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28 de abril de 2015

Admirável mundo “Clone” – Daniel Vianna

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Por que nunca necessitamos tanto de “selvagens” ou o que a distopia publicada por Aldous Huxley em 1932 tem a nos ensinar sobre os dias atuais…

O termo “Bokanovsky”, cunhado na notável obra de ficção de Aldous Huxley (“Admirável Mundo Novo”), refere-se a um processo fictício de clonagem, direcionado às castas inferiores – leiam-se indivíduos que funcionariam como as engrenagens da nova sociedade; essenciais no coletivo, mas descartáveis como indivíduos, e diante dos quais não se poderia tolerar qualquer tipo de rebelião, com grandes chances de pôr tudo a perder.

No futuro previsto por Huxley, todos os indivíduos – tanto os da elite, ou castas superiores (Alfas e Betas), como os de castas inferiores (Gamas e Epsilons), seriam produzidos in vitro, e, desde pequenos, seriam condicionados a aceitar o seu papel na sociedade – incluindo a casta a que pertencem e a aceitação irrestrita dos seus ofícios diários – estes, sem exceções, exauridos de qualquer possibilidade de excitar intelectualmente o indivíduo (os raros casos de “despertar” eram imediatamente punidos com o exílio em alguma ilha remota). O mal-estar eventual, como uma indesejada crise existencial, poderia ser rapidamente reparado com pequenas doses da célebre soma – a droga que rapidamente promovia todo o “preenchimento” que qualquer ser humano necessita.

Amor, alegria, exultação, Deusa soma podia ser tudo isso e muito mais, funcionando como “o” verdadeiro pilar daquela sociedade.

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Mas voltemos aos indivíduos clonados – a base da pirâmide da sociedade descrita no livro. Submetidos aos trabalhos menos nobres daquele universo (ao ver dos “generosos” idealizadores, eram todos “devidamente condicionados” desde a incubadora para tal, o que impeliria qualquer sofrimento – ahã(!)); são obrigados, durante o ofício, a fitarem a todo instante, os seus “irmãos gêmeos”, que estão fazendo exatamente a mesma coisa.

Não sei quanto a você, caro leitor, mas eu não consigo talvez pensar em algo mais aterrorizante que tal cenário, se repetindo por sete horas diárias (sim! – a jornada era de somente sete horas, devidamente recompensada com o prêmio diário – soma é claro!), ao longo de toda uma vida – visto que a velhice e a doença eram inexistentes naquele futuro distante. Uma infernal repetição (ou repetições), do ponto de vista do indivíduo, cercado de “espelhos” por todos os lados. O comportamento de manada é levado ao extremo pelos arquitetos do dantesco futuro para eliminar qualquer prenúncio de “nascimento” da consciência individual. Não precisamos nos dar ao trabalho de inferir que talvez esta seja a prisão voluntária mais bem elaborada de todos os tempos. Como se tal covardia não fosse suficiente, as castas inferiores, ainda na incubadora, eram planejadas para serem intelectualmente limitadas, feias e – golpe de misericórdia – de baixa estatura.

Ainda assim, o livro tem a decência de mantê-los na categoria de humanos. Triste notar que, no não tão admirável mundo atual (e em especial no Brasil de hoje), as coisas não sejam tão diferentes do que fora preconizado por Huxley.

A soma e o processo Bokanovsky, entretanto, assumiram outras formas. O fenômeno que ocorre nos dias atuais – e que vem se acelerando principalmente neste início de século – é muito mais fatal – pois aos olhos de poucos ele é perceptível. O medo é o que mantém a engrenagem do mundo de hoje. Não temos a soma como recompensa por um dia de trabalho, mas sim o prazer fugaz, o atendimento imediato dos nossos impulsos e desejos.

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Em troca destes, nos submetemos empregos desumanizadores, chefes intragáveis, ficamos reféns de relacionamentos doentios e incompatíveis. E por que – perguntaria você – muitos aceitam esta realidade, sem no mínimo questioná-la?

É ele – o medo – que não deixa você sequer pensar no primeiro passo rumo a uma realidade mais condizente e alentadora.

E, para piorar a nossa vida, tudo ao nosso redor contribui para alimentá-lo: desde o noticiário da televisão às ameaças de chefes e colegas de trabalho, ao parceiro que ameaça te deixar se você não for bem-sucedido. A esta maré de incongruências, buscar a sensatez é algo heroico e louvável. Em um mundo que valoriza as aparências e a superficialidade, flertar com a verdade pode ser altamente incômodo. E quando digo verdade, quero ressaltar a SUA verdade. Pois, afinal, ela é individual e intransferível. Quando não a buscamos, nos tornamos como os clones Bokanovsky de Huxley – estereótipos de um mundo binário e artificial; reféns de nossos impulsos, buscando nossa parcela de soma no mundo, ignorando nosso vazio existencial, insensíveis e lutando por migalhas.

Caímos nesta vala comum porque, de modo inconsciente, desejamos ser clone de alguém.

“Como assim??”, você perguntaria, atônito.

Eu respondo: clone do seu pai ou do seu chefe (se eles forem profissionais bem-sucedidos e tiverem uma MB na garagem), clone daquele colega que “pega geral” ou é promovido todo ano, clone daquele amigo descolado, clone daquele cara que a faz a propaganda da cerveja etc.

Mas e você, onde estará neste jogo de espelhos? Qual será o modelo (ou ilusão) que você está perseguindo no momento?!

A esperança é que a cura coletiva para este “estado de hipnose” reinante na atualidade reside no próprio indivíduo. Huxley traça o personagem “O Selvagem” como o personagem desperto que põe em xeque a ordem das coisas daquele novo mundo. Embora o seu final seja trágico (me perdoe pelo spoiler), ele simboliza o ser humano em sua essência, sem superficialidades; com o seu lado bom e mal, suas emoções, dores e tristezas – sem falsas aparências.

Um indivíduo que prefere morrer (desculpe novamente pelo spoiler!) a ser corrompido.

Em um mundo que, a cada semana, é fustigado por novos eventos destrutivos, aparentemente randômicos – podemos citar desde o trágico atentado ocorrido em Nice, onde um indivíduo levou a cabo centenas de vidas, e mutilou o futuro de milhares ou mesmo os conflitos raciais em curso nos EUA  – cabe reflexão de que há algo de muito errado acontecendo em nossa sociedade. Cito, por exemplo, o fato em de – em pleno século XXI – , ainda apresentarmos uma grande incapacidade de reconciliação, aceitarmos discursos “binários e maniqueístas” (alô Donald Trump e fanáticos religiosos!!). A alienação, acompanhada do reforço de mensagens que aumentam o medo e tensão (quem assiste Jornal Nacional hoje em dia, tem a impressão de que não acordará no dia seguinte…), nos tornam as vítimas prediletas de líderes e governantes que buscam apenas a manutenção do poder.

Esta percepção é pessoal, reitero.

Você poderá citar dezenas de contra-argumentos que desmentem este ponto de vista (e todas poderão estar igualmente corretas). Mas a sua objetividade correrá o risco de tornar a questão rasa e encerrar o assunto. Do meu lado, consigo apontar, com razoável certeza, que na próxima semana uma outra notícia irá se sobrepor a estas (afinal, meu amigo – a engrenagem – tal como no Admirável Mundo Novo, deverá continuar girando!!) e você irá esquecer este evento, até que outro similar aconteça, e talvez, com muita boa vontade, você consiga traçar um paralelo entre os dois.

Dito isto, somente tenho a esperança que, no nosso dia-a-dia, tentemos ser mais “selvagens” e autênticos (no sentido que Huxley tentou transmitir) e menos “civilizados” e assustados, que vivem apenas para a sua dose diária de Soma!!

Enfim, que sejamos melhores!

Comentários

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2 Comments on “Admirável mundo “Clone” – Daniel Vianna

edi
28 de junho de 2015 em 22:31

Li Admiravel Mundo Novo no colegio, sem maturidade p me aprofundar na leitura. Hj, tive a oportunidade de relembrar, lendo seu texto( gostei mto). Todos temos medos q negamos a qualquer custo…..

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dhunziker
28 de junho de 2015 em 22:38

Edina, obrigado! É verdade! Este livro escrito há tanto tempo reflete muito os dias atuais, em que todos se contentam em ser cópias sem descobrir a verdadeira essência ou propósito. Inevitavelmente, para se chegar lá, tem que encarar medos e crenças mais profundas. Por isso que Huxley coloca o Selvagem na jogada! Ele é o ser humano fora de lugar naquele mundo aparentemente “perfeito”!! Muito obrigado pelo comentário!

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