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13 de janeiro de 2016

Marco Zero – Daniel Vianna

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Uma simples checagem no saldo bancário pelo celular e…NADA! Nem um centavo! O problema não era do banco. Era de todo o sistema…

Aproveitando que o avô estava por perto, o jovem resolveu desligar um pouco a sua estação SHFP (Simulação Holográfica de Fatos Passados) e decidiu que faria o trabalho escolar com base no relato do avô. Afinal, ele havia passado por tudo aquilo – de corpo e alma!

– Vô, poderia tomar alguns minutinhos emprestados do senhor? É para um trabalho escolar! – anunciou o jovem.

– Mas é claro meu neto! – replicou imediatamente o avô, contente ao ver o garoto sair daquele casulo rotativo por vontade própria. Ele mesmo sabia da tentação que era imergir naquele sedutor equipamento de realidade virtual, perambulando cidades tais como eram no passado; revivendo acontecimentos históricos – posses de presidentes, guerras, atentados, mortes de celebridades, descobertas científicas e interagindo com avatares de pessoas mortas (1). Estudar havia virado sinônimo de ficar rodopiando por horas a fio no tal equipamento, tentando captar a emoção de cada minuto vivido pela humanidade durante as diferentes eras (2).

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– Vovô, é o seguinte: gostaria que o senhor falasse um pouco do dia do Big Break

– Puxa vida! O famoso Marco Zero? Só de lembrar já sinto calafrios. – O adolescente então notou que a expressão do avô tinha mudado por alguns segundos e ele de imediato procurou uma cadeira para aliviar-se daquele peso repentino. Tomou fôlego e recomeçou: – Sente-se aqui, querido, que eu vou vasculhar a memória. – disse o avô, já com um leve sorriso, puxando a cadeira para o neto. Ele obedeceu, empunhou a caneta e acirrou os ouvidos para não perder uma palavra:

“Tudo aconteceu na parte da tarde. Ironicamente, seu avô trabalhava em um banco naquela época. Como de costume, iniciamos o expediente às nove horas. Um monitor estava ligado e eu e meus colegas havíamos acompanhado dados financeiros de empresas e países durante toda a manhã, na maior normalidade. Ao meio-dia, fomos almoçar. Foi aí que tudo começou…

Estávamos em um restaurante no centro da cidade, um dos melhores. Era o preferido dos executivos da região. Um dos meus colegas havia acabado de anunciar que ficara noivo. Havíamos pedido um espumante para celebrar. Como esquecer a estranha sincronia entre o tilintar das nossas taças e o primeiro grito seco a cortar o ambiente?

Foi assim que soubemos de tudo.

Aparentemente, um dos engravatados da mesa ao lado estava consultando o seu saldo de investimentos no celular. (PAUSA: – Você sabe o que é um celular, né?! – e o avô continuou após o aceno afirmativo do garoto).

Primeiro um, depois outro. Como uma onda, todos passaram a checar seus aparelhinhos. Não demorou muito para aquilo tudo chegar à nossa mesa. “- Peraí, o site do banco deve estar com problemas!”, diziam os mais otimistas. “Eu tenho conta em outro banco, deixe-me checar…” – disse um dos nossos colegas e olhos ansiosos viraram-se para ele, aguardando uma resposta.  “Meu Deus!” – e cerrou os olhos, tentando respirar. Os demais tentavam juntar as peças. Algo estava acontecendo naquele momento. Não tive coragem de olhar minha conta. Até porque seu avô, naquela época, não tinha muito. Eu e sua avó tínhamos acabado de botar todas as nossas economias em um pequeno apartamento. E, isso, meu caro, compreendi mais tarde que havia sido uma bênção!

Bem, o fato é que – inútil dizer – que aquele restaurante estava prestes a tomar o maior calote de sua história. A maquininha de cartão de crédito, uma forma de pagamento da época, não parava de emitir um sonzinho irritante. Os clientes, sem graça, anotavam os seus nomes, afirmando que mais tarde passariam lá para acertar tudo. O dono do local começou a entrar em desespero: chegou a desmaiar em determinado instante. Infelizmente, seu avô teve que seguir o fluxo: fiz o primeiro fiado da minha vida!

No caminho para o escritório, percebi a expressão das pessoas que passavam por mim. Estavam correndo de um lado para o outro. Muitos já haviam se dado conta do que estava acontecendo. O pior foi quando dobramos a esquina e nos deparamos com a entrada do prédio no qual trabalhávamos. Um aglomerado de pessoas estava segurando pedras e pedaços de pau. Muitos gritando, dizendo que haviam sido roubados. Não demorou muito para que começassem a depredar as portas de vidro e invadissem o saguão. Nosso grupo simplesmente observou tudo aquilo, à distância. E assim o seu avô, depois do primeiro “fiado”, sequer hesitou ao “enforcar” o expediente naquela tarde…

Eu e sua avó passamos à tarde grudados na TV, tentando se inteirar dos fatos. As informações eram desconexas. O próprio apresentador estava tenso. Era certo que também estava preocupado com o montante que havia desaparecido da sua conta.

A versão apresentada no telejornal dizia que um grupo de hackers havia produzido uma nova linguagem de vírus eletrônico que tinha a capacidade de emitir um pulsar eletromagnético.  Milhares de servidores ao redor do mundo haviam sido apagados. Em sua maioria, dados financeiros – e seus respectivos backups. O pior ainda estava por vir: a possibilidade de recuperação destes dados ainda estava sendo estudada. E se ela fosse possível, poderia demorar vários dias, meses, talvez anos. Todos os países estavam vivendo o mesmo drama. O telejornal foi, então, interrompido para um pronunciamento presidencial. A coisa estava ficando séria. O chefe da nação entrou em cena, com alguns jargões atemporais: “tenham calma”; “cultivem o bom senso ” e, é claro, “ a situação em breve estará sob controle”.

Os dias que se seguiram ficarão para sempre na minha memória. Tentando viver o dia seguinte como se nada tivesse acontecido, resolvi caminhar até o trabalho, sem ler o noticiário. Até para cultivar um pouco de otimismo. Mas não consegui sair para a rua. Grupos de pessoas corriam de um lado para outro. A polícia estava na rua. Gritos, confusão. Filas de veículos se formavam. Resultado: buzinaço. Como estavam abarrotados de coisas, deduzi que estavam saindo da cidade às pressas. Estavam certos: quando este tipo de coisa acontece, a melhor coisa a se fazer, é deixar as cidades. Os filmes americanos dos séculos XX e XXI nos ensinaram bem isso…

A última notícia que se tinha, antes dos últimos portais de Internet e emissoras de TV saírem do ar, era a de que os bancos centrais de cada país haviam retirado de circulação todos os valores em espécie e barras de ouro, por medida de segurança e para “restabelecer” a ordem. O mais incrível é que o dinheiro físico representava apenas 2% do total. O restante se resumia em bits em uma tela. Eles tentavam, sim, era ganhar tempo. Não demorou muito para que a energia elétrica e sinais 5G saíssem do ar. (PAUSA para explicar ao neto o que era um sinal 5G!). Não preciso nem dizer que o poder público não conseguiu manter a ordem. Tentamos, sem sucesso, contatar nossos amigos. Nenhum morava perto de nós. Provavelmente haviam deixado a cidade também.

Naquela madrugada, eu e sua avó fizemos o mesmo: pegamos nosso carrinho velho e fomos parar o interior, até que as coisas voltassem ao normal. Se voltassem…

O pai da sua avó tinha um pequeno sítio. Felizmente, enquanto estivéssemos por ali, estaríamos a salvo. Teríamos o que comer. Os vizinhos, amigos de longa data do seu bisavô, não hesitariam em nos ajudar caso faltasse alguma coisa. Na cidade, certamente passaríamos o tempo trancafiados a sete chaves.

Ali, não tínhamos nenhum meio de comunicação: ficávamos na expectativa dos burburinhos dos vizinhos que chegavam aos nossos ouvidos.

No 15º dia, ficamos sabendo que tudo havia voltado ao normal. O sistema estava de novo “no ar”. Mas a maioria das pessoas, com o pé no chão. Cada um havia enfrentado a situação a seu modo. Outros decidiram não enfrentar, e deram à vida o mesmo destino do seu extrato bancário. Houve saques, depredações. Menos do que se esperava – e apenas de itens de primeira necessidade. Afinal, do que adiantaria roubar um eletrônico se não havia energia? Uma grande parcela, por outro lado, havia assimilado a lição: o deus moderno mostrara-se falível! Assim como todos os maestros que o haviam regido até então!

Cinco anos depois do evento, com os sistemas em cheque, iniciou-se em Genebra uma rodada de discussões entre Bancos Centrais. Houve resistência. Houve choque. Mas foi naquele ano que o “justofluxo”(4) e novos modelos econômicos começaram a ganhar corpo. E o dinheiro e antigas estruturas que o detinham, a morrer. O resto você sabe…

Os jovens da sua geração já convivem bem com o “justofluxo”(4) , mas muitos velhos da minha ainda o criticam, como se não houvessem aprendido nenhuma lição! Não é o caso do seu avô, é claro!”.

O garoto, então, olhou para o seu caderno, certificando-se de que havia anotado tudo.

– Puxa vida, vô…que época para se viver, hein!? E o que o senhor aprendeu com tudo aquilo?!

– Que a sua avó era de fato a mulher da minha vida e que eu não poderia ter feito melhor escolha! Foi nessa época que descobri a sua verdadeira coragem e disposição para enfrentar qualquer desafio!  Inclusive, foi durante esses dias que seu pai fora…

– Opa! Já entendi vovô! – interrompeu o menino, com um leve sorriso, entendendo onde aquilo ia parar. – Muito obrigado! Já tenho o que preciso!

– De nada, filho! Só espero ter sido uma melhor ferramenta do que o seu “simuladorzinho” escolar ali. E não se esqueça: apoie-se sempre na verdade e busque-a por si próprio. Não deixe que ninguém a construa por você! Para simplificar, eu a chamo “Amor”. – e, de forma espontânea, deu uma gargalhada. – Ele, sim, é atemporal. Pois, você sabe,  até o “justofluxo”(4), algum dia, poderá deixar de existir…

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(1) As redes sociais haviam conseguido ressuscitar os mortos, pelo menos no que se refere a postagens – Com autorização de no mínimo cinco familiares próximos, o falecido “continuaria” a postar sobre novos assuntos, com base no conteúdo de postagens que ela fazia enquanto viva.

(2) Para fatos ocorridos antes do séc. XX,  haviam sido criadas simulações interativas em computador, onde era possível reviver desde uma batalha romana contra ostrogodos, visigodos e outros godos até acompanhar lado a lado com um velociraptor a trajetória do grande asteroide que o aniquilou.

(3) “Grande Quebra” — também conhecido como Marco Zero. Nome dado à extinção temporária do Sistema Financeiro Mundial, pelo período de quinze dias.

(4) Justofluxo (do inglês “Fair flow”) : sistema de troca eletrônica, com lastro em um modelo de cesta básica global acordado entre as Nações. Cada indivíduo porta o seu medidor digital, e inicia o dia com, no mínimo, com créditos suficientes para três refeições-modelo. Os demais componentes do saldo seriam acrescidos com base na contribuição social daquele indivíduo – incluindo um avançado algoritmo que levaria em consideração o nível de influência e seu impacto na sociedade , horas de dedicação, nível de conhecimento, entre outros.

Comentários

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2 Comments on “Marco Zero – Daniel Vianna

André
20 de janeiro de 2016 em 09:28

Excelente conto meu amigo!
Se fosse um capítulo de um livro eu leria todo ele rapidamente 😉
Acho que esse é o caminho! 😉

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odespertador
20 de janeiro de 2016 em 14:31

Valeu André! Muito bom contar com vosso feedback! Um grande abraço! 😉

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