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17 de fevereiro de 2016

Quanto mais ganância, melhor?! – Tatá Vianna

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“Nada é suficiente para quem o suficiente é pouco.”

                                                                            (Epicuro)

É comum ouvirmos nos dias de hoje uma apologia contra bens materiais, contra as suas influências e poder de sedução. Mas será que eles são realmente os culpados? Ou será que a nossa psique, tão complexa e contraditória, é a real vilã da história? Será que grande parte das pessoas ainda não está preparada para ter uma relação saudável com o dinheiro? Ou não se abrem para a prática de outras ações, como a generosidade? Para investigarmos um pouco mais, precisamos entender mais sobre a ganância e a avareza, dois comportamentos muito comuns dentro da esfera humana.

A ganância deve ser entendida como um intenso desejo por perseguir bens e riquezas. É o oposto da generosidade e a melhor amiga da avareza, que é o apego desmedido a bens materiais. O que uma conquista, a outra protege – e reforça.

Ambas não estão relacionadas à riqueza em si, mas sim ao caráter de cada um. A necessidade de acúmulo seria a mera consequência da atuação destas energias (ou comportamentos), e as duas formam uma dupla dinâmica contra a generosidade, tão enfatizada e relembrada pelas religiões e líderes espirituais.

Desta forma, a ganância e a avareza são  os resultados de necessidades que se encontram na intimidade da mente humana. Podemos destacar, por exemplo, a necessidade constante de afirmação e demonstração de poder, relacionada a uma baixa autoestima. Admitir tal comportamento é inadmissível para o indivíduo e dessa forma, o foco de sua atenção é transferido para o objeto (no caso, bens materiais).  Segundo Freud (1917), o dinheiro para o avarento, no sentido mais amplo dessa posse, é o seu objeto de desejo, uma patologia psíquica. Quando a pessoa é dominada pelo mal da avareza tem como objetivo o controle, a autoridade e o domínio, obcecadamente.

Além de se apresentar na forma de acúmulo  de bens materiais, a ganância pode ainda reforçar a falta de confiança em qualquer pessoa, a impossibilidade de lidar com a adversidade, a utilização da repressão como forma de ação e o egoísmo extremado. A pessoa avarenta e gananciosa tem medo de perder as coisas que possui e é capaz de fazer qualquer coisa para obter aquilo que deseja.

Na peça teatral “O avarento”, o dramaturgo francês Jean Baptiste de Molierè apresenta Harpagon, um idoso ganancioso e “pão duro”, respeitável homem de negócio, que desconfia da lealdade de todos, tem medo de ser roubado e trata a sua família como extensão de seus negócios. No seu individualismo, o mais importante e crucial na vida são “seus tostões”. A única coisa que importa é possuir, ter e acumular, o que falta é justamente o dinheiro, que está acumulado e não deve ser gasto. Neste ambiente, as possibilidades de relacionamento afetivo são muito complicadas e se desdobram em cenas cômicas clássicas.

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Na literatura e no cinema também temos exemplos clássicos de personagens “avarento”.  Lembremos de  Ebenezer Scrooge, do livro  “Conto de natal” – escrito pelo romancista inglês Charles Dickens em 1843 (e que inspirou o filme “Os Fantasmas se Divertem”, com Bill Murray) – onde Ebenezer Scrooge é um homem avarento e solitário. Odeia o Natal e tudo o que ele representa. Ignora familiares, empregados e não sabe o que é compaixão e generosidade. Até aparecerem os três fantasmas (do passado, presente e futuro) e lhe mostrarem como será a sua vida se continuar com o seu comportamento mesquinho, que não permite sequer cumprimentar as pessoas e desejar um “bom-dia”. Com ajuda dos fantasmas, o milionário acaba caindo em si, revendo seus conceitos e se tornando uma pessoa melhor.

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O personagem clássico Gollum, de O Senhor dos Anéis, é um exemplo notório da avareza. Seduzido pelo Anel (símbolo máximo de poder e sedução no mundo inventado por Tolkien), a criatura passa a sua vida protegendo e cultuando aquele objeto, que lhe provoca deformações físicas e comportamentais. Lembremos que Gollum já fora um hobbit normal antes do Anel chegar em sua vida. Mas, no momento em que o objeto aparece, ele passa a ser a sua razão de existir e, para possuí-lo, fará de tudo – inclusive matar o seu melhor amigo.

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Por mais “feias” que possam parecer, é importante tomar cuidado para não confundir essas características com a ambição.

A ambição, na “dose certa”, é uma qualidade que move o crescimento pessoal e profissional, ativa novas conquistas (como um emprego melhor), um novo bem de consumo, uma casa, um novo curso, etc.

A ambição sem limite é o problema – pois ela desaguará facilmente na ganância e na avareza e trazer a perda de controle sobre princípios de caráter básicos como a honestidade, o respeito ao próximo, o escrúpulo e o bom senso. E sem eles, anulamos o respeito aos limites impostos pelo direito do outro e à solidariedade do convívio humano.

Qual arma temos para combater a ganância e a avareza quando ela nos pegam? Simples: a prática da generosidade. Ela não é tão simples para muitas pessoas, pois envolve doação com (ou sem!) retribuição. E muitas vezes a pessoa carrega tantas mágoas, que não se permite tal gesto. Mas ela é o melhor antídoto, a melhor poção para desfazer o mal que estes comportamentos nos fazem. Comece aos poucos e observe o bem que isso lhe fará! Às vezes, precisamos quebrar barreiras para dar um passo. Mais tarde, ao reconhecermos a nossa melhora, passamos a fazer com maior naturalidade.

É preciso “dar para receber”, inclusive no amor. Ao esperar retribuição por um gesto de amor, estará sendo imposta uma condição. Não espere retribuição como condição, ela virá, fique certo, essa é a natureza da generosidade!

Assim, eu te pergunto querido leitor: Como você tem trabalhado a sua generosidade ultimamente?

Temos que tomar muito cuidado com os vários “anéis” que nos cercam, para não acabarmos como o Gollum!

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