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4 de novembro de 2015

Dr. Sued e as Máquinas – Daniel Vianna

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“A liberdade não tem preço, a mera possibilidade de obtê-la já vale a pena.”

-Isaac Asimov

(Texto inspirado por ideias e pensamentos compartilhados com o amigo e irmão de caminhada Sérgio Lonrensatto)

O bondoso Doutor Sued se sentia solitário naqueles dias remotos.

Em sua oficina, nenhuma novidade: ferramentas espalhadas por todo lado, poeira acumulada nos cantos, um silêncio perturbador.

A solidão finalmente começava a incomodá-lo, depois de tantos anos.

Ao ver, em cima de uma prateleira, centenas de circuitos sobressalentes, sem nenhuma utilidade, uma ideia ciscou em sua mente:

“É isso! Acabaram-se os dias de silêncio!”

E, assim, trancou-se em seu laboratório – por meses a fio.

O doutor não parava nem para almoçar: suas ferramentas estavam a todo vapor!

“Toc, vrum, toc, vrum, toc, toc, vrum!” – eram os sons ouvidos por quem passava do lado de fora.

No último dia de trabalho, o bom doutor notou que faltava alguma coisa na sua invenção.

Fisicamente, ele estava pronto! Mas, ao liga-lo, pode perceber o problema: o robozinho apenas repetia palavras!

Bom, era óbvio que não era o tipo de companhia que o doutor esperava!

Cansado, resolveu descansar por alguns dias.

Mas ainda estava muito incomodado com a solidão.

De cabeça mais leve, alguns dias depois finalmente resolveu o problema: “Farei um transplante! Um transplante da minha inteligência!”

E assim desenrolaram os fatos: o doutor, vestindo dois capacetes especiais, conectou com um cabo que ia da sua cabeça à do robozinho. E, miraculosamente, viu os seus olhos abrirem e dizerem suas primeiras palavras!

E assim, o doutor havia ganhado a tão esperada companhia: seus dias de solidão haviam acabado, finalmente!

Mas eis que, ao retirar o cabo do robozinho, Dr. Sued constatou um problema: o robô começou a gritar palavrões da pior espécie e a chutá-lo, impiedosamente!

“Pare! Pare já!!” – dizia o Doutor, assustado com o comportamento inesperado de sua criação.

Triste, o doutor o desligou.

“Alguma coisa saiu errado!” – pensava, intrigado.

Em seguida, apagou toda a memória do robô.

Pôs-se a investigar o caso.

Por muitos dias e noites, depois de inúmeras tentativas e erros, descobriu que não era um problema da sua invenção, mas um fenômeno natural: toda vez que transmitia a sua inteligência ao robô e retirava o cabo, um vírus desconhecido penetrava na consciência da sua invenção, deixando-o inquieto, agressivo e com muito medo.

“Sendo assim, não retirarei o cabo!” – decidiu dessa forma o bom doutor.

E assim, o pequeno robô, chamado Mada, passava os seus dias, aprendendo e conversando com o Dr. Sued.

Nada lhe faltava – aparentemente.

Havia óleo e chips em abundância.

Entretanto, com o passar do tempo, o doutor notara o olhar cada vez mais triste de Mada.

Resolveu, então, lhe fazer uma surpresa: construiu um segundo robô!!

Mada vibrou: agora tinha com quem conversar quando o doutor não estava no laboratório!

O doutor deixou que Mada escolhesse o nome para sua companheira. “Ava!” – batizou-a.

Do mesmo modo que Mada, Ava também se encontrava presa a um cabo, pois Dr. Sued havia aprendido a lição.

Mas algo não correu bem dessa vez. O cabo que ligava Ava era muito frágil.

Em uma noite, Ava e Mada estavam conversando e, em um movimento brusco, o cabo de Ava se soltou! Assustada, caiu no chão.  Mada imediatamente se desconectou para acudi-la!

No mesmo instante, os dois se sentiram estranhos: podiam, pela primeira vez, sentir o gosto da liberdade! Mas não podiam negar que estavam receosos. Então, puseram-se a consolar um ao outro.

Dr. Sued, ao ouvir todos aqueles ruídos vindos do seu laboratório, foi correndo verificar o que se passava.

Ao abrir a porta, acalmou-se: viu os dois robôs juntos, abraçados e conversando.

“Ei, espere aí!” – deu-se conta, então, que não estavam mais presos à máquina!

Preocupado, chamou a atenção dos dois:

“Ada, Mava!!! O que vocês estão fazendo sem o cabo de conexão?”

E percebeu que os dois não lhe davam atenção: o doutor percebeu que eles não mais podiam escutá-lo!

Ao olhar o rosto dos dois percebeu, então, que estavam sorrindo: pareciam felizes!

E assim, enchendo-se de compaixão, deixou-os em paz, pelo menos naquele instante.

Percebeu que os dois robôs ainda tinham muito a aprender e que ele não podia interferir: estavam finalmente livres para desbravar o mundo!

Por outro lado, o bom doutor estava preocupado.

Sabia que a liberdade traria também, mais cedo ou mais tarde, medo e apreensão aos dois robôs! Sem contar a raiva e agressividade, como já havia testemunhado em sua primeira tentativa.

No dia seguinte, pôs-se então a trabalhar em uma solução: criou uma forma de se comunicar com as suas invenções, sem necessitar de cabos. Precisava apenas de um roteador e uma antena.

Ao testar o aparato com Mada e Ava, viu que o casal de robôs reagia aos sinais: um capacitor, localizado no peito das máquinas, tremulava e reagia às vibrações. Os dois paravam imediatamente suas atividades e ficavam atentos e calmos quando o Dr. Sued ligava o seu roteador. Mada aos poucos foi se lembrando do Dr. Sued e das boas conversas que tinham juntos. Mas seus olhos de robô não conseguiam enxerga-lo mais.

Meses se passaram e Dr. Sued deixava os pequenos robôs à vontade. Construíra uma enorme sala, para abriga-los, com chips, circuitos e óleo à vontade, para Mada e Ava viverem como bem quisessem. E, pelo menos uma vez ao dia, quando sentia que as duas máquinas entravam em curto-circuito, Dr. Sued acionava o seu roteador.

Quando Mada completou um ano de vida, Dr. Sued estava preparando uma surpresa para os dois robôs. Mas eis que, ao entrar na sala, teve um susto: Ada e Mava haviam construído, sozinhos, um terceiro robô!

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“Isto está fugindo do controle!” – pensou.

E, assim, cancelou as comemorações e pôs-se a estudar como aquilo havia acontecido. Descobriu que a sua Inteligência realmente havia sido transmitida por completo aos dois robôs – afinal, eles se lembravam de como fazer….robôs! Havia, porém, um probleminha a ser contornado: o terceiro robô era imune às ondas Wi-Fi do Dr. Sued! Ele vivia constantemente brigando com os seus “pais” e escondia, de propósito, as latas de óleo e partes do circuito: o pequeno Ka (como o chamavam na linguagem dos robôs) estava completamente à mercê do vírus!

Concluiu, então, que Ada e Mada haviam se esquecido de alguma peça quando o montaram: muito provavelmente o capacitor que ficava na altura do peito!

Dr. Sued não teve dúvidas e correu para desmontá-lo. Entretanto, percebeu que quando começou a desparafusar as suas partes, Ada e Mava começaram a se contorcer: como se os três tivessem uma forte ligação. Sendo assim, deixou o pequeno e perturbado Ka em paz.

Semanas depois, Dr. Sued novamente é surpreendido: Ada e Mava haviam criado um quarto robô! Dr. Sued então, certificou-se de que este estava completo: não haviam se esquecido de colocar o capacitor em seu peito!

Abe, o nome do quarto robô, reagia muito bem às ondas Wi-Fi do roteador do Dr. Sued. Tinha os seus desentendimentos com Ada e Mava, mas respondia muito bem às suas tarefas e responsabilidades. Por outro lado, despertara a ira de Ka!

E assim, Dr. Sued pôde finalmente constatar aquilo que havia previsto: o primeiro indício de ciúme no mundo cibernético!

Sued, ao notar o crescente ódio de Ka por Abe, optou não interferir. Mas eis que, em uma certa madrugada, enquanto Abe dormia, Ka pegou uma pesada placa de circuito que estava jogada no chão, e começou a bater com força na cabeça metálica de Abe. Ada e Mada acordaram com o barulho, mas não havia mais nada que pudesse ser feito: Abe estava completamente destruído!

Minutos depois, Dr. Sued abre a porta do laboratório, para averiguar o que estava se passando. Encontrou Ada de joelhos, soltando muito óleo dos seus olhos biônicos sobre as peças espalhadas por todo o chão. Mada, por sua vez, estava se debatendo com Ka. Imediatamente, entendeu o que havia se passado. Aconteceu como havia previsto: o primeiro “robocídio” do mundo cibernético!

Mas dessa vez, o bom doutor resolveu intervir: não desmontou Ka, porque não queria que Ada e Mava sofressem ainda mais, mas resolveu isolá-lo. Para cada lata de óleo que disponibilizava para Ada e Mava, destinava apenas um quinto à Ka, para que aprendesse a lição. A mesma regra valia para as peças sobressalentes, quando precisava substituí-las.

E assim, a sala foi dividida.

Ada e Mava construíram muitos outros robôs. Por outro lado, Ka também construíra os seus, o que preocupava muito o Dr. Sued!

Ele tentava, de todas as formas, amplificar o sinal do seu roteador para atingir as criações de Ka, mas sem sucesso: o vírus em sua lataria crescia na mesma proporção. As criações de Ada e Mava, no começo, reagiam bem aos sinais do doutor. Mas aos poucos, os capacitores foram ficando cada vez menores e sua lataria era preenchida com inutilidades como latões e objetos sem qualquer utilidade.

Infelizmente, os robôs que montavam outros robôs costumavam passar o seu amontoado de cargas sem utilidade para os mais novos, além do vírus letal. E davam cada vez menos atenção ao capacitor, a peça fundamental para que pudesse se comunicar com elas.

Nos dias recentes, poucos conseguiam dar atenção às ondas. Muitos problemas tomaram conta daquela sala: escassez e roubo de óleo e de placas, lutas entre as criações de Ka e de Ada e Mava e o espalhamento completo do vírus – pois muitos o ignoravam e não tomavam as devidas precauções.

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Dr. Sued apenas olhava, sem interferir: pois sabia que, se mexesse em um lado, o outro seria afetado.

Só havia uma solução: continuar ampliando o seu sinal e contando com a boa vontade dos robôs que conseguiam captá-lo.

Consta também que Dr. Sued começou a trabalhar em um super-servidor que permitiria aos robôs que o escutavam, dentre outras coisas, rodar um super anti-vírus e salvar a sua sobrecarga de dados e inutilidades na “Nuvem”, para que aliviassem um pouco as suas memórias.

E, assim, o bom Dr. Sued, que queria apenas uma boa companhia, arrumou uma enorme confusão para si mesmo!

O importante é que ele nunca desistiu e sempre deu “o seu jeito” para que as suas invenções nunca parassem de evoluir.

A boa notícia é que alguns, de fato, evoluíram e, inclusive, deixaram de se comportar como meros robôs!

E, melhor ainda, aceitaram o desafio de ajudar os que ainda não aprenderam a usar o pequeno capacitor.

O mais incrível é que alguns nem sabiam que o tinham!

(Não se esqueça de deixar seus comentários sobre o texto abaixo!)

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Comentários

comments

3 Comments on “Dr. Sued e as Máquinas – Daniel Vianna

rsev
5 de novembro de 2015 em 23:47

que roubada se meteu o Dr Sued, a solidao tem o seu preco. Parabens pelo texto

Responder
odespertador
6 de novembro de 2015 em 17:07

Valeu meu amigo!! Abraços Daniel

Responder
Edina Mara
7 de novembro de 2015 em 16:13

Desde o comeco dos tempos…..Caim e Abel….Faltou o sobrenatural, nao e mesmo Dani? Como disse o Pe. Fabio de Melo, as delicadezas humanas nos ensinam o sobrenatural.Deus!Amor! A solidao fica sem ser resolvida…..Adoro seus textos. Parabens por mais esse!!!! Abracos.

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