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10 de maio de 2017

Precisamos falar sobre o silêncio – Daniel Vianna

Apresentação1
Nota: texto inspirado por insights pessoais e lições aprendidas durante a minha participação no último Retiro do Silêncio liderado por Sri Prem Baba em São Bento do Sapucaí. Prem Baba lançou no início deste mês a campanha APENAS UM MINUTO DE SILÊNCIO, que ressalta a importância de cultivar o silêncio em nossa vida diária.

Por que buscar o silêncio tornou-se vital para a nossa sobrevivência como espécie

São Paulo, 5h45 da manhã.

Ônibus, carros e motos já desfilam pelas ruas a todo vapor. As buzinas, tímidas, parecem se poupar para os próximos minutos, quando a próxima leva de carros eclodirá em fúria, pronta para encontrar o seu espaço ao sol. E é quase certo que os pobres mortais que cometeram o pecado de acordar já com o grande astro a postos, brilhando no céu, logo se arrependerão de ter usufruído da ‘soneca’ extra: não demorarão para concluir que aquele mimo quinze minutinhos custaram caro…muito caro.

Assim é o dia-a-dia na maior metrópole do país, aonde a disputa por cada milímetro de espaço começa em sintonia com os primeiros raios de Sol, trazendo como companhia o grito cacofônico e desesperado das buzinas. Impacientes com o estancamento de veículos, as opções tornam-se limitadas, espremidos no pelos quatro cantos de lataria: sintonizar na estação de rádio preferida, aproveitar para responder algum e-mail pelo celular ou até mesmo fazem ligações, antecipando o mea culpa de um atraso quase certo. O ruído finalmente reverbera pela sua coluna, e chega até a sua cabeça, na forma da notícia não tão otimista cantada pelo âncora da rádio, do e-mail bomba disparado durante a madrugada por algum fornecedor ou talvez pela falta de compreensão de alguém que aguardava aquela reunião tão importante.

O exemplo pode parecer exagerado, e talvez nem faça parte da sua realidade. Mas, com exceção de um ou outro elemento, ela faz parte de um grande número de indivíduos que habitam as grandes metrópoles do planeta.

O silêncio se tornou algo raro, senão inexistente, para um grande contingente de pessoas. E isto não é só “ensurdecedor”. Com o tempo, pode vir também a ser enlouquecedor. O cidadão urbano do século XXI se tornou um escravo do barulho. Não só foi aprisionado pelo ruído externo, como também se foi escravizado pelo ruído interno, soterrado por uma avalanche de pensamentos – afinal, dados, informações, posts e notícias para processar não param de chegar…

Este vício tem nos custado caro. Síndrome do pânico, ansiedade e depressão são apenas as doenças mais comuns oriundas deste estilo de vida e um grande sinal de que nossa mente não é tão infalível assim.

Independentemente destas consequências, a maioria ainda insiste em perpetuar a roda da loucura, como se não houvesse preço a ser pago. Para o cidadão pós-moderno, a aversão ao silêncio ainda parece ser maior do que enfrentar as consequências de uma vida agitada. O silêncio não lhe é natural, e o vazio pode ser encarado como um verdadeiro inferno. “Mente vazia é a oficina do diabo”, diz o dito popular.

E a mente cheia, o que seria? O paraíso na Terra?!

Na natureza, pistas para uma possível resposta…

Muitos buscam intuitivamente a paz de espírito no ruído do vento sobre as montanhas, na intermitência das ondas do oceano ou a cantoria dos grilos e cigarras no meio do mato. A harmonia visual e sonora da natureza tem esse poder mágico de anular preocupações e ansiedades em poucos minutos de contemplação. Um remédio perfeito – e, claro, natural. Pode não haver silêncio total, mas há um barulho dito “perfeito”, sincrônico.

20-01-2017

Mas, distraídos, acreditamos que é o que se passa fora que nos acalma e deixamos “passar batido” que todo o processo é interno. A natureza atua apenas como um agente, um facilitador para que tal estado de paz surja dentro de nós. Ao retornarmos, deixamos a nossa paz nas montanhas ou na beira da praia. Na cidade, seremos sortudos se tivermos doses homeopáticas dela. Afinal, as duas não combinam. Será mesmo?!

O silêncio do ser, o único “barulho” que é eterno

Assim como a natureza pode servir como um agente para a nossa paz, o caos da cidade grande pode atuar como um agente para a guerra em nosso interior. O mundo exterior a nós, assim, torna-se um campo de prática para que disciplinemos o nosso mundo interno. E não há dúvidas de que na cidade, buscar a paz se torna um desafio muito maior, mas não impossível.

Nesta empreitada, talvez nos ajude lembrar que trazemos em nosso peito um instrumento capaz de replicar a mesma frequência perfeita encontrada na natureza. Ele, afinal, é parte dela.

São poucos os seres humanos neste mundo que chegaram à conclusão que é no nosso coração que reside a chave para a nossa paz de espírito – e não em nossa mente. Para muitos, esta informação ainda soa como ingenuidade e romantismo. Mas é impossível estar nesse século e não ter percebido que nossa mente pode agir como um trem desgovernado na maioria das vezes e que, se não for controlada de forma apropriada, descarrilará mais cedo ou mais tarde, na forma de doenças, TOCs e neuroses. Ainda assim, uma compreensão mais profunda deste tema está limitada apenas àqueles que conseguem cultivar o silêncio, que funciona como um canal de comunicação com o coração, e permite-nos não só escutar seus batimentos, mas também seus anseios. Não à toa, todos os mestres espirituais e todas as religiões existentes são unânimes quanto à importância do cultivo do silêncio e da prática meditativa. Isto não é tão difícil de compreender: se aguçarmos a nossa percepção, concluiremos que todos os barulhos e ruídos ao nosso redor são de natureza transitória. O único elemento que permanece ao fundo, dissolvendo todos os demais, é o silêncio. Não importa o volume ou a intensidade dos berros, gritos, buzinas, marteladas ou o arrastar de móveis do vizinho ao lado – tudo no fim é engolfado por ele. Uma característica divina, sem dúvida.

O silêncio e a sobriedade

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É impossível ignorar o excesso de barulho no mundo de hoje.

As lideranças parecem perdidas, incapazes de elaborar propostas integrativas, optando por repetir o erro de modelos econômicos e políticos lapidados no século XX. Estes já se provaram incapazes para abarcar os anseios e necessidades dos cidadãos deste século.

O século XXI nos exigirá mais, muito mais.

A escala de complexidade dos problemas que enfrentamos não conseguirão ser resolvidos com o nível de consciência atual existente no planeta. Qualquer repetição de soluções e atitudes adotadas no passado não mais funcionará. Seremos espremidos até que reconheçamos essa verdade. Qualquer solução ou medida originada no que é falso cairá com uma velocidade muito maior do que antes. Para constatar isso, basta ficar atento aos padrões de notícias nos jornais e nas redes sociais. Tudo o que não tiver lastro na verdade JÁ está caindo muito mais rápido. Nós, brasileiros, temos testemunhado isto na carne, e colhendo os frutos de décadas e décadas de mentira. Não mais estamos conseguindo colocar para debaixo do tapete a verdade amarga de que somos uma nação movida à corrupção. E não estou falando somente dos nossos ilustres conhecidos de Brasília.

Para sair deste buraco em que nos metemos, necessitaremos de mais sobriedade e razão do que nunca. E isto não será responsabilidade exclusiva dos nossos políticos, mas de todos os cidadãos. Cultivar o silêncio, pelo menos por alguns minutos por dia, pode ser uma excelente ferramenta para buscar essa paz, esse centramento.

Na verdade, não nos resta outra solução – e por uma simples questão de lógica: o que brota do ruído e da confusão, crias do medo e da ansiedade, jamais poderão originar outra coisa senão mais ruído e mais confusão. Já nos encontramos no meio desse turbilhão, deste ciclo perverso. Agora necessitamos é de coragem, firmeza, sobriedade, reforçadas pelo do cultivo diário do silêncio, para sair dela.

Scorsese: a compreensão de Deus através do silêncio 

Para terminar, não poderia deixar de falar de um dos melhores filmes que assisti esse ano e que promove excelentes reflexões sobre este tema.

No filme Silêncio (2017), o cineasta Martin Scorsese retrata de modo sublime a relação entre o Deus e o silêncio, centrando a trama em torno da angústia do padre jesuíta Sebastião Rodrigues, vivido por Andrew Garfield, quando este se depara com a situação de vida dos japoneses católicos, sujeita a todo tipo de tortura e provações. 

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No momento derradeiro do filme, ele ora a Deus para que os poupem do sofrimento e pede uma resposta. Mas, em troca, recebe um excruciante silêncio. Por outro lado, pouco tempo depois, é colocado em uma posição na qual tem a oportunidade de salvar todas aquelas vidas, caso renunciasse à fé cristã e abraçasse o budismo. Relutante, é então provocado pelo seu ex-mestre e ex-padre, vivido por Liam Neeson, que afirma que o que impede que ele atenda a vontade dos japoneses são seu orgulho e obstinação. Teria ele o direito de se colocar no papel de um salvador, tentando assumir o papel do próprio Cristo?! Seria esta, de fato, a vontade de Deus? Será que ele conseguiria viver consigo mesmo depois, sabendo que poderia ter evitado a chacina?

Questões complexas e magistralmente elucidadas à plateia através de belas imagens que inundam a tela, SILENCIOSAMENTE

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