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18 de maio de 2016

Separar para compreender, integrar para evoluir – Daniel Vianna

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“No amor, um mais um é igual a um.”

Jean Paul Sartre

A humanidade, seguindo os passos evolutivos de uma criança, aprendeu a separar os elementos do mundo de forma a melhor compreendê-los. É chegada a hora de unir as peças deste quebra-cabeça.

No livro “O Visconde Partido ao Meio”, de Italo Calvino, temos a curiosa história de um nobre visconde, Medardo di Terralba, que se encontra gravemente mutilado após uma batalha.

Atingido em cheio por uma bala de canhão, o pobre visconde acabou sobrevivendo, mas não sem sequelas. O pobre homem teve o seu corpo dividido pela metade. E as duas partes, suas metades esquerda e direita, passaram a perambular pelo mundocada uma  à sua maneira. Entretanto, algo distinguia as duas partes do nobre homem: uma, extremamente má e intransigente e a outra, justa e bondosa. No enredo (e não quero me estender na história para que o leitor tenha a chance de ler na íntegra a obra de Calvino), a metade má será a primeira a retornar para o lar e causar todos os tipos transtornos antes que a metade bondosa o alcance.

O realismo fantástico de Calvino traz um olhar bem humorado sobre a divisão e sobre as dificuldades da reintegração – na obra, as duas metades, embora tenham pertencido ao mesmo corpo, acabam por se tornar inimigas. Afinal, são caracterizadas pela polarização: uma é extremamente boa – tão boa que chega a irritar alguns personagens do livro e a outra é o mal incarnado, uma praticante inveterada de injustiças.

Voltando à nossa realidade (mas mantendo a obra de Calvino rodando em nossa memória RAM ;)), creio que nos encontramos em um momento crucial onde é muito importante refletirmos sobre os conceitos de separação e integração.

Ao longo de nossa jornada evolutiva, com o objetivo de compreender o mundo que nos rodeava, nos vimos obrigados a isolar determinado objeto ou fenômeno. Era preciso separar em partes para entender o TODO. Buscávamos entender os padrões e a ordem das coisas. O conhecimento tornou-se ramificado, com inúmeros desdobramentos. A sociedade foi obrigada a se especializar. Surgiram as profissões. E, dentro das profissões, outras inúmeras divisões.

Mas, a partir do século passado, passamos a vivenciar um processo intenso e acelerado de integração.

Em todos os sentidos.

Não à toa, tivemos o maior salto tecnológico da história da humanidade e a maturação do processo de globalização. Em contrapartida, vivenciamos duas grandes guerras mundiais e outras sangrentas batalhas, a polarização ideológica e política através das disputas entre os EUA e a União Soviética e testemunhamos o lado negro da ciência e da tecnologia com o lançamento das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki.

No século XX, atingimos o nosso ápice material como humanidade.

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Mas foi somente no início de século XXI que nos demos conta de quanto isso havia nos custado. Uma das infalíveis regras deste universo é que a fatura sempre chega.

Algo, de fato, havia ficado para trás.

Mas o que seria este algo?

E em que fase desta integração estamos?

Quando ela vai acabar?

Eu arrisco dizer que ainda temos um considerável caminho a percorrer.

Neste início de século XXI, testemunhamos – com ansiedade e desespero – a continuidade deste intenso processo de integração. Com a diferença de que as mudanças em grande escala agora acontecem quase que diariamente!

Colocar o pé no freio parece algo impossível. E talvez nem mesmo seja a solução.

Para completar, parece que finalmente assimilamos que o planeta corre um risco real de sobrevivência, caso continuemos com a mesma “pegada”.

É inegável que o cenário tal como ele se apresenta gere uma onda de medo que, por sua vez, é o melhor amigo da intolerância, da violência e da competitividade desenfreada.

Desta forma, neste passo a passo para a integração, caminhamos carregados de contradições entre o discurso e a prática.

Exemplos temos aos montes.

Na esfera política, testemunhamos líderes de estado que se autoproclamam como a solução para todas as mazelas de seu país, ao mesmo tempo em que rotulam e diferenciam o seu próprio povo.

No mundo corporativo, notamos um esforço constante para “integrar” e “otimizar” os processos, em nome de uma infinita busca por “eficiência” ao mesmo tempo que “desintegram” os seus colaboradores, estimulando uma competição desenfreada entre eles e estabelecendo metas exclusivamente orientadas para um resultado positivo no final do ano (não à toa, é cada vez maior o número de pessoas insatisfeitas com o próprio emprego e dispostas a abandoná-lo em prol de um projeto pessoal).

Nas relações familiares, enxergamos a luta de pais e mães para se dividirem entre os seus vários papéis – papéis que estão se confundindo cada vez mais. Afinal, será que realmente é possível “virar” a chave totalmente quando colocamos o pé em casa, sem descontarmos nossas frustrações em nossos filhos e cônjuges? Será que conseguimos manter por muito tempo um tipo de comportamento em casa e outro completamente diferente no trabalho? E quando este trabalho invade o espaço de casa?  Criamos a ilusão de que necessitaríamos nos tornar super-heróis para dar conta de tudo. Qual seria o custo de se tornar “super-alguma coisa”? Será que essa seria de fato a solução mais sustentável no longo prazo?

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A lógica da integração nos desafia em todas as esferas de nossa vida. Nos mergulham em contradições e geram dor e dúvida.

Mas o que faltaria para um total alinhamento entre o discurso e a prática? O que está faltando para este inevitável “caminho rumo à integração”?

A última, mais resistente e principal barreira a ser ultrapassada diz respeito ao elemento humano. Na nossa busca desesperada pelo conhecimento, especialização e tecnologia no último século, ele foi deixado em segundo plano, colocado em “modo repouso”.

Conseguimos aprimorar os modelos dos nossos carros, nossas empresas, nossas residências, nossas televisões, mas não conseguimos evoluir, na mesma medida e intensidade, no nosso interior. Houve um intenso desequilíbrio. Nos esquecemos do tripé “corpo, mente e espírito”.  Agora, acuados, nos deparamos com um enorme passivo, que se manifesta na forma de doenças psicológicas, desequilíbrios econômicos e um meio ambiente que agoniza.

Talvez até tenhamos nos deixado seduzir por esse processo de separação e esquecido de que, quando começamos tudo isto, tentávamos compreender o TODO.

Talvez tenhamos nos iludido de que ficar pelas partes bastaria.

Ledo engano.

Atuamos por muito tempo na casca e nos esquecemos do núcleo.  

Ao contrário dos que pregam a ira de Deus para conosco ou abraçam previsões apocalípticas, acredito não há nenhum tipo de injustiça ou destino fatal em curso: o universo é preciso, lógico e cirúrgico – colhemos o que plantamos.

Desta forma, não podemos mais continuar a caminhada de forma saudável e produtiva sem reconhecermos o que não está integrado – começando, claro, com uma análise  de nós mesmos.

Não adianta mais estarmos de corpo presente em um lugar e com a cabeça em outro.

O momento requer que sejamos inteiros.

Mas, para que isto aconteça, fatalmente teremos que nos dividir primeiro – assim como o nosso amigo Medardo di Terralba.

Afinal, se para compreender o mundo externo, aprendemos a isolar o problema, formular hipóteses e testá-las, por que seria diferente com o nosso mundo interno?

Talvez tenhamos receio da nossa metade “má”, que quer ficar estagnada e nos puxar para baixo, impedindo qualquer passo rumo à evolução. No caso do visconde, não houve a possibilidade de escolha: a bala de canhão fez o trabalho por ele e o dividiu em dois. No nosso caso, talvez tenhamos ainda que encarar muitas balas menores, que aos poucos vão rompendo a casca. Um processo que pode ser adiado por muito tempo. Enquanto resistirmos, haverá dor e agonia.

A busca desenfreada e quase paranóica pela felicidade nos dias de hoje não passa de um mero fragmento do que buscamos de fato.

O ser humano busca, na verdade, ser inteiro. A felicidade é apenas um dos inúmeros desdobramentos.

Mas, cuidado: ser inteiro não significa ser autossuficiente. Todo sentimento de competição, inveja, humilhação e vitimização partem do nosso senso de incompletude – precisamos recuperar a nossa energia e senso de existência roubando a energia do outro. Precisamos sempre compará-lo conosco, diminuí-lo, julgá-lo ou mesmo se fazer de “coitadinho” para preencher uma parte nossa que anda vagando, perdida por aí: uma parte da qual ainda não tomamos conhecimento – lembrando que a parte “boa” do Visconde não sabia da existência da sua parte “má”!

Ao nos tornarmos inteiros, paramos de ser “vampiros” e de sabotar a energia alheia. E, somente assim, encontraremos a verdadeira harmonia.

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Logo, o desafio da humanidade para este século está lançado. Tivemos tempo suficiente para segmentar, dividir, compreender. Chegou a hora da prova final.

Não será fácil, pois todos nós teremos que encarar este desafio nos níveis individual e coletivo. Para complicar ainda mais, carregamos a noção de que separar sempre foi mais fácil do que integrar. Considere um quebra-cabeças, por exemplo. Montá-lo, peça por peça, requer dedicação, trabalho, raciocínio e paciência. Precisaremos das mesmas matérias-primas para enfrentar o momento atual.

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Espero sinceramente, caro leitor, que você, ao contrário da história de Medardo di Terralba, não espere ter o seu peito varado por uma bala de canhão para enxergar os desafios que precisam ser enfrentados.

Preste muita atenção nas peças que estão fora do lugar.

E tenha a coragem e a humildade suficientes para encaixá-las!

“Para os seres despertos, há somente um mundo comum.”

– Heráclito

 

O texto acima foi inspirado pelos fundamentos da Teoria Integral, de autoria de Ken Wilber, filósofo e pensador americano, e retratada na coleção de livros do autor. Caso tenha interesse, compartilho abaixo o seu site:

http://www.kenwilber.com/home/landing/index.html

 

 

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