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30 de maio de 2015

Homens Loucos – Daniel Vianna

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O seriado se foi, mas a sua provocação permanece.

Ao destacar os conflitos internos de Don Draper, MAD MEN conseguiu a proeza de retratar os dramas e angústias contemporâneos, embora ambientada nos anos 60 e 70.

“Turn off your mind, relax and float down stream, It is not dying, it is not dying/ Lay down all thoughts, surrender to the void/ It is shining, it is shining/ Yet you may see the meaning of within/ It is being, it is being/ Love is all and love is everyone It is knowing, it is knowing/ That ignorance and hate mourn the dead/ It is believing, it is believing/ But listen to the colour of your dreams/ It is not leaving, it is not leaving/ So play the game “Existence” to the end/ Of the beginning, of the beginning”

Lennon, John. McCartney, Paul. Tomorrow Never Knows. (Em Beatles, The. Revolver. Capitol Records, 1966)

No episódio 8 da quinta temporada, esta letra ecoa no ouvido de um dos personagens mais bem elaborados da nova era de ouro da televisão americana: o publicitário e ególatra-alcóolatra Don Draper, da recém-encerrada série de televisão MAD MEN.

Ou Richard “Dick” Whitman.

Tratemos de nomes mais adiante. Na cena em questão, Don ganha de presente o clássico álbum Revolver dos Beatles e, imediatamente, resolve escutá-lo. Para ficar mais confortável, se livra do paletó, dos sapatos e “convida” o seu amigo inseparável – um copo cheio de whisky e gelo – para desfrutar da viagem psicodélica. (link da cena)

A música se inicia. E trata-se da provocante Tomorrow Never Knows, última canção do lado B do recém-vitalizado formato long-play. Mas quem é o maluco que começa a ouvir um LP pelo lado B e, ainda por cima, pela última música? – você rapidamente se questiona. Sugiro perguntar ao produtor da série, Matthew Weiner, que desembolsou 250 mil dólares para ter o direito de exibir a música.

Maluquice? Eu diria que mais ou menos.

A sua letra e sonoridade se encaixam perfeitamente à cena e, principalmente, ao protagonista. Elas atingem tão violentamente a consciência de Don, que este não deixa sequer que a canção termine, retirando bruscamente a agulha do vinil. Pistas sobre esta atitude repentina de Don?

Sim, e elas foram deixadas ao longo de toda a série.

Mulherengo inveterado, alcoólatra, fumante compulsivo, egoísta. Sucesso aos olhos dos clientes e dos colegas.

Uma contradição?

Não, se considerarmos que, como sócio da Sterling Cooper & Partners (a agência de publicidade fictícia da série), vive literalmente da imagem que consegue transmitir ao mundo. E nisto o personagem é mestre. Seu talento para este jogo é inegável e, de um mero vendedor de uma loja de ternos, se torna, em poucos anos, o profissional mais cobiçado da Madison Avenue (a “Wall Street” da publicidade ).

Obviamente, a escalada meteórica tem um preço – e o seriado não poupa o telespectador do inferno astral vivido por Don: porres quase diários, brigas conjugais, falta de identificação com os filhos, escapadas do escritório (em pleno horário do expediente), “perdidos” em reuniões importantes e, para compensar um pouco, fugas para o escritório e total imersão no trabalho quando a situação conjugal apertava.

A situação lhe soa familiar no mundo de hoje?

Talvez, por este motivo, o personagem seja tão cativante.

Ao mesmo tempo em que sua aparência, à primeira vista, denota um homem plenamente realizado, rico, sedutor, pegador de “primeira”, o seu interior se encontra em frangalhos. A sua inquietação é justamente o motor da autodestruição que o faz consumir álcool na mesma medida em que consome mulheres.

O seriado deixa claro que a origem de todo este conflito residia no passado de Don, nascido como Richard “Dick” Whitman. Dick conhece o verdadeiro Don Draper na Guerra da Coreia. Quando Draper é morto em uma explosão, Dick é confundido no hospital militar com o colega morto. E, neste momento, enxerga no mal-entendido a oportunidade de apagar de vez o seu passado.

Algumas cenas de flashback deixam a entender que esta atitude é até compreensível – era filho de uma prostituta, seu pai era alcoólatra e, se isso já não fosse suficiente para gerar conflito em uma criança, acaba por ver o pai morrer de forma tragicômica (atingido por um coice de um cavalo) e ainda vai parar nas mãos de pais adotivos que gerenciam um bordel.

Complicado, não?!

A troca de identidade acaba parecendo até algo necessário, cirúrgico – e que o destino havia realmente lhe trazido uma oportunidade, um presente.

Ledo engano.

A série habilmente nos mostra que um homem jamais pode caminhar livremente sem se reconciliar com o seu passado – e é no reencontro com o seu irmão mais novo que Dick (já travestido de Draper) percebe isso. O irmão o reconhece ao ver sua foto em um jornal. E não hesita em reencontrá-lo.

Dick aceita o convite para um encontro, entretanto, não esconde que quer se ver livre dele, oferecendo-lhe uma bela quantia para desaparecer de sua vida e “deixá-lo em paz”.

Adam recusa a oferta e desesperadamente tenta resgatar o que restou do velho irmão.

Frustrado com as atitudes deste “novo” e “falso” Dick/Draper, acaba por tirar a própria vida. E, assim, o protagonista ganha mais um peso nos ombros para carregar ao longo da trama.

Ironicamente, a abertura da série nos exibe um vulto em queda-livre (a própria silhueta de Don), em meio a anúncios de publicidade e chutes “suaves” de pés femininos, que simbolizam a sua trajetória.

Para que Don Draper (a criação, máscara, embalagem) suba, “Dick” Whitman (o conteúdo real, de difícil e amarga digestão) terá que cair – e por muitos andares.

Ambientada nos turbulentos anos 60 e 70, em que a sociedade americana viveu, em intervalos relativamente curtos, a morte de John F. Kennedy, chegada do homem à Lua, assassinato de Martin Luther King, Guerra do Vietnã e a ascensão do movimento hippie, a série tem muito a dizer sobre os dias atuais ao escolher focar no drama e escolhas de seu protagonista.

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Na era do marketing pessoal, alimentado pelas Redes Sociais (Facebook, LinkedIn, etc.), o “efeito” Don Draper desfila diante de nossos olhos com força total. E, como o personagem demonstra, podemos, sim, ser muito bem sucedidos nesta empreitada! Mas a que preço e aos olhos de quem? Trata-se de buscar contentamento em se tornar uma mera embalagem de si mesmo, em troca de prazeres e paixões fugazes.

Pode funcionar por um período, mas, inevitavelmente, em algum momento, o seu “Adam” particular vai aparecer para lhe lembrar do real conteúdo.

Aquele que você deixou jogado pelo caminho e que agora vai precisar encarar.

O mais difícil nesta história, caro leitor, é que, para encarar este conteúdo, é necessário, primeiramente, rasgar a embalagem.

Mas quem, de fato, estará disposto a aniquilar o “Don Draper” que nos habita?

Uma série que deixará saudades…

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