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29 de abril de 2016

Rascunhos manchados de café – André Cardoso

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Quando manchas aparentemente inofensivas podem sabotar a busca pelo nosso propósito…

Eram 15:21 da tarde e o café frio em cima da mesa tremia com a vibração dos dedos rápidos que digitavam sem parar.

O relatório era para ser entregue as 15:30 em ponto e as mãos já eram mais velozes do que a mente.

Enfim, era o que precisavam.

A encomenda, como sempre, seria entregue no horário.

No último minuto, como num espasmo de ansiedade pelo término do pequeno projeto, a mão esquerda avança sobre a xícara de café e temos um pequeno acidente: derramo o líquido esquecido sobre algumas folhas de rascunho ao lado, preenchido por uns rabiscos que sempre fazia.

Coisas sobre as quais eu refletia.

O projeto não tinha sido prejudicado, graças a Deus!

 

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Mas, só depois de me livrar do “piloto automático”, foi que me dei conta das manchas sobre o rascunho.

Eram planos de liberdade, brinco.

Na verdade rabiscava sobre coisas que gostaria de começar.

Mas que sempre terminavam adiadas devido aos compromissos do emprego que pagava as minhas contas.

Coisas “bobas”: iniciar um curso de meditação, começar um trabalho voluntário, fazer programas diferentes com os filhos, montar o plano de negócios da pequena empresa (dos meus sonhos) que gostaria de abrir,… Agora tudo estava em um tom de marrom translúcido, manchado pelo sabor que não aproveitei.

Porém, o relatório ficou impecável (!), pelo menos a meu ver. Estava limpo, organizado, bonito, coerente, bem escrito!

Parecia perfeito…mas, apesar do orgulho vitorioso, um vazio me incomodava.

Era como se todo o trabalho carecesse de alma.

Terá sido eu mesmo que o escrevi? Ou um robô que por um instante tomou conta de mim?

Absorto em meus pensamentos torturantes, fui interrompido, as 15:48, pelo alarme do ramal telefônico de minha mesa: o gerente solicitava a minha presença em sua sala.

 

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Fui recebido com um sorriso que só se via da boca pra fora e um aperto de mão mais frio que aquele café.

– Parabéns, bom trabalho. O relatório estava muito bom! Mas agora precisamos (…)

Um novo relatório surgiu no horizonte.

Este deveria ser mais completo e talvez “roubasse” o meu sábado.

Sem problemas, eu estava acostumado com isso.

Rebobinei meus pensamentos e reproduzi em câmera lenta o flagra (!) : ‘Eu estava acostumado com isso’.

Aquilo me bateu como um soco no estômago. O vazio só aumentava.

Eu estava ficando zonzo!

Vieram flashes na cabeça de uma vida que eu não tinha.

Eu me via de cima correndo na grama, com um sorriso estampado e natural.

Diferente daquele simulado pelo meu gerente.

Aquela alegria vinha de dentro.

Eu experimentava uma sensação de bem-estar.

Era uma liberdade feliz, parecia um comercial de TV e… o telefone toca novamente e fui acordado do transe.

O gerente me lembrava de umas premissas financeiras que o relatório deveria conter e – pronto!

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Eu estava de volta à realidade!

Sem pensar, para adiantar o trabalho comecei a analisar os gráficos do relatório anterior e as mãos rápidas começaram a se aquecer!

Afinal, eu era bom naquilo: eu era uma máquina!

Quase no sentido literal…

Estava novamente em uma espécie de transe, inconsciente, dentro do meu próprio cotidiano.

Continuava, portanto, prisioneiro de minhas escolhas.

Eu não era o autor, era o refém.

E os sonhos no rascunho, ao meu lado.

Manchados de café.

– Texto originalmente publicado por André Cardoso no blog Ideias Já em 12 de abril de 2016.

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