percebeu a enorme camada de poeira que estava se acumulando no chão da fábrica.

Aos poucos, teias de aranha começaram a envolver o maquinário.

Ratos começaram a aparecer discretamente no armazém e no refeitório, e em pouco tempo, passaram a andar livres e desimpedidos no escritório, durante o expediente!

Você até via um roedor ou outro passando por aqui e ali.

Mas, como já havia se habituado, manteve-se calado.

posts blog9

Afinal, o salário continuava sendo pago todo final de mês, e, no fim das contas, ninguém estava ligando para isso (ou fingia que não ligava).

Foi então que vieram os dias difíceis.

Os salários, de uma hora para outra, começaram a atrasar. Ninguém mais trabalhava direito, a matéria prima rareava, a motivação diminuía e o combustível era insuficiente. As máquinas sequer trabalhavam meio período.

Nesse ambiente, Souza e seu grupo começaram a ameaçar os gerentes. Exigindo os pagamentos atrasados, ou senão “aquele lugar iria pelos ares”. Em um dia mais intenso, Souza chegou a segurar um dos gerentes, o Zé Maria, pelo pescoço e a fazer demandas. O pior de tudo é que a maioria concordava com tudo aquilo, com as suas atitudes. Souza conseguiu inflamar os colegas. Tinha o dom para isso.

Você olhava para tudo aquilo, em silêncio. A que ponto aquela situação havia chegado? Mas, mais uma vez, você não se posicionou. Manteve-se quieto, como já era de costume.

Descobriu-se, em seguida, que a alta cúpula da empresa estava envolvida em escândalos financeiros. E que agentes da polícia haviam interditado o prédio administrativo.

Nas semanas seguintes, vieram à tona diversas notícias sobre o grupo que comandava a fábrica há pouco mais de uma década. Havia lavagem de dinheiro, propinas recebidas de fornecedores para favorecimento em compras, acordos ilícitos com os políticos da cidadezinha, que também foram acusados em seguida.

Não iria restar muito da velha fábrica, tão fundamental para a vida daquela população. Ela provavelmente iria à falência ou seria vendida para um grupo estrangeiro qualquer.

Neste meio tempo, Souza havia construído uma liderança entre os empregados da fábrica e falava até em entrar para a política, agora que havia tantos políticos da cidadezinha desgastados com os escândalos. Inclusive, chegou a fazer um convite a você, leitor, para e apoiá-lo. Você, calado, apenas acenou com a cabeça, pois queria garantir o seu futuro, já que o destino da velha fábrica era tão incerto.

Para comemorar os seus novos planos, chamou você, Xavier e Amaral para uma conversa no bar.

Vocês ficaram até altas horas no barzinho da cidade. Eles abriram o coração para você: Xavier pediu a você um pouco mais de paciência com o empréstimo, até que a situação dos salários atrasados se resolvesse. Por outro lado, deixou escapar que estava de mudança para uma casa maior.

Amaral e Souza, por outro lado, relembravam os episódios em que entravam na fábrica de madrugada para coletar as sobras de matéria-prima no armazém, e como driblavam os seguranças. Deram muitas risadas. Você, quieto, escutava tudo, mas não se manifestava.

Na volta, completamente bêbados, resolveram passar pelo que ainda restava da velha fábrica.

Os três empunhavam seus bastões de metal. Quebravam tudo o que viam pela frente e praguejavam contra a antiga diretoria: “Canalhas, hipócritas! Vocês vão nos pagar cada centavo!”. E bradavam o nome de Souza, o mais bêbado dos três. “Souza, você é o cara!”. Até aquele instante, você acompanhava tudo à distância, com certo receio.

Voltamos ao início da história:

Em um determinado momento, você se vê com a pedra na mão. Você não sabe como ela foi parar ali. Eles querem de você uma atitude, um posicionamento.

“Atire a pedra! Vamos logo com isso! Vamos destruir a antiga fábrica e construir uma nova mais justa e fraterna no seu lugar, onde os empregados não sejam mais enganados! Acabaremos com a injustiça e a corrupção do passado!”

Você olha para a vidraça à sua frente, para o que restou da antiga fábrica.

Apesar de estar escuro, você consegue ver parte do seu reflexo. Você se vê obrigado a rever as suas atitudes (ou a falta delas). Afinal, elas o levaram àquele lugar e àquele momento.

Uma mistura de frustração e raiva toma conta de você.

Você gira a cabeça e se depara com aqueles indivíduos ao seu lado. Eles estão aguardando!

Agora é com você, caro leitor! Faça a sua escolha!

PS: Somente fico na torcida para que esteja preparado para as consequências e que você não se deixe levar pelo caminho mais fácil!

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Comentários

comments

8 Comments on “Dias de vidraça – Daniel Vianna

Ricardo
12 de agosto de 2015 em 22:04

Abordagem envolvente de um contexto sempre presente e hoje em grande evidência: coerência, posicionamento, responsabilidade pelos próprios atos. Realmente, não é fácil. Mas a colheita requer esforço e muita “torcida”.

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odespertador
13 de agosto de 2015 em 17:48

Obrigado pelos comentários Ricardo! Muito interessante a sua interpretação do post! Um grande abraço, Equipe odespertador!

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Amorim Meneezes
13 de agosto de 2015 em 15:03

Belo e realistico texto irmão!!Parabéns!!! O lixo deve ser varrido e a fabrica reformada , com novos seguidores de um filosofia sem a pratica da Lei de gerson!!! Não convem a destruição e sim a vigilia sob um novo olhar social!!!RAHS!!!www.rauseixascover.com.br

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odespertador
13 de agosto de 2015 em 17:51

Amorim, um grande prazer tê-lo como seguidor do Blog! Muito obrigado pelos comentários! Reforçam o nosso propósito! Um grande abraço, Equipe odespertador!

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Renato Hunziker
14 de agosto de 2015 em 20:10

Melhor seria nos conscientizarmos, ao vermos o nosso próprio reflexo, que colaboramos, mesmo que seja só por indiferença e comodismo, não tomando atitudes construtivas, para o caos que tomou conta da nossa própria “fábrica”. Que a pedra sirva para a nossa própria obra, e, que com o nosso exemplo, outros sejam inspirados, em unir esforços, por um mundo melhor para nós e para quem vier depois de nós. Valeu, belo texto!!!

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odespertador
17 de agosto de 2015 em 12:05

Obrigado QQ!! Forte abraço!

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Edina Mara
10 de outubro de 2015 em 14:05

Otimo texto. Temos q fazer essa estrutura fraca se modificar aos poucos, comecando por nos mesmos… Abracao….

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odespertador
13 de outubro de 2015 em 16:49

Obrigado Edina! Sim, muitos recados para os brasileiros neste texto….

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