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29 de junho de 2016

O dia em que a Terra surtou – Daniel Vianna

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O dia em que o nosso planetinha, cansado de tanta pressão, quase jogou tudo para o alto…

– Eu não aguento mais isso aqui… – confidenciou a Terra à Marte, seu irmão mais próximo– Vou me mandar, juro.

– Calma, minha irmã. Apenas tente aguentar o tranco.

– Calma o @#!!@#!!!  Este cara não me dá sossego! – e apontou para o Sol, da sua metade escura, tentando manter a discrição – Pra você é mais fácil! Está mais longe dele, né?! Veja o meu estado! Estou um bagaço, toda descabelada!

Neste momento, ouviu-se um estrondo enorme.

– Olhe só pra isso! Eu não disse?!– a Terra deparou-se com um enorme furo em sua superfície: um conjunto de meteoros a atingira em cheio! Tentou disfarçar com um deslizamento de terra, mas parte da cratera continuava exposta. – Por quanto tempo mais, meu Deus!? Não dá mais!!

Neste momento, Júpiter e Saturno, os irmãos maiores, interromperam a conversa:

– Nossa, irmãzinha…você tá horrível mesmo, hein! – e não fizeram esforço para conter a gargalhada. – Pede pro pai pelo menos te deixar ir a um salão de beleza dar um trato nessa aparência, pô!

– Deixem ela em paz, vocês dois! – Marte interviu. – Vocês podem ter tamanho, mas é só!

– Foi mal hein, nanico! Só estamos tentando ajudar! – disse Saturno.

– Sei, sei. Cisquem, vai! – ordenou Marte.

Os irmãos maiores viraram o rosto, e seguiram suas órbitas. Ainda era possível ouvir suas gargalhadas à distância.

– Poxa! Obrigado, irmãozinho! Valeu mesmo! – agradeceu a Terra.

Marte resolveu tomar uma atitude e ajudar a irmã desesperada: colocou a mão no bolso e retirou um cartão todo amassado. Estendeu-o em direção à Terra. Nele, havia apenas uma palavra:

Beetlegeuse (*), estrela vidente.”

– Olha, eu não deveria fazer isto… – fez uma pausa, ressabiado. – … mas como se trata de uma emergência, acho que não tem outra solução.

Beetlegeuse? Estrela vidente!? – a Terra ficou confusa.

– É o seguinte: esta estrela é meio amalucada. Muitos astros e planetas da Via Láctea que se consultaram com ela tiveram problemas…. –  notou que a Terra não parava de olhar a frente e o verso do cartão: – ….mas outros tantos ficaram muito satisfeitos. Um amigo meu disse que ela não tornará a sua vida mais fácil. Ela apenas te conta a verdade! Nem mais, nem menos!

– Hmm, interessante! – a Terra entusiasmou-se. – Uma coisa ainda me preocupa: papai não vai deixar que eu saia de órbita…pelo menos nos próximos milhões de anos! Como faço para me comunicar com essa “Bee-alguma coisa”?!

– Aí está a melhor parte! Se você não pode ir até ela, ela virá até você! Basta dizer o seu nome três vezes!

– Sério?! Então é pra já: Beetle…. como é que é mesmo?!

– Beetlegeuse! – Marte a lembrou. – Já pronunciamos seu nome duas vezes. Não gostaria de estar aqui quando você pronunciasse a terceira. –  disse, não disfarçando o ar amedrontado. Fingiu olhar para um relógio fictício: – Hora de ir! Boa sorte, hein! – Marte deu-lhe as costas e se mandou.

A Terra, então, empunhou o cartão, tomou coragem e soltou a voz:

Beetlegeuse!

Uma ondulação no tempo e espaço começou a se formar. A alguns milhares de quilômetros de distância, a Terra observou um portal, que irradiava um intenso brilho. De seu interior, testemunhou o surgimento de uma estrela bilhões de vezes maior do que pai Sol! Como era possível que existisse algo desse tamanho?! A estrela, por uma simples questão de escala e conveniência, se transmutou em um velho de barbas brancas. Olhando a Terra de cima em baixo, começou:

– Foi você quem foi que me chamou?

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Sua voz soava grave e misteriosa. A Terra, quase arrependida de ter convocado aquela sessão, titubeou:

– Hã….na verdade…

– Foi ou não foi?! – o velho perguntou com firmeza. – Olhe, minha pequena amiga, existem outros bilhões de planetas com problemas em nossa galáxia. Se você não precisa de ajuda e só estava brincando com o meu nome, é melhor…

– SIM!! – a Terra respondeu em voz alta, fechando os olhos, com raiva da própria covardia.

O velho deu um sorriso.

– Entendo! – disse, olhando para a vizinhança –  Aquela turma ali é a sua família?! Eles te apoiaram nessa decisão?

– Na verdade, o meu irmão mais novo é que me deu o seu cartão.– sussurrou a Terra, com receio de que fosse ouvida pelos demais.

O velho deu uma grande gargalhada.

– Eu não ajudo ninguém. Apenas falo a verdade. A verdade sobre o passado, presente e futuro. O resto é com você, garota! –a honestidade do velho barbudo fez a Terra sentir um grande incômodo. Um incômodo que ressoou em sua espinha.  –  Me conte…o que lhe aflige?!

A Terra começou a narrar toda a sua trajetória, oscilando entre raiva e tristeza, lágrimas e ecos distantes de uma alegria quase esquecida: contou desde as porradas  diárias que levava dos meteoros, do bullying que sofria por parte dos irmãos maiores, das obrigações de andar sempre na linha imposta pelo pai Sol. Ele também não lhe garantia qualquer privacidade: pelo menos uma de suas metades estava sempre sendo iluminada por ele. Ela era uma vítima, não tinha dúvidas quanto a isso.

O velho apenas mexia a cabeça, parecendo concordar. A Terra ficou satisfeita: sim, alguém finalmente lhe dava ouvidos! Depois que terminou, seguiu-se um incômodo minuto de silêncio. O velho agora a encarava. Chegara  a sua vez de falar.

– Olhe…de novo…o meu objetivo aqui não é passar a mão na sua cabeça. Está preparada?! – o velho, em um passe de mágica, fez surgir um projetor de vídeo. – Aperte aqui, por favor! – disse, apontando para a tecla Play.

– O que é isto?! – a Terra ficou curiosa sobre o equipamento.

– Algo que seus filhos vão inventar, daqui a bilhões de anos.

– Filhos?!

– Shhhh. Apenas assista!

O vídeo começava com os planetas do Sistema Solar com as órbitas desreguladas, próximos de se chocarem com os outros. Faltava um planeta. A Terra percebeu que era ela. Beettlegeuse acelerou o vídeo e, no segundo minuto, todos os planetas eram engolidos pelo Sol.

Este seria o resultado, minha querida, se você quisesse dar a escapada que tanto deseja! – alertou o velho. – Primeira lição de nhoje: agradeça ao Sol…e aprenda a escutá-lo!

A Terra se agitou.

– Incomodada? Calma! Ainda tem mais…

Beetlegeuse começou a acelerar ainda mais o vídeo. A Terra percebeu que agora havia um planeta azul ocupando o seu lugar.

– Quem é este planeta? Eu vou ser expulsa, é isso?! Quem é essa bola azul?!

O velho deu uma sonora risada.

– Não, garota! Você não vai ser expulsa! Esta bola azul É VOCÊ! – o vídeo então, começou a adentrar a atmosfera do planeta azul. A câmera começou a sobrevoar os oceanos, montanhas, florestas, vulcões, mares de lava. Pousou na superfície. O zoom se intensificou.  Capturava o surgimento das primeiras bactérias, a vida surgindo nos oceanos e migrando para a terra firme. A fúria dos dinossauros. De repente, uma bola de fogo surgindo no céu: um grande meteoro destruía tudo o que havia se formado.

– Tudo isto vai acontecer dentro de mim?! Onde, quando?! – a Terra assistia a tudo aquilo desconfiada. – E ainda por cima ainda vou levar mais porrada?!

– Shhh! Pare de reclamar e assista!

Alguns segundos depois, a poeira levantada pelo meteoro diminuía. A vida ressurgia, desta vez mais complexa e elaborada: os primeiros mamíferos. Símios. Neste momento, Beetlegeuse pausou.

– Chegamos ao momento crucial, garota! Agora quero que preste bastante atenção!

O vídeo mostrava uma imagem de um feto em desenvolvimento, nas primeiras semanas de vida.

– Peraí, quem é esse?! – a Terra estranhou a figura.

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Este, minha querida, é um dos motivos pelo qual você apanhou – e ainda vai apanhar –  tanto! – disse Beetlegeuse, arregalando os olhos. –Seres humanos, garota…seres humanos!

Seres humanos!? – repetiu a Terra, descrente. – Então quer dizer que, depois desses aí, eu não vou mais apanhar e as coisas vão ficar mais leves pra mim?!

Beetlegeuse deu uma sonora gargalhada.

– Aí é que você se engana!  – disse o velho, avançando milhões de anos pelo controle remoto.

O vídeo começou a mostrar a evolução dos seres humanos em modo acelerado: cenas de disputas e batalhas. Corpos espalhados pelo chão. Tortura. Florestas queimando. Animais sendo sacrificados. Fábricas ejetando toxinas pela atmosfera. Aves agonizando, cobertas de óleo. Discursos de ditadores e seus milhões de seguidores. Fuzilamentos. Crianças empunhando armas como brinquedos. Outras, famintas. Por fim, uma explosão nuclear. A Terra fez uma cara de espanto quando se deparou com a cena do cogumelo atômico.

– Eu não diria que elas vão ficar leves… – disse Beetlegeuse. – Eu estaria mentindo se dissesse o contrário.

– Meu Deus! – a Terra estava chocada.

Sim, a responsabilidade é Dele mesmo. Você pode culpa-lo também. É sempre mais fácil assim, né?! Ou não. A verdade é que você será mãe, garota. Mãe não só de uma, mas de milhões de espécies! Mas uma em particular vai exigir mais, muito mais de você…

– Os seres humanos?!

Exato! – o velho fez uma cara séria. – Você lhes dará tudo, mas receberá muito pouco em troca. Uma migalha aqui e outra ali. Você será testada no seu limite. A dor que sentirá com a morte de um destes pequenos fará com que estas chuvas de meteoro que você tanto reclama pareçam cócegas. Você vai chorar. Vai se desesperar. Terá raiva e sentimento de vingança. Uma ou outra vez você irá mandar os seus recados: erupções vulcânicas, tornados, tempestades. Mas acabará sempre por perdoa-los e lhes oferecer uma segunda chance. Bom, acho que já te disse demais…é muita informação para um planetinha como você processar…

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– Mas por que eu?! Por que tem que ser eu?! Eu não sei se consigo, veja bem… – a Terra começou a entrar em parafuso. O futuro que tinha pela frente a apavorava.

– Quem disse que é só com você?! – Beetlegeuse riu. – Garota, você não é o centro do Universo não!

O vídeo, então, avançou para galáxias localizadas a milhões, bilhões de anos-luz de distância. A Terra observava, atônita, o mesmo processo acontecendo repetidas, infinitas vezes com outros planetas irmãos. Bilhões de galáxias, estrelas e planetas em uma dança perfeita, seguindo um ciclo harmônico de desenvolvimento. Sentiu-se pequena, impotente e imatura. Beetlegeuse percebeu que estava cabisbaixa.

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– Eu te avisei que falaria a verdade…e sei que na maioria das vezes não estamos preparados para ouvir…

A Terra continuava se lamentando:

– Mas por que tudo isso?! Por que temos que apanhar tanto?! Aguentar tanto?! Chorar tanto?! Acho que estava melhor antes de te chamar!

Mal havia terminado de choramingar, a Terra se viu sozinha. Beetlegeuse havia desaparecido. O Sol e os planetas, também. Tudo estava escuro ao seu redor. Um enorme e silencioso vazio. Pensou em abrir a boca para falar mais alguma coisa, mas viu que não havia ninguém para lhe escutar. Guardou para si. Não sabia explicar, mas se sentiu melhor ficando em silêncio. Vendo que não tinha muito o que fazer, decidiu esperar. Passou-se um, dois mil anos. Estava começando a ficar cansada. Estava começando a ficar com saudades da família, de alguém para conversar. Será que Beetlegeuse estava lhe pregando uma peça?! Sentiu, então, algo brotando dentro de si. Em seguida, um forte tranco. Alívio: estava de volta à velha órbita! Uma enorme alegria tomou conta dela ao avistar o Sol e os irmãos, todos em seus devidos lugares. Eles pareciam olhá-la de uma forma diferente.

De fato, estava. Toda azul, como no filme de Beetlegeuse!

As demais cenas, preferiu apagá-las da memória.

Não queria antecipar nada, apenas seguir firme e continuar gravitando em sua órbita. O resto apenas seguiria o seu curso natural, como SEMPRE.

Notas:

(*) Inspirado no personagem de nome Beetlejuice, protagonista interpretado por Michael Keaton do filme “Os Fantasmas se Divertem” (1988), de Tim Burton. O personagem era um exorcista, que aparecia para os seus clientes depois de ter o seu nome invocado por três vezes. A estrela gigante Beetlegeuse, contudo, existe e seu volume é, de fato, três bilhões de vezes maior do que o do nosso Sol!

 

 

 

 

Comentários

comments

2 Comments on “O dia em que a Terra surtou – Daniel Vianna

Helder de Paiva
14 de julho de 2016 em 08:02

O passado nao pode ser alteracao.
O futuro ainda está para ser escrito.
Lembre-se de ontem. Olha para o partir.
Mas viva agora.

Responder
odespertador
20 de julho de 2016 em 15:41

Obrigado Helder! Correta a interpretação! Forte abraço Vianna

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