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6 de julho de 2015

O umbego – Daniel Vianna

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Você conhece o umbego?

Não?! Ele se localiza entre o seu umbigo e o seu peito…

Você pode não escutá-lo, mas ele fala com você o tempo todo!

Não me lembro, exatamente, como tudo começou.

Só me lembro de que foi há muito tempo.

Talvez eu ainda fosse pequeno.

Talvez.

E, do nada, ele surgiu.

Um pequeno caroço localizado entre o peito e o umbigo.

Eu não sabia do que se tratava, a princípio. Não chegava a incomodar.

Deixei para lá.

“Quem sabe é só um mal passageiro?”, pensei.

Até que, em um belo dia, o caroço rompeu a pele.

Presenciei tudo.

Lembro que era como uma bola de fogo sendo expelida para fora do meu corpo.

E como brilhava! Isso mesmo, eu acabara de parir um pequeno Sol!

Dei-lhe o nome de “umbego”.

Quando o vi pela primeira vez, não acreditei: ele usava óculos escuros (me

pareceu um Ray Ban polarizado) e trazia até um cigarro na boca!

“Meu Deus, como chegou a esse ponto?! Será que isso é normal?!”

Tudo aconteceu, literalmente, debaixo – ou melhor, acima do meu umbigo!

Tentei alertar todo mundo: pais, parentes, amigos – até o meu médico particular:

Nada!

Ninguém o via! Ele ficava ali, parado e quietinho, só me observando.

De vez em quando dava um sorrisinho irônico: devia estar se divertindo com o meu desespero!

E continuava fumando e baforando para cima, em direção à minha cara!

Se parasse por aí, até que não seria de todo mal.

Mas não parou.

Lembro até hoje quando o maldito abriu a boca pela primeira vez.

Foi no colégio, quando estava sendo provocado por um colega.

Ou será que foi quando a professora me chamou a atenção pela primeira vez?

Bom, vou me ater à primeira memória!

Sei que ele estava recolhido, aparentemente dormindo.

E quando veio o primeiro empurrão, ele veio para fora.

Sua luz ficou ainda mais forte. Chegou a me cegar.

E, assim, sem enxergar um palmo à minha frente, ele disse, com uma voz de comando, quase biônica:

“Soque ele! Na cara! Arrebente ele!”

Obedeci.

Cego, bati no meu colega até não poder mais.

Ele observava e aplaudia tudo aquilo.

Camuflado pelos óculos escuros e pela fumaça do seu cigarro —

me lembro de que eram cinco ou seis maços por dia!

Ao final da cena, deu uma sonora risada:

“Viu só?”

“Não se sente melhor?”

“Não precisa agradecer, viu?!”

“Funciona assim, amigo: eu brilho, você aparece! “

“Ninguém sai perdendo!”

Na verdade, eu não entendi muito bem o que ele quis dizer com isso.

Só lembro que a luz dele me incomodou.

Sua voz me incomodou.

Ele não ia embora, não adiantava.

Em desespero, tentava fazer com que os meus colegas o vissem, ou, pelo menos, conseguissem escutar a sua voz.

“Eu sou inocente! Não fui eu! Foi ele!”

E, quando me virei, ou melhor, olhei para baixo, ele já havia se retirado para a sua toca.

A bronca sobrou para mim.

Restou o arrependimento e, claro, a advertência do Diretor.

Naquela época, o umbego costumava aparecer apenas em situações extremas.

Na adolescência e durante a faculdade, ele resolveu aparecer todos os dias para dar um “alô”.

Eu já não aguentava mais o cheiro do cigarro.

O papo também era bem repetitivo.

Sempre os mesmos assuntos: mulheres, bebida, rock n´roll e, claro, money.

O engraçado é que eu comecei a reparar que ele nunca tirava aqueles maldito óculos escuros.

Nunca tivera coragem de me encarar olho no olho.

Uma vez tentei arrancar seus óculos e ele se vingou queimando a ponta do cigarro na minha barriga.

Urrei de dor!

Maldito!

Em outra ocasião, ele arrumou um iPod (não sei bem como!).

Colocou o fone de ouvido e começou a berrar a letra da música só para me provocar!

Isso com o tempo acabou se tornando um hábito.

Que vinha à tona quando alguém me pedia ajuda ou falava de algum assunto que não era do seu interesse.

E então, começava: I can´t get no… satisfaction!! ´Cause I try… and I try!

Eu simplesmente não conseguia dar atenção àquelas pessoas.

“Você vai me agradecer por isto! Acabei de te salvar de uma enrascada!” – e acendia um cigarro para comemorar.

O umbego era invasivo e arrogante! Era também muito ciumento.

A cada nova amizade ou relacionamento, ele queria aparecer para dar palpite.

Uma vez, até para falar com o meu chefe, ele quis dar as caras.

Consequência: conseguiu a minha demissão! E o safado ainda comemorou, com uma dose — de whisky!

Ele nunca se arrependia, pois, no seu entendimento, sempre tinha razão.

Era o dono da verdade suprema! A última palavra era sempre a sua!

Ao longo dos anos, descobri que eu era, na verdade, um covarde por escutá-lo.

Mas ele, se escondendo atrás dos óculos, também era…

Foi quando me dei conta: “É isso!”

Então, em um belo dia, resolvi ignorá-lo por completo.

Ignorava sua fala hostil, os seus conselhos.

Ele percebeu!

Entre um cigarro e outro, em um só movimento, tirei seus óculos!

Ele entrou em parafuso.

Começou a se contorcer sem parar!

Bolhas começaram a surgir por toda a sua superfície! Achei que ele fosse explodir!

Então…o círculo de fogo começou a se transformar em algo!

Primeiro, notei a formação do que parecia ser um rosto e, depois, uma cabeça inteira!

Olhos, nariz, orelha! Fios de cabelo começaram a brotar!

Definitivamente, era um rosto: o meu rosto!

Era o meu rosto sim!

Mas seus olhos eram sem vida… pareciam de vidro, cerâmica.

Olharam diretamente para mim!

E, ao olhar profundamente para aqueles olhos, aquela cabeça começou a desaparecer, vagarosamente, pelo ar.

Dissolveu-se como a fumaça dos cigarros que costumava fumar!

Felizmente, depois daquele dia, o meu pequeno amigo esférico e intrometido nunca mais deu as caras.

Mas nem tudo são flores, como a vida não nos cansa de dizer.

E, desde a sua partida, uma terrível maldição caiu sobre mim:

O umbego dos outros começaram a conversar comigo!

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Eles surgiram do nada, assim como o meu.

Talvez eles sempre tenham estado ali, mas eu não os via.

Um terrível exército de umbegos!

Eles me fazem todo tipo de ameaças!

Culpam-me pelo que fiz com o meu umbego.

De ter removido seu Ray-Ban polarizado.

O pior de tudo é que eu vejo as pessoas ao meu redor vivendo numa boa com seus umbegos, sem demonstrar um pingo de incômodo.

Para piorar, na maioria das vezes, elas nem abrem a boca!

Apenas agem, como escravas: “Sim, meu mestre! A seu serviço!”

Afinal de contas, são eles, os umbegos, claro(!), que comandam o show:

Sempre regado a muito sexo, drogas e rock n´roll!!

PS:

E você, caro leitor? Como tem lidado com o seu umbego?

Só não vale dizer que você não tem um!

Comentários

comments

7 Comments on “O umbego – Daniel Vianna

Bel Mattos
6 de julho de 2015 em 20:46

Muito bom!

Responder
odespertador
7 de julho de 2015 em 09:10

Obrigado Bel! Bjs Vianna

Responder
Sérgio Lonrensatto
7 de julho de 2015 em 15:42

Genial !

Responder
odespertador
7 de julho de 2015 em 20:17

Valeu meu amigo!! Tamo junto 😉

Responder
Ricardo
8 de julho de 2015 em 16:02

Ótima sacada! Diálogo genial.

Responder
ev.r. (@EvertonRS)
4 de agosto de 2015 em 12:05

de enorme clareza esse texto, um esboço de metodo de autoconhecimento para que uma pessoa possa a comecar a olhar e identificar seu proprio Ego, :-) meu umbego ta la para o desrespeitoso, irritado, e tb dono da verdade, e eu ainda não o desmascarei, apenas consigo silencia-lo por periodos, porem quando sou encurralado, ele aparece! e ate toma conta do show, e eu não me sinto bem depois, claro! Valeu pelo esclarecimento Vianna!

Responder
odespertador
5 de agosto de 2015 em 11:30

Obrigado meu amigo!! Valeu pelo fback!!

Responder

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