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21 de outubro de 2015

Hoje Formigas, Amanhã Homens – Daniel Vianna

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(Sugestão de trilha sonora para a leitura: 
"There There" - Radiohead,  Hail to the Thief)
Link Spotify

O que será que acontece quando a criança encara o primeiro fato, tal como ele é?

Sem fantasias. Sem imaginação. Apenas a realidade. Pura e simples.

Logo ao acordar, o menino olhou pela janela de seu quarto.

Já haviam se passado quinze dias. E nada.

Desanimado, se deparou com o mesmo cenário de semanas atrás, logo abaixo dele: o céu nublado, o gramado revirado, lama por todos os lados.

A tão sonhada piscina não passava de uma cratera abandonada, triste. Em poucos dias seria o fim das suas férias, e assim se encerraria mais um verão sem que a promessa fosse cumprida.

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Promessa feita pelo pai, que estava fora de casa há algumas semanas. O motivo ele não sabia. Coincidentemente, foi quando os homens pararam de vir e o caos se instalou do lado de fora. Do lado de dentro, a mãe, sua única companhia, andava preocupada e nervosa. Para qualquer questionamento do garoto, um sorriso forçado e um: “Está tudo bem! Vá brincar!”. E assim ele o fazia, tentando ignorar fatos que não podia compreender. Quando perguntava da piscina, ouvia um “Espere seu pai chegar”. O menino, então, esperava comportado. Dia após dia, brincando e esperando por novidades.

Naquela manhã particular, resolveu andar descalço pelo gramado e espiar o interior da escavação. Andando ao redor da cratera, notou uma trilha de formigas saindo da terra revirada, bem abaixo dos seus pés.  Cruzava a estreita passarela que levava à porta de entrada. Resolveu aproximar-se. Nunca havia visto tantas formigas juntas: marchando em fila, carregando os seus mantimentos, milhares de formigas buscavam refúgio do outro lado do gramado. Não demorou muito para o menino perceber que estava pisando no antigo lar das fugitivas. Descalço, se afastou imediatamente e ficou ali, estático e distraído, observando a fuga desesperada daqueles seres minúsculos.

Uma voz, então, corta o silêncio, e o chama para dentro de casa. Logo ao entrar, vê seu pai e sua mãe conversando na mesa da sala. O menino, então, corre para abraçar o pai, que não vê há dias. Com os olhos abertos, por cima do ombro do pai, nota que a mãe estivera chorando.

“Seu pai quer conversar com você.” – e sai abruptamente da sala.

Seu pai então, conta as novidades. As palavras saem, mas o menino não quer ouvir. Seu pai olha nos seus olhos, mas ele já não enxerga mais nada.

Ao término da fala do pai, só consegue enxergar a porta do quintal — e, em sua direção, corre o mais rápido possível. Corre pela passarela, pulando a trilha das formigas. Olha para o céu, turvado pelas lágrimas que escorrem dos seus olhos.

Levanta uma das pernas e começa a pisar com toda a força no chão, para esmagá-lo. Por seguidas vezes, cada vez mais forte. Tentava fincar raízes, ancorar-se a uma realidade anterior, já desfeita.

Mal sabia que aquilo era impossível.

Leva toda a sua ira, então, para as pequenas: parou na trilha de formigas e começou a pisá-las violentamente. O alívio é momentâneo. A morte que vê no chão, não reconhece dentro de si.

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Alguém se aproxima por trás dele. Recebe um abraço. Por um instante, não sabe se é o pai ou a mãe: “Se acalme meu filho! É natural que se sinta assim! Se não sofrêssemos com mudanças, não seríamos humanos! Seríamos como essas formigas que passeiam no nosso quintal!”

É natural.

E assim, ao som dessas palavras, o rito de passagem estava concluído. Podia sentir o barro nos pés, o abraço carinhoso, as lágrimas escorrendo por todo o rosto. Mas alguma coisa o havia abandonado. Já não se sentia mais inteiro. Pôde sentir isso ao forçar um sorriso, pela primeira vez, para quem o consolava.

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A realidade enfim surgia, implacável.

Agora fazia parte, oficialmente, do reino dos animais.

Reino do qual tentaria escapar, por toda uma vida.

Reino do qual nenhuma formiga jamais escapou.

Homens, alguns.

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“A natureza tem perfeições que mostram que é a imagem de Deus, e defeitos que mostram que é apenas a imagem.”

Blaise Pascal

Comentários

comments

4 Comments on “Hoje Formigas, Amanhã Homens – Daniel Vianna

marina Leoni
25 de outubro de 2015 em 12:10

Muito boomm!! adoro o despertador, tem me ajudado muito,bj!!

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odespertador
26 de outubro de 2015 em 15:31

Marina, muito obrigado pelo comentário! Muito gratificante!! Continue nos acompanhando e recomendando quando gostar das publicações!! Abraços DANIEL

Responder
Edina Mara
31 de outubro de 2015 em 17:34

Dani, fico mto emocionada a cada leitura. Parabens…Continue nos ajudando.. Abracos.

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odespertador
4 de novembro de 2015 em 11:40

Edina, muito obrigado!! Muito bom saber que os textos tem ajudado nas reflexões diárias! Este é o intuito! Gde bj, Dani!

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