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15 de julho de 2015

Medo da Liberdade – Tatá Vianna

medo da liberdade - foto destacada

Imagine se você, caro leitor, tivesse nascido em uma caverna, acorrentado, sendo forçado a ficar sempre no mesmo lugar. Imagine que o seu único passatempo é observar uma parede, que reflete imagens distorcidas do mundo exterior. O que você faria? Permaneceria ali, parado, contemplando esse mundo irreal, virtual? Ou daria um jeito de mudar sua situação?

Estas provocações foram feitas por Platão, em “O Mito da Caverna”, uma das passagens de sua obra “A República”, onde ele desenvolve a ideia da descoberta do mundo real através do processo de coragem de encarar a realidade e de buscar o conhecimento e a sabedoria, sem acreditar nas aparências.

Não pretendendo me estender em uma interpretação mais refinada de Platão e sua filosofia (afinal, não tenho nenhum diploma nesta disciplina!), apenas aproveito essa introdução para questionar alguns temas presentes em nossa vida cotidiana pois tenho visto por aí muitas pessoas vivendo dentro das suas próprias “cavernas”.

Muitos “acorrentados” modernos vivem em um tipo de mundo de aparências, onde preferem permanecer em um universo virtual e limitado, ao invés de viver e encarar o seu mundo real. Veem apenas as imagens projetadas na parede da sua “caverna”.

A construção desta “caverna” ou “realidade limitada” pode ocorrer de muitas formas. Uma delas, e certamente uma das mais influentes, é o próprio conjunto de notícias e informações que as pessoas recebem de várias formas: pelas redes sociais (facebook, twitter, etc) e pelos meios tradicionais (jornal, televisão, rádio). Entretanto, muitas vezes estas informações carecem de consistência e profundidade.

Essas mensagens – bombardeadas diariamente como verdades absolutas – na maioria das vezes representam apenas fragmentos do todo, parecem imagens distorcidas da caverna. Por conta disso, devemos ter a atenção redobrada quando somos expostos aos famosos “furos de reportagem”, tão em voga ultimamente.

Ao nos depararmos com este tipo de notícia, nem sempre refletimos sobre tal conteúdo e nos questionamos: “Será que é isso mesmo? E o outro lado da versão contada pelos jornalistas, qual será? Haverá imparcialidade na hora da divulgação?”

No ambiente das redes sociais, o mesmo risco de interpretação da realidade também existe: tanto para quem “posta” como para quem “curte” ou “lê”!

Quantas pessoas não postam selfies em viagens, baladas e na academia para manter um determinado status?

Aparentam estar sempre felizes e rodeadas de amigos, mas não enxergam que estão aprisionadas em sua própria “caverna”, tentando fabricar uma ilusão, seguindo à risca uma “modinha” do momento, ditada por alguma celebridade ou pelos meios de comunicação.

Por outro lado, quem lê o post e se incomoda ou sente um “pingo” de inveja, torna-se também uma vítima, pois “compra” a ideia que o amigo(a) está vendendo. Se não houver um simples questionamento de ambas as partes para as suas atitudes, os dois já se tornaram companheiros de cela.

Fora das redes sociais, no mundo de carne e osso, a doutrina da imagem e da aparência também segue firme e forte.

Outro dia, eu fui para a balada com meus amigos e fiquei impressionada com a quantidade de mulheres iguais: na maneira de vestir, no jeito de falar, no corte de cabelo. Parecia uma coleção da mesma boneca! A diferença ficava apenas na cor do cabelo, porque até a cor do esmalte era igual para todas. Uma verdadeira dança de estereótipos!

A sensação que eu tenho é que, ao construir uma realidade que se utiliza de modismos de “quinze minutos” como matéria-prima, e ainda notar que muitos possuem um enorme senso de urgência em se posicionar perante a eles (e desta forma alimentando um novo modismo!), nos tornamos prisioneiros complacentes de um ciclo perverso.

Para escapar, precisamos expandir nossos horizontes. O primeiro passo (e o mais difícil!) é reconhecer este ciclo acontecendo bem próximo de você.

face-copy

Em um determinado ponto, passará a ser natural questionar o que é mostrado pelos meios de comunicação e não mais deixar-se ser manipulado. Ao desenvolvermos o nosso “filtro”, passamos a tirar nossas próprias conclusões.

Ao adquirirmos coragem para nos libertarmos das correntes que nos mantêm presos a um certo modo de pensar – contaminado pelas influências culturais e sociais – e sairmos da nossa caverna, um novo mundo nos será apresentado. Cheio de incertezas e surpresas. Mas certamente mais colorido, espontâneo e autêntico.

“O Mito da Caverna”, escrito em 380 a.C., nos lembra que a busca pela verdadeira liberdade sempre foi um enorme desafio para o homem que vive em sociedade. Por isso mesmo, poucos chegaram a desfrutá-la.

No mundo contemporâneo, onde o volume de informações deve ser em torno de milhares (ou milhões) de vezes maior do que no tempo dos sábios gregos, desenvolver o nosso próprio “filtro” passa a ser uma questão primordial – tanto de saúde como de bem-estar!

E então, meu querido leitor?

Está preparado para o desafio de sair da caverna ou optará pelo comodismo de viver em um mundo de sombras?

Comentários

comments

5 Comments on “Medo da Liberdade – Tatá Vianna

Luiza
15 de julho de 2015 em 16:49

Adorei este post! Além de uma proposta pessoal de abertura, pode ser excelente reflexão para formadores e educadores que podem repensar os currículos escolares fechados e sistematizados.

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odespertador
15 de julho de 2015 em 17:04

Oi Luiza, muito obrigada :)
Fico feliz que tenha gostado. E esse é o nosso objetivo com o blog, provocar reflexão.
Continue nos acompanhando e comentando.

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Marilia
15 de julho de 2015 em 17:57

Adorei o texto! Muito bem colocado pois mostra exatamente como vivemos hoje! Penso que o mundo seria melhor se as pessoas fossem livres o suficiente para pensarem o que quiserem sem ter que seguir regras da sociedade tornando-as escrevas da sociedade!

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Renato Hunziker
15 de julho de 2015 em 18:36

Talvez, a saída da caverna espiritual seja para dentro se si mesmo, como sugeriu Sócrates, em sua doutrina, inspirada na inscrição da entrada do templo de Delfos : “Conhece-te a ti mesmo”. Ou, como Jesus diz em Lucas 17-21: “Nem se dirá: Ei-lo aqui; ou: Ei-lo ali. Pois o Reino de Deus já está no meio de vós.”

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odespertador
27 de julho de 2015 em 16:35

Exatamente! :)

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