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11 de fevereiro de 2016

Uma bike no divã – Daniel Vianna

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Símbolos de uma revolução nas grandes cidades, é cada vez mais comum encontrar bikes recorrendo às sessões de terapia. Vítimas da pressão do cotidiano, dos maus tratos de seus usuários e da competição com outros meios de transporte, elas pagam um alto preço para encontrar o seu espaço…

– Um minutinho, por favor! – falou baixinho o doutor, um triciclo de setenta anos, emendando na sequência um pedido de desculpas. Nervoso, desligou o celular que havia acabado de tocar histericamente, cortando de forma abrupta a fala do seu mais novo paciente. Empunhou, então, o caderninho de anotações. A jovem bicicleta, ansiosa, recomeçou:

– Doutor, tudo começou na tarde de ontem. – Seu guidão começou a se revirar, buscando uma posição mais confortável naquele divã adaptado. Continuou: – Meu “mestre” me guiava para o seu trabalho. Saímos atrasados e ele estava um pouco afoito. – fez uma pausa, tomou fôlego:  Sem me avisar, mudou o nosso caminho de rotina. Nunca havia me conduzido daquele jeito: quase acertamos uma motocicleta e um ônibus, ao mesmo tempo! Passamos em cima de enormes crateras no chão! Subimos na calçada. Quase atropelamos pessoas! Estava aguentando bem até ali. Mas, a certa altura do trajeto, eu comecei a sentir uma tremedeira intensa, começando nas rodinhas, subindo pelos tubos e chegando até o guidão. Foi então que… – a bicicleta interrompeu a fala, como que tomada por um sentimento de pânico. O doutor interviu, inclinando a coluna em direção ao divã e falando em tom paternal:

– Mantenha a calma, meu jovem amigo. Você está seguro agora! – a bicicleta assentiu com o guidão. O doutor percebeu que estava ficando muito comum atender pacientes naquela faixa etária. Todos com essa tremedeira característica. – Está se sentindo melhor? – a bicicleta fez que sim. – Continue, por favor! – solicitou o agora curioso doutor.

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– Bem, imediatamente após a tremedeira, as minhas rodas travaram! Travaram, doutor! Simplesmente não respondiam! – disse a bicicleta, aumentando o tom de voz. O triciclo pôde perceber toda a sua angústia. A bicicleta continuou: – Mas o pior ainda estava por vir! Ele – o meu “mestre” – me ergueu no meio da rua e começou a bater violentamente contra as minhas duas rodas, impaciente. – Neste ponto, lágrimas começaram a descer dos seus olhos. – Imagine doutor, a minha vergonha! Ele me ameaçou, dizendo que iria comprar um modelo mais novo! – Neste momento, o doutor ergueu uma caixa de lenços (que sempre mantinha à vista para aqueles momentos) em direção à pobre bicicleta.

– Consigo imaginar como se sente… – e, com um sorriso amigável, emendou: …apesar de pertencer a outra geração! Na minha época, meu jovem, nossos “mestres” só nos utilizavam para um final de semana no parque e olhe lá! Ficávamos encostados às árvores por horas, sempre debaixo de uma boa sombra, enquanto os nossos “mestres” ficavam ali sentados, fazendo pic-nic… – e o doutor abriu um sorriso e deu uma gargalhada ao relembrar das cenas. – Desculpe-me, acabei me empolgando!

– Imagina! Por favor, continue! – a jovem bicicleta já havia inclinado o guidão a cento e oitenta graus, impressionada com o relato do doutor.

– Então, no meu tempo era assim: ficávamos horas parados entre uma corrida e outra, tínhamos tempo de sobra para jogar conversa fora com as bicicletas e triciclos nos intervalos. Quase não havia motocicletas…

– Puxa! Mas então, como veio parar aqui? – a bicicleta, extasiada com o relato, esqueceu-se de todo aquele mal-estar e das tremedeiras.

– Depois de servir meu “mestre” por quase quinze anos, ele me doou para um orfanato. Lá havia uma enorme biblioteca e, nas horas vagas, enquanto as crianças descansavam, flertava com alguns livros de psicologia. Interessei-me de imediato pelo tema, e resolvi adaptá-los para a nossa classe. Desde então, venho ajudando automóveis, minivans, motocicletas, triciclos, bicicletas a superarem os seus traumas e frustrações. Só não atendo os ônibus porque não temos espaço. Mas, quem sabe, no futuro? A demanda é crescente e eles também estão precisando…

– Puxa, que história, hein?! Eu não me imagino servindo ao meu “mestre” por todo esse tempo! Quinze anos?! É uma eternidade! Tenho certeza de que logo, logo, ele vai me trocar por um modelo melhor! – e a bicicleta finalmente se mexeu, paralisada até aquele momento com a fascinante biografia do doutor.

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– Pois é! Mas, voltando ao seu caso: não se iluda! Os tempos são outros, meu jovem! Ser bicicleta hoje é completamente diferente do que há quarenta anos! Os problemas que vocês estão enfrentando hoje em dia são os mesmos que os carros e motocicletas já enfrentaram. Longas jornadas, stress e competição constantes, maus tratos. – o doutor estava se empolgando. – Cabe a você decidir se quer continuar com esse “mestre” ou não! Muitas bicicletas que eu atendo relataram casos de abuso, iguais ou piores que o seu. Os tempos não estão fáceis!

– Mas o que eu posso fazer para reverter a situação, Doutor?! – disse a bicicleta, desesperada.

– Trave o guidão, freie repentinamente, sei lá! Só se livre desse seu “mestre”! Não foi a primeira vez que ele te tratou mal, foi?! – o doutor indagou, já prevendo a resposta.

– Não, não foi – disse a bicicleta, baixando o guidão.

– Definitivamente, a sua condição só irá piorar se você continuar sob os cuidados – se é que podemos utilizar essa palavra – deste seu “mestre”! Livre-se dele, o quanto antes! – o doutor parecia ter uma forte convicção do que deveria ser feito.

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– Ele vai me bater, não é?! – a bicicleta começou a prever possíveis desfechos para o momento. – Vai me abandonar? Vai me vender, doar?! Doutor, não sei se tenho coragem! – havia um tom de pânico em sua voz.

– Tudo pode acontecer, meu jovem! Mas certamente você irá se abrir para o campo das possibilidades! Tenha um pouco de fé! Nesta condição é que não pode ficar! Qualquer desfecho será melhor do que isto! – o doutor percebeu, então, que estava quebrando todos os protocolos da sua relação com o paciente. Não importava: não aguentava mais ver tantas bicicletas jovens sendo abusadas, expostas a todo tipo de violência!

– Sim! O senhor tem razão! Vou ter que descobrir um jeito de me livrar dele. Torço para que um dia, nós, as bicicletas, possamos escolher os “mestres” que desejamos!

– Sim, com certeza, meu jovem! Mais cedo ou mais tarde, alguma jovem bicicleta inventará algum aplicativo no qual você poderá escolher o “mestre” com que mais se identifica. E, assim, todo este sofrimento terá chegado ao fim!

Um despertador tocou: a sessão havia terminado. A bicicleta, então, se levantou do divã, confiante. Chegou a abrir um sorriso. O doutor, sobre três rodas, adiantou-se para abrir a porta:

– Torço para que esta tenha sido sua primeira e última sessão! Me coloque a par das novidades!

– Pode deixar, doutor! Obrigado! – inclinou-se e mexeu o guidão para expressar a sua gratidão.

A jovem bicicleta sentiu que deixara aquela sala com bons pressentimentos, mas também com um frio na barriga. Entretanto, de uma coisa tinha certeza: não baixaria o seu guidão para mais ninguém!

De agora em diante, seria uma bicicleta com “B” maiúsculo.

Mal sabia a jovem bicicleta o que o futuro lhe reservava. Exerceria uma enorme influência sobre as outras colegas de ofício. Não só se livraria do seu indesejável “mestre”, como inclusive incitaria uma leva de outras bicicletas a fazerem o mesmo. O seu lema se tornaria o “mantra” de toda uma geração:

“Mexeu comigo, é roda presa e guidão travado!”

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