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7 de março de 2016

Para além de você mesmo – André Cardoso

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Texto originalmente publicado no blog Idéias Já em 25 de fevereiro de 2016

De vez em quando, precisamos rever a nossa visão sobre nós mesmos e sobre o mundo. Pois às vezes, nossas lentes podem estar “desreguladas”….

Desde os tempos pré-históricos, o ser humano sentiu a necessidade de compreender a realidade à sua volta, seja através das figuras talhadas nas cavernas, seja em outras formas mais rudimentares de linguagem.  Limitar e entender as diferentes ações e reações propiciadas pelos elementos da natureza e estabelecer classificações e associações tornou-se fundamental para a sua sobrevivência e evolução como espécie. De certa forma, seguimos este roteiro à risca até os dias de hoje: traçamos limites sobre nossos campos de interesse, o que, em tese, facilita a nossa compreensão (e também reduz nossos desconfortos e incômodos). 

E quando tratamos de nós mesmos, seres humanos? Como podemos enquadrar todos os elementos que nos definem? Para início de conversa, faria sentido tal enquadramento?

Geralmente as pessoas costumam se definir pelos gostos, pelas experiências, pelos títulos. Vamos colhendo as peculiaridades de cada etapa e formamos a nossa personalidade.

Curiosamente, muitas vezes nos deparamos com a seguinte frase: Fale-me sobre você.

Ela soa como um convite a um mergulho. Só que para dentro de si mesmo. E assim, somos chamados a fazer uma autoanálise e, depois, um relatório. Somos desafiados a descobrir:

Quem é você?

Então, evitando e até mesmo temendo mergulhar no descobrimento interno, seguimos no modo piloto automático com a chave desta questão. Vamos respondendo mecanicamente e pintamos a nossa ficha pessoal. Vejamos o caso de nosso amigo João:

Meu nome é João Silva, 1,75m, tenho 30 anos, sou jornalista, trabalho com marketing digital, sou católico, vou a igreja toda semana, não tenho partido político, votei nulo, gosto de futebol e corrida, adoro cinema, adoro viajar, não gosto da “night”, não fumo, bebo  “apenas” socialmente. Sou calmo, perfeccionista, sou “bom com números”, etc…”

Veja que poderíamos escrever um livro sobre as características do João. Mesmo assim, muitas ainda ficariam de fora…

A grande pergunta é: Será que João é isso tudo mesmo? Ou seus atos e gostos são apenas um reflexo de seu estado atual?

Vamos ver mais adiante. Agora vamos examinar o nosso personagem, que, descrito pelos amigos como empolgado e cheio de energia, não demonstrou este mesmo “estado de espírito” ao responder à próxima pergunta:

Como você está?

Hoje não me sinto muito bem! Estou triste e apreensivo. Estou preocupado com a situação do país e com as contas que se acumulam para pagar. Não vejo meus filhos há meses e meu cachorro morreu semana passada. Estou ansioso com o jogo do meu time no próximo domingo e me sinto desmotivado no trabalho…”

Desta vez, definimos o tempo: Hoje.

Hoje, João está triste. Mas, e amanhã? Impossível de se prever…

Sentimentos são como nuvens. Passageiras e instáveis.  A questão aqui é analisar (novamente mergulhar para dentro) se estes sentimentos são constantes, e o que temos feitos para mantê-los – quando positivos – ou para mudá-los – quando negativos.

Se você está, você pode mudar!

Quem se define, se limita.

Voltando a questão Quem você é (para o caso de nosso amigo João), vamos analisar se podemos migrar cada pergunta para o status de Você está.

Eu sou João Silva ←→ você pode mudar de nome?
Tenho 1,75m ←→ sua altura será essa para sempre? Talvez não quando passar dos 80!
Tenho 30 anos ←→ ano que vem, você terá quanto?
Sou jornalista ←→ é apenas um título que limita suas possibilidades. Pode substituir por “está” jornalista? Você se formou em jornalismo, mas você é jornalista o tempo todo? Sempre foi?
Sou católico ←→ sempre foi? Pode mudar de religião?

Para tudo, podemos nos questionar se é um estado fixo, imutável ou se pode mudar.

E, para nosso espanto, vamos descobrindo, aos poucos, que tudo é passível de mudança.

Vamos absorvendo aquela famosa frase: Tudo passa! O movimento faz parte do universo. Relativamente, nada está parado.

Mas, então, não temos nenhuma definição fixa? Nós nunca somos? Sempre estamos?

Na verdade podemos usar o verbo “ser” quando consideramos a transitoriedade das coisas, de acordo com o nível atual do conhecimento humano. Ficou confuso? Vou dar um exemplo…

Somos seres universais em constante aprendizado, evoluindo a cada dia.
(Você é algo que está sempre mudando)

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Ter a consciência deste fato, permite-nos uma visão de mundo menos imediatista e nos faz pensar nos valores que vamos conquistando ao longo de nossa trajetória. Nos traz a esperança também com relação a outras pessoas e nos lembra da paciência que devemos cultivar em relação ao outro. Pois cada um evolui a seu tempo, conforme as suas experiências.

O pensamento breve limita muito a nossa visão sobre tudo e todos. É como se usássemos lentes sujas para ver o mundo, as pessoas e o modo como interagimos. Quando julgamos que as pessoas são isso ou aquilo, nós perdemos o tato. Não conseguimos enxergar por outro ângulo.

Agora, se temos a percepção de que tudo passa, de que tudo é transitório, de que as pessoas talvez não sejam inteiramente más – apenas “estejam” (por “n” razões que desconhecemos) e de que o mundo da forma como se apresenta, pode se transformar a qualquer momento, então podemos agir com mais fé na humanidade!

Trocamos nossas lentes e enxergamos um irmão de jornada, em constante mudança assim como nós. Todos estamos, afinal!

Nos permitimos, assim, a esperança e a tolerância. Com os outros e com nós mesmos!

E você, caro leitor?  Como tem observado o mundo? Sob a ótica rígida do “é” ou flexível do “estar”? Não nos custa nada pegar um paninho de vez em quando para desembaçar nossas lentes!

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Comentários

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2 Comments on “Para além de você mesmo – André Cardoso

SERGIO ANDRADE JUNQUEIRA
11 de março de 2016 em 22:47

O tema autoconhecimento assim como suas abordagens, vi muito pouco até agora, mas o suficiente para ter ressoado dentro de mim.

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odespertador
14 de março de 2016 em 15:47

Sergio, muito obrigado pelo feedback! Excelente que tenha ressoado dentro de vc! Isso nos motiva a seguir adiante! Aliás vc pode mandar sugestões/ críticas no email blog.odespertador@gmail.com para continuarmos nosso diálogo! Um grande abraço Equipe odespertador

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