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26 de agosto de 2015

Nós, os super-heróis? – Daniel Vianna

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Não temos capa nem batmóvel, mas sempre fazemos o bem à nossa maneira…será mesmo?!

Não há como ignorar a enxurrada de filmes e séries de super-heróis que inundam atualmente tanto a “telona” como a “telinha”.

Como interpretar esse fenômeno recente, que se mostrou uma escolha tão segura e lucrativa para os estúdios de cinema? Por que isso acontece?

Seriam os efeitos especiais? As cenas de ação? Ou seria apenas uma opção barata, simples e divertida de as pessoas deixarem a monotonia de suas vidas e embarcar em uma luta do bem contra o mal, onde fica clara a distinção entre os dois lados – quando na vida real esta distinção não é tão clara assim? Incluída nesta terceira opção, você ainda pode dizer que acompanha os gibis deste ou daquele herói desde a infância e se identifica com ele. Até aí, nada fora do comum.

Mas e o vilão da história?

Poucos, ou mesmo ninguém, assumiria que se identificou com o vilão. Corretíssimo, isto seria até politicamente incorreto, não é mesmo ?! Mas será verdade? Alguém aí se identifica com o caos provocado pelas engenhosidades do Curinga? Responda depois dos próximos parágrafos.

Os aspectos simbólicos que carregam os filmes de super-heróis, principalmente os que realçam a luta do bem contra o mal, talvez sejam os verdadeiros motores que motivam o nosso inconsciente e nos fazem ir até uma bilheteria e comprar um ingresso. Os superpoderes, efeitos e tudo o mais estão inclusos no pacote, é claro.

Entretanto, os filmes que devem ser levados a sério não são os que atordoam a sua cabeça, com mais informações na tela (e em 3D!) do que o cérebro humano é capaz de processar, mas os que trabalham a real motivação do herói e o conflito com a sua dualidade.

Afinal, estes são os aspectos do herói que os tornam tão humanos quanto nós.

Eu perguntaria a você: existe um vilão mais assustador do que aquele que consegue deixar um herói em dúvida sobre o seu papel a cumprir? Ou fazê-lo se achar uma fraude e duvidar de si mesmo? Isso mesmo, o vilão mais perverso é aquele que consegue entrar nos piores medos do herói e torná-lo tão fraco quanto uma criancinha indefesa.

No mundo real, este tipo de conflito acontece o tempo todo – embora seja mais fácil e exija menos do nosso intelecto encará-lo na telona.

Por mais íntegros e corretas que sejam as nossas motivações, sempre aparecerá um veículo – na forma de encontros com pessoas, notícias, conflitos conjugais e inúmeras outras interações – para levar em rápida velocidade o vilão mais temível de todos os tempos: o pensamento distorcido.

E é aí que começa a verdadeira luta entre o bem e o mal: preconceito, raiva, compulsões, vícios, brigas, imposições podem transformar o suposto Batman em um Coringa rapidamente. Ou Anakin Skywalker em Darth Vader. Exemplos encontramos aos montes!

Voltando à pergunta do início do texto, eu perguntei se alguém se identificava com o vilão.

Ninguém levantou a mão.

Pois bem, vamos lá: ao se colocar em um pedestal e vestir a roupa do Batman ou do Super-Homem, você pode se equivocar e colocar no outro extremo, ou seja, no papel de Curinga ou Lex Luthor, todos aqueles que discordarem da sua opinião, não te compreenderem, te atrapalharem, ou mesmo te interromperem por demandar a sua atenção.

Injustiça! Poxa, você só estava fazendo o “bem”! Você age em nome do “bem” de todos e ninguém o reconhece! E ainda por cima te atrapalham! Coitadinho do nosso herói!

Será que você está mesmo com esta bola toda?

Lembremos que, nos filmes, mesmo os super-heróis não estão livres de suas motivações egoístas.

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No primeiro filme do Super-Homem, do longínquo ano de 1978, o nosso herói de capa, ao perder Lois Lane em um deslizamento de terra causado por um terremoto, resolve ir para o espaço e começa a voar em altíssima velocidade em torno da Terra, com o objetivo de retroceder o tempo. Dessa forma, ele conseguiria alguns minutos extras para resgatar a amada do soterramento. Na cena, a voz de seu pai Jor-El ressoa em sua consciência, em uma aparente referência à voz de Deus, alertando-o de que ele não tinha o direito de interferir no curso da história humana.

 “Ok, mas ele salvou o seu grande amor!” – você tenta justificar a atitude do homem-de-aço!

Certo, mas ele não levou em consideração o impacto que a sua ação teria sobre os outros sete bilhões de habitantes que vivem no planeta. Principalmente os que se encontravam em sofrimento, que teriam que reviver tudo de novo. Mas é complicado julgá-lo. Qual ser humano na face da terra não teria feito o mesmo?

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O próprio Batman tem também uma motivação egoísta para lutar contra o crime: prefere reviver a dor de sua perda através da vingança, nas sombras das ruas de Gotham dando pontapés nos inimigos e combatendo um mal que nunca terá fim (afinal, o verdadeiro “mal” é o fato de ele nunca ter conseguido superar a dor que surgiu na sua infância, com a morte de seus pais). Desta forma, nunca retoma inteiramente o seu papel como Bruce Wayne, que, como herdeiro de uma grande fortuna, talvez pudesse contribuir de forma mais produtiva à luz do dia, como um grande empresário e filantropo da cidade.

Pronto! Acabei de pôr abaixo os seus heróis de infância, mas não se desiluda, por favor!

Existe um outro personagem para o qual gostaria de chamar a atenção e que talvez ilustre, como nenhum outro, a nossa condição (afinal, não temos a capacidade de voar e não contamos com um batmóvel): Harvey Dent, mais conhecido como Duas Caras. Ué, mas ele não é um vilão?

Muita calma nessa hora!

Harvey era um brilhante advogado de Gotham. Chegou à promotoria e estava fazendo um excelente trabalho de colocar os mafiosos na cadeia. Até que um destes mafiosos jogou ácido em sua cara, e trouxe à tona sua doença de múltipla personalidade (no filme O Cavaleiro das Trevas, é a morte de sua namorada, Rachel, provocada pelo Coringa, que desencadeia o processo de sua loucura).

Harvey, segundo o próprio Batman, era o herói que Gotham necessitava.

Inteligente, íntegro, ético. Lutava contra a escória de Gotham sem máscaras e à luz do dia, para quem quisesse ver. Porém, um grande trauma trouxe à tona o seu lado mais obscuro, mais notadamente o hábito de decidir o destino de suas vítimas em um jogo de cara-ou-coroa.

A grande lição sobre este personagem é que, como seres humanos, somos falíveis.

Oscilamos.

E o perigo da queda é real. 

Por isso precisamos cuidar muito bem da nossa armadura.

A “pegadinha” de sempre nos colocarmos do lado do “bem” é que nem sempre isto pode ser verdade.

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Esta postura acaba por nos colocar em uma posição de arrogância, onde evitamos saber o outro lado dos fatos. Além disso, nos exime da nossa responsabilidade: a culpa pela sua derrota será sempre por causa do seu arquinimigo, que não te compreende!

Afinal, fazer o  “bem” dá um trabalhão…

Por outro lado, se enxergamos o drama de Harvey Dent em nós e, principalmente, nos outros, talvez tenhamos tolerância, paciência e humildade em aceitar suas limitações e conflitos.

Todos nós, afinal, temos um Harvey Dent e um Duas-Caras lutando dentro de nós o tempo todo, lutando contra os vilões que alimentam nosso pensamento e nossas ações.

Desejo sinceramente, caro leitor, que você se lembre deste fato no seu próximo filme de super-herói,  discussão de trânsito ou na sua discussão conjugal.

Quem será, afinal, o grande vencedor desta batalha?

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Comentários

comments

5 Comments on “Nós, os super-heróis? – Daniel Vianna

Rosane
27 de agosto de 2015 em 02:00

Ótima texto, Daniel!!! Ao terminar de ler, fiz minha reflexão e acho que todos carregamos heróis e anti-heróis, a questão mesmo é o equilíbrio! Parabéns, foi uma boa leitura no meio da semana 😉 um beijo!

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odespertador
27 de agosto de 2015 em 13:08

Nane, obrigado! Bela conclusão! É por aí mesmo, sem extremos e com muita humildade, amor e fé no coração! 😉

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AntimidiaBlog
27 de agosto de 2015 em 10:06

Republicou isso em REBLOGADOR.

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Edina Mara
13 de setembro de 2015 em 18:14

Muito boa reflexao!!! Bem e mal…nossa fé nos ajuda a discernir….

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odespertador
14 de setembro de 2015 em 17:21

Obrigado Edina! No meu entendimento, a fé é, sim, um caminho para nos ajudar a baixar a poeira quando bem e mal se tornam confusos. Pois, aos olhos humanos, uma ação considerada do “bem”, pode muito bem não ser a mais adequada à situação global. O desafio é lançado a todos nós, diariamente…Beijos!

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